Defesa & Geopolítica

Tratado de forças nucleares torna-se um fardo para a Rússia

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08/12 /1987 Washington DC – EUA: Mikhail Gorbachev e o presidente dos EUA Ronald Reagan assinam o Tratado INF (Forças Nucleares de Alcance Intermedia) na Casa Branca.

O Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF) foi assinado em dezembro de 1987, em Washington, por Ronald Reagan e Mikhail Gorbatchov, que por meio dele se comprometeram a destruir todos os seus mísseis balísticos e de cruzeiro, com base em terra e cujo alcance estivesse entre mil e 5.500 km (médio alcance) e entre 500 e mil km (curto alcance).

Por que a Rússia assinou esse tratado? Porque os mísseis americanos Pershing 1A, Pershing 2 e BGM-109G, montados em bases na Europa e armados com ogivas nucleares, poderiam bombardear toda a parte europeia da URSS até às cidades de Arkhangelsk, Gorki e Batumi. A duração de voo de um míssil desses até à capital do país não duraria mais de 12 minutos. Já os mísseis soviéticos de médio alcance SS-10, P-12, P-14 e RC-55 e, em menor medida, os OTP-22 e OTP-23, chegariam a qualquer um dos países da Otan até às margens do oceano Atlântico. A eliminação de toda uma classe de mísseis nucleares que nos ameaçava mutuamente se tornou, no início dos anos 90 do século passado, uma grande contribuição para o abrandamento das tensões entre Moscou e Washington.

Ao contrário da Rússia, os EUA não fazem fronteira com nenhum país que possua mísseis de médio e curto alcance (MMCA). Eles não tinham qualquer interesse em que, por exemplo, a Turquia ou o Paquistão se livrassem desses tipos de mísseis, ou que a China e o Irã aderissem a esse tratado. Além disso, toda a política externa posterior norte-americana se organizou de modo a obter vantagens unilaterais na expansão de mísseis e armas convencionais. Assim, em 2002, a administração de George W. Bush se retirou do Tratado de Defesa Antimíssil – considerado a pedra angular da estabilidade internacional em ambos os lados do Atlântico. Esse tratado limitava seriamente os sistemas de defesa antimíssil de ambos os países, não lhes permitindo assim desestabilizar o equilíbrio entre a defesa estratégica e o ataque estratégico. Mas Washington não considerou os interesses de segurança da Rússia e começou a implantar seus sistemas ao longo das fronteiras russas, justificando isso como uma “proteção contra os Estados párias”, entre os quais estariam o Irã e a Coreia do Norte. Segundo especialistas, nem Teerã nem Pyongyang têm, ou terão em um futuro próximo, mísseis capazes de atingir os Estados Unidos ou os países da Otan.

Violação do equilíbrio estratégico

Além disso, em violação ao tratado INF, que exigia a destruição de todos os estoques de mísseis de médio e curto alcance, bem como daqueles em depósitos e seus componentes, Washington utiliza blocos dos mísseis Pershing em testes de mísseis-interceptores, e os drones supostamente usados para caçar terroristas correspondem, por suas características táticas e técnicas, a mísseis de cruzeiro terrestres, banidos pelo tratado. Os sistemas de lançamento Mk-4, que os Estados Unidos pretendem colocar em bases na Polônia e na Romênia, também podem ser usados para lançar mísseis de cruzeiro de médio alcance, por isso sua instalação também representa uma grave violação desse acordo.

Mas nada disso incomoda Washington, que se recusou a considerar os interesses de Moscou no âmbito do Tratado sobre Forças Armadas Convencionais na Europa e não tentou sequer convencer os seus aliados da Otan a aderir a esse acordo. Essa situação criou, juntamente com os países da Europa Oriental que se juntaram à Otan, uma superioridade em armas convencionais três ou quatro vezes maior para a aliança  perante a Rússia.

Por quanto tempo Moscou poderá tolerar isso? Não estará na hora de passar das palavras, com as quais o Kremlin tenta esfriar as cabeças quentes em Washington e Bruxelas, para a ação?

Direito de sair

Quem sabe um dos passos de tal ação não deva ser uma declaração do Kremlin anunciando a retirada da Rússia do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, que na situação atual já está se tornando um fardo para o país? Compreendo que esta proposta será recebida pelo público e pelos própios militares de modo ambíguo. Mas, por outro lado, como devemos reagir à implantação do sistema de defesa antimísseis norte-americano na Romênia e na Polônia? No Ocidente, ninguém esconde que ele está direcionado contra Moscou. Como podemos compensar tal ameaça sem arruinar a economia do Estado com uma nova corrida armamentista? Por exemplo, com a colocação na Crimeia de bombardeiros de longo alcance Tu-22M3 e também do sistema tático-operativo Iskander-K.

Para fazer os nossos Iskander serem capazes de alcançar as bases da Otan, torna-se necessário aumentar o alcance de voo dos seus mísseis. Ou seja, sair do tratado INF. Isso não custará muito à economia nacional. Além disso, se esse passo for consistente com os interesses nacionais e com o reforço da segurança da Rússia, então penso que deveríamos fazer isso.

Víktor Litóvkin: Jornalista militar e coronel reformado do Exército russo.

Fonte: Gazeta Russa

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