Defesa & Geopolítica

O trágico destino da 30ª Brigada

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Por: César Antônio Ferreira – “Ilya Ehrenburg”.

A cena é candente. Uma aglomeração fulcral em volta de um homem, cuja barriga nos indica se não uma vida idílica, pelo menos confortável, em um violento contraste com o uniforme envergado, verde camuflado de campanha.  É triste. Mulheres em prantos a procura de notícias dos maridos, irmãos, sobrinhos e filhos. A falta de respostas objetivas enfurece os presentes e as recriminações caem sobre o porta-voz militar. Nada há que se possa fazer, frente às reclamações raivosas, pois são justas. O que dizer para uma mulher sobre o desaparecimento do seu filho, ou para outra, que não sabe o paradeiro do seu marido, pai dos seus filhos. Revelador, no entanto, bem mais que as palavras são os olhares, a expressão de ódio e desprezo pelos governantes da Ucrânia. Nada é mais candente, nada.

A cena descrita, acima, pertence a um vídeo ainda disponível no Youtube, e retrata o desespero dos parentes dos componentes da extinta 30ª Brigada Motorizada de Novograd-Volynsk. Extinta, pois aniquilada. O destino desta desgraçada formação militar foi a de escrever em granito ardente o nome de quase todos os seus combatentes, destes, apenas 83 sobreviventes puderam proporcionar o alívio para as suas irmãs, mulheres e mães, retornando para os seus lares. Acredita-se que outros, cerca de 500, vagueiam pela Ucrânia e Rússia. A Brigada, no entanto, contava com 4.500 combatentes.

A história do cerco e aniquilação da 30ª Brigada Motorizada de Novograd-Volynsk é descrita por um membro sobrevivente desta e publicada em sites da Ucrânia. Traduzida, ela segue abaixo:

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Como a 30ª brigada pereceu: a história de um berdichevita sobrevivente.

Eu não sou um traidor e não sou um alarmista. Mas o que aconteceu com a 30ª brigada de Novograd-Volynsk1 merece o mais cuidadoso exame pelo público. Permanecer em silêncio sobre isso significa trair o país e os homens que foram deixados mortos no solo de Donetsk. Trair suas famílias e o povo, que deu seus melhores filhos sob o comando de retardados com estrelas enormes nas lapelas. Eu não quero criticar ninguém aqui, só espero que a história do frágil garoto de Berdichev2, que conseguiu sobreviver durante esses eventos, ajude os ucranianos a compreender que um oficial incompetente é pior que Yanukovich…

‘Igor’3 foi alistado no exército em Berdichev em março. ‘Por apenas dez dias, para treinamento’ – explicou o oficial de recrutamento. De Berdichev ele foi enviado para Novograd, para a 30ª brigada. Lá eles o levaram para praticar tiro – 12 balas por dia, e isso durou duas semanas. Depois houve exercícios junto da 26ª brigada, e então para a guerra. A tarefa do destacamento em que Igor servia era acompanhar os comboios militares com suprimentos de combate. Eles foram atacados por artilharia, mas Deus os protegeu e apenas caminhões queimados marcaram o caminho desses soldados. Ao final de julho toda a brigada estava reunida e foi enviada à aldeia de Solnechnoye em Donetsk. Lá eles repararam o equipamento, abasteceram, recarregaram munições e partiram para Stepanovka. Stepanovka já estava ‘liberada’4 mas os terroristas a atacavam com morteiros. Durante o primeiro dia a brigada perdeu três homens por causa dos morteiros. Eles estavam aquartelados em porões e sótãos, seu serviço começou. Eles tinham que patrulhar o território, guardar postos de controle, varrer assentamentos capturados.

Igor se lembrará para sempre dos eventos de 12 de agosto. Ele se lembra de uma conversa de dois soldados da artilharia naquela manhã, várias horas antes de catástrofe: ‘Kolya, isso está uma merda. Nós atiramos e não trocamos de posições, eles vão nos cobrir’.  – ‘Vá dizer isso ao comandante, ele já tentou ser um espertalhão e foi fodido pelo comando. Eles o mandaram ficar aqui’; – respondeu o outro artilheiro. Durante a guerra todas as regras são escritas em sangue de soldados mortos. E se os comandos vão contra as regras então a intuição do soldado começa a funcionar e esperar o pior. Igor foi ‘sortudo’, se é que dá para usar essa palavra, ele e mais dois soldados foram enviados para uma missão de reconhecimento na tarde para determinar o deslocamento do poder-de-fogo do inimigo e os acúmulos de forças deles.

