Defesa & Geopolítica

Maidan 2

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Maidan nos protestos do início de 2014

Maidan nos protestos do início de 2014

Autor: César Antônio Ferreira (“Ilya Ehrenburg”)

 

Neste ano tenebroso, horrendo, marcado por conflitos sangrentos, onde o ódio aparece como marca, um deles, quase desaparecido da mídia, é capaz de se mostrar elucidativo pelo seu desdobramento. Falo do conflito havido na Ucrânia, mais precisamente no leste da Ucrânia, país marcado pela sina de ser propriedade de um clube de poderosos, políticos que são literalmente donos do estado, e não por outro motivo, denominados de oligarcas.

O conflito em Gaza com suas cenas chocantes e o massacre de mulheres e crianças, aliado à resistência tenaz do Hamás por meio das suas eficientes Brigadas Al-Qassam, de uma maneira natural chama para si a atenção do noticiário. Afinal, Israel premia o mundo com as imagens assustadoras do seu arrogante poder e não se faz de rogado. Mas, é conflito esquecido da nossa mídia, aquele que acontece na Ucrânia, ainda que também seja revestido de maior importância, pois se desenrola com todo o espectro possível da vida humana: a farsa, a traição, o heroísmo, a covardia e o ódio.

Para se ter uma ideia, a farsa se revela na maneira porca com que a mídia deste lado de cá do mundo retrata o conflito civil do leste ucraniano. Não faz muito, o pasquim gaúcho Zero Hora anunciava a “intenção” da OTAN em apoiar diretamente o pateta Petro Oleksiyovych Poroshenko e as suas forças, engajadas no leste da Ucrânia, para “protegê-las da agressão russa”. Piada maior não pode haver, pois o agressor, ali, é o governo instalado em Kiev, tenha o nome que for… Os russos estão do seu lado da fronteira, apenas assistindo quase todo o exército ucraniano somar baixas diárias de vulto, e pesadas perdas materiais. Aliás, para quem sabe ler nas entrelinhas da propaganda, pois o exemplo do Zero Hora não é jornalismo, fica evidente que Kiev está em desespero. E não é por menos.

Acontece que a tática cautelosa, de cercar os federalistas em um amplo bolsão, e depois realizar cercos menores em volta das principais cidades, acabou na verdade por reduzir a frente para uma força guerrilheira que de fato é muito pequena, menos de 12.000 homens. Além disto, forneceu aos guerrilheiros uma imensa quantidade de alvos. As tentativas de cerco aos federalistas não são bem sucedidas pelo simples fato de que o combatente irregular não precisa se apegar ao terreno, por mais que estejam, neste caso, lutando na terra dos seus ancestrais. O pior para Kiev, entretanto, é o plano logístico, afinal, nada é mais difícil do que alimentar, vestir, suprir e municiar 90.000 combatentes em campo. A “Operação Anti – Terroristas” tornou-se um sorvedouro de recursos para a combalida economia ucraniana.

E antes fosse apenas um sorvedouro de recursos. O fato é que as forças ucranianas sairão chamuscadas e moralmente abaladas pela incursão no leste, seja qual for o resultado. Hoje mesmo (escrevo no dia 07.08.2014) a Força Aérea da Ucrânia perdeu um caça MiG-29. No último domingo o Exército da Ucrânia viu 400 soldados largarem suas armas à procura de refúgio e internação na Rússia! E o resultado, que mais parece uma comédia pastelão, foi o pedido de 150 destes para ingressarem no corpo da guerrilha federalista, pelo fato de terem deles desfrutado de maior respeito profissional do que aquele havido entre a tropa e os oficiais de Kiev! Um detalhe interessante desta história é que os jornalistas das agências norte-americanas, instalados como correspondentes em Moscou, não aceitaram convites para entrevistar estes desgraçados soldados. Ora, ora, não surpreende esta recusa, afinal, propagandistas não fazem jornalismo.

Não é só o tom de farsa, entretanto, que se vê nesta guerra, percebe-se também o desespero e a insensibilidade presentes, como de resto estão em qualquer guerra. As forças de Kiev não se furtam de bombardear casas e prédios da cidade de Donetsk. É um ato intencional, uma obra de terror de nítido caráter punitivo contra a população civil, um ato de ódio, insano, uma raiva manifesta por serem eles o que são: russos étnicos moradores por séculos da Bacia do Don. E onde há raiva insana, há o desespero paranoico. As tropas governamentais adotaram o procedimento grotesco dos destacamentos de bloqueio. Se você não sabe o que significam lhe explico com prazer: trata-se de postar a retaguarda sua, tropas armadas para evitar que os seus combatentes recuem de volta para as suas linhas, se por ventura sejam rechaçados pelo fogo inimigo. Não preciso dizer que é um procedimento bem ao gosto de lideranças totalitárias: o NKVD realizava para Stalin as ações de bloqueio, enquanto as Feldjäger (Feldgendarmerie) faziam a alegria de Hitler…

E o regime instalado em Kiev, vai além do uso de Destacamentos de Bloqueio… Bombardeia os seus próprios soldados, não por engano, como em geral acontece em batalha, o famigerado “fogo amigo”, mas de forma intencional, pelo fato simples de uma formação blindada estar isolada, longe das demais forças ucranianas e cercada pelos guerrilheiros federalistas. Kiev prefere matar os seus próprios soldados, esquecendo que uma rendição é aceitável no âmbito militar quando você se vê cercado. Pois, este ato de covardia e desprezo pela vida dos seus próprios soldados se refletