Defesa & Geopolítica

Partidos radicais ganham força e ameaçam Europa

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Ilustração: Matt Kenyon

SIMON NIXON

Algo excepcional está acontecendo na política europeia. A rebelião populista que viu partidos pequenos assegurar quase 25% dos assentos do Parlamento Europeu nas eleições de maio parece estar se acelerando em vezes de enfraquecer, como alguns previam.

No Reino Unido, onde os políticos ainda estão atordoados com o referendo da Escócia — quando 45% dos escoceses votaram pela independência —, o Partido Conservador, do governo atual, foi atingido pela deserção de um segundo parlamentar para o Partido da Independência do Reino Unido, contrário à União Europeia. Na Suécia, o Democratas Suecos, de extrema direita, obteve 13% dos votos nas eleições gerais deste mês e agora detém o equilíbrio de forças no parlamento. Na Alemanha, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD), contrário ao euro, mostrou que agora é uma força eleitoral ao conquistar 12,2% e 10,6% dos votos nas eleições nos Estados de Brandemburgo e Turíngia, respectivamente.

Uma pesquisa recente sugeriu que Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional, na França, de extrema direita, ganharia do presidente François Hollande em uma eleição com dois turnos. Na Grécia, o partido radical de extrema esquerda Syriza hoje lidera as pesquisas e pressiona muito para a antecipação das eleições. Na Espanha, uma pesquisa recente mostrou que 20% dos eleitores apoiam o Podemos, partido de esquerda criado há seis meses.

Por toda Europa, os principais partidos tanto de esquerda como de direita estão vendo sua base eleitoral se fragmentar, forçando-os a competir por um posicionamento central que está encolhendo. A natureza dessa rebelião varia de país para país e não tem uma base ideológica coerente identificável como nos episódios revolucionários europeus anteriores ou até no movimento do “Tea Party” americano.

Em alguns países, particularmente no Norte da Europa, a ameaça vem de partidos claramente de extrema direita. Em outros, como Grécia e Espanha, o maior desafio vem dos radicais de esquerda. Alguns grupos populistas, como o francês Frente Nacional e o italiano Movimento Cinco Estrelas, são mais difíceis de classificar por combinarem elementos dos dois lados.

Mas há algo em comum nesse fenômeno pan-europeu: um repúdio às elites europeias, intensificado pela crise financeira.

Parte do problema é que os principais partidos europeus e formuladores de políticas optaram por soluções tecnocráticas para as falhas sistêmicas expostas pela crise, segundo Jonathan White, da London School of Economics, em um ensaio da Revista de Ideologias Políticas.

Os formuladores de políticas de centro-direita enfatizam a necessidade de solucionar problemas estruturais que eles culpam pelos males econômicos europeus: impostos e gastos públicos excessivos, burocracia ineficiente, mercados de trabalho e de produtos rígidos.

Os formuladores de políticas de centro-esquerda ressaltam a necessidade de atacar o que acreditam ser as causas do lado da demanda da atual crise: salários inadequados, insegurança no trabalho, poucos investimentos públicos, aumento da desigualdade e desregulamentação excessiva.

Alguns partidos populistas estão confortáveis com o livre mercado do capitalismo, mas culpam a crise pelo fracasso ético de indivíduos e grupos, sejam eles banqueiros, fraudes nos benefícios ou imigrantes ilegais.

Outros partidos populistas pensam que o sistema econômico está moralmente falido e pedem uma redistribuição de renda e poder mais radical.

Os principais partidos europeus têm dificuldades em responder à revolta populista porque os eleitores cada vez mais os veem — e a outras instituições elitistas — como parte do problema, produtos de sistemas políticos e econômicos arruinados, atolados em nepotismo e corrupção.

Desafiados por essas demandas por reformas ou revolução, alguns políticos proeminentes tem tentado adaptar suas políticas para satisfazer os populistas.

Muitos países agora são governados por grandes e desconfortáveis coalizões formadas por antigos partidários de centro-esquerda e centro-direita, como é o caso na Grécia e na Finlândia. No Parlamento Europeu, os principais partidos se uniram para impedir que os partidos populistas ocupassem as principais posições dos comitês aos quais foram indicados.

A Europa já enfrentou reações contrárias ao establishment antes. Talvez a atual também fracasse com a recuperação econômica — embora esse momento possa estar distante, com o crescimento cambaleando este ano e até mesmo as previsões mais otimistas indicando que a queda do desemprego e o aumento dos salários serão lentos. Mas os riscos econômicos que surgem da revolta populista estão crescendo.

Primeiro, a Europa pode enfrentar um longo período de governos nacionais fracos e instáveis, diz Mats Persson, diretor do centro de estudos Open Europe. Isso dificultará a realização de reformas significativas que impulsionem o desempenho econômico.

Segundo, a revolta populista pode reduzir o espaço político para reformas pan-europeias. A agência de classificação Standard & Poor’s alertou na semana passada que o sucesso eleitoral do partido AfD poderá ter implicações na classificação de crédito da zona do euro à medida que torna ainda mais difícil para a Alemanha apoiar os países mais fracos da região.

Fonte: The Wall Street Journal

 

 

 

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