Os rapazes caminharam por conta própria por três ou quatro quilômetros e encontraram um comboio de tanques que consistia de 18 T-905! Uma tentativa de contatar o comando quase lhes custou suas vidas – três tanques passaram pelos batedores que estavam deitados na grama. O tanque mais próximo quase esmagou os combatentes. – ‘Era possível tocá-lo com as mãos’; disse. Uma vez que os tanques se aproximaram do comboio e pararam, os batedores contataram o comando e pediram fogo de artilharia após indicarem o setor em que os tanques estavam reunidos. Os tanques ficaram por ali por 1 hora, mas nenhum ataque aconteceu. Ainda, a infantaria nos ‘Kamazes’6 se aproximou dos tanques e o exército começou a se dispersar. Tanques e infantaria começaram a cercar a aldeia – os batedores novamente contataram o comando e reportaram a situação: – 30 ‘Kamazes’ com inimigos e 21 tanques. Dessa vez o comando reagiu (Igor soube disso depois) – ele abandonou a ainda não cercada Stepanovka, deixando um oficial com patente de tenente-coronel para trás.

A catástrofe começou às 22h. Um rodamoinho de foguetes cobriu a aldeia e a localização das tropas. Por mais de duas horas os ‘Grads’7 escavaram as posições da 30ª brigada, e então os tanques e infantaria avançaram para varrer a aldeia. Igor acha que estes eram militares russos. Um recuo dos destacamentos ucranianos começou, ou ainda do que sobrou deles. Os nossos recuaram para Saur-Mogila8.

Dessa maneira três batedores acabaram parando na retaguarda dos separatistas. Os batedores deitaram no campo até a manhã, observando os comboios de suprimentos inimigos passarem. Os rapazes tentaram contatar o comando a noite inteira para descobrir do que eles poderiam fazer nessa situação. Mas o rádio permaneceu em silêncio. Na manhã eles se conectaram e receberam a ordem de irem para a aldeia de Solnechnoye. Eles se moveram por uma estrada rural.

O espanto os esperava na aldeia. Durante o ataque dos separatistas os 18 tanques da brigada tinham sido destruídos, a bateria de artilharia foi aniquilada, bem como outros blindados. De todos os materiais da brigada, apenas dois dos tanques permaneciam em Solnechnoye, que foram atingidos, mas milagrosamente mantiveram sua mobilidade, e um veículo blindado de reconhecimento. Um número extremamente elevado de pessoas pereceu, mas quantos exatamente eles não sabiam. Mas o comando esqueceu-se dos soldados e eles receberam a ordem de seguirem para Saur-Mogila, com os restos das forças. A segunda parte da tragédia se desenrolou ali… Igor não tem forças para se lembrar de tudo. Depois os sobreviventes receberam as ordens de irem para Novograd, para ‘fazer listas de sobreviventes’. Contados. Dos 4.500 soldados e oficiais, 83 retornaram a Novograd-Volynsk e também 500 em outros lugares da Ucrânia. Os comandantes estarão se perguntando onde estarão os outros.

Hoje Igor está em Berdichev. Sem dinheiro, mas vivo. O que acontecerá em seguida ele não sabe. Eles foram dispensados para retornarem para casa e lhes disseram que em breve decidiriam o que fazer com eles…  Nada se sabe ainda dos quase 4.000 soldados e oficiais ‘perdidos’ da 30ª brigada”.

Pode-se abstrair muito do relato do soldado “Igor”. A primeira é a constatação de que o comando da referida brigada era leniente, incompetente, embebida falta de sentido, ou percepção tática, além de estar com toda certeza distante, para não dizer surdo, das aflições dos seus comandados. A fuga do comandante quando este se deu conta da formação do cerco, pois foi o que se deu, com a provável barragem de artilharia com lança-foguetes, algo comum nesta guerra, da a medida certa do caráter deste homem. Outro fato relatado que chama a atenção é o comportamento desleixado, despreocupado no tocante ao fogo de contra-bateria9. É fácil de entender: nestes meses a artilharia das tropas governamentais se fez suprema, sem rival, por parte dos guerrilheiros; mas, este quadro mudou na medida em que caminhões lança-foguetes foram sendo capturados, proporcionando aos defensores de Donetsk meios de resposta. Os artilheiros das tropas do governo ucraniano estão acostumados a realizarem barragens contra centros urbanos de maneira generalizada, e não se viam como alvos prováveis de fogo de contra-bateria, afinal civis não possuem canhões… Este modo de agir contrasta, até então, com a parca artilharia federalista, que possuía apenas quatro canhões D-30A (122mm), capturados, e cerca de vinte lança-foguetes, igualmente obtidos como butim dos cercos anteriores, e que são empregados, sempre, com muita parcimônia, onde a entrada em posição, e o engate das peças para reboque não passa, por vezes, de seis minutos. Em geral as peças de artilharia, obuses, não empenham mais do que seis rodadas, e os lança foguetes sequer são carregados próximos dos sítios de disparo, justamente para evitarem serem descobertos em uma atitude desprovida de total capacidade de reação.

Outro dado trágico percebido foi o recuo sob fogo, com a consequente reunião dos sobreviventes na região de Saur-Mogila, ou seja, entraram na boca do leão. Era uma área disputada com uma referência visível, o monumento ao Exército Vermelho, proporcionando um excelente campo de tiro para os artilheiros federalistas. Não me admira, pois, o desastre, o número de mortes: foguetes são reconhecidamente mortais contra a infantaria desprotegida no campo.

O relata demonstra, também uma espécie de “desejo-delírio” na forma de incorporar nos algozes, a marca de uma força regular russa, ao afirmar que os Carros de Combate eram T-90. Em todas as filmagens feitas nesta guerra civil, não há registro iconográfico, ou de audiovisual, que fuja do padrão T-54, T-64, T-72. O T-54 foi retirado de um monumento ao Exército Vermelho, e um IS-2, também retirado, mostrou-se problemático demais para ser usado. Os federalistas utilizam T-64 capturados, alguns de forma pitoresca, diga-se.

É estranho constatar, mas as tropas governistas costumam se portar de maneira estereotipada. A infantaria não combate sem apoio blindado, ou da artilharia. A incapacidade de infletir10 é notória, pois toda a mudança de eixo nos ataques exige a parada e a concentração, o que mata o ímpeto e favorece aos defensores, altamente móveis em pequenas formações. As arremetidas são feitas, sempre, com concentração de blindados, com o choque destinado aos Carros de Combate T-64, seguidos dos blindados BMP. O rompimento das linhas, ou a penetração de sondagem por parte da infantaria nunca é realizada, e quando se tentou, na cidade de Ilovaysk, obteve-se um sonoro fracasso, onde as forças federalistas impuseram baixas crescentes aos atacantes, cercando-os posteriormente. Ou seja, as tropas ucranianas, notadamente as formações da Guarda Nacional, parecem acreditar que são Panzer Divizionem11, atitude que favorece o esforço federalista, pois estes mais afeitos à realidade, combatem como Partisans12, o que de fato são.

Por fim é interessante notar que a referida Brigada, a 30ª Brigada Motorizada de Novograd-Volynsk, estava sob o comando não de um Oficial General, como é comum na maioria dos exércitos do mundo (a Brigada é a menor unidade comandada por um Oficial General), mas entregue a um Coronel, no caso o Coronel Nesterenko, segundo a Hromadske Tv.

Notas:

[1]: Cidade sede da 30ª Brigada Motorizada. Situa-se na confluência dos rios Sluch e Smilka.

[2]: Cidade natal do autor do relato, “Igor”.

[3]: Nome fictício dado pelo narrador, com o intuito de proteger o autor de futuras represálias.

[4]: Termo usado pelas forças sob o mando do Governo de Kiev para designar cidades conquistadas. As se referem as cidades sob poder das tropas governamentais como “ocupadas”.

[5]: Carro de Combate padrão no Exército da Federação Russa. Não foi identificado em nenhum vídeo feito na zona de combate. Os veículos flagrados em registros iconográficos e audiovisuais foram T-64 e variantes, T-72 e suas versões, T-54 e IS-2, estes últimos retirados de monumentos erigidos em homenagem ao Exército Vermelho.

[6]: Termo popular para os caminhões da linha “Mustang”, fabricado pela empresa KAMAZ.

[7]: BM-21 “Grad” – Granizo. Lança – Foguetes montado em caminhão, Ural, ou ZIL, com alcance entre 20.000 e 30.000 metros.

[8]: Túmulo de Saur.

[9]: fogo disparado em resposta.

[10]: Mudança de direção do eixo principal do avanço de uma força combatente.

[11]: Divisão Panzer – Divisões blindadas alemãs da Segunda Grande Guerra.

[12]: O mesmo que guerrilheiros.

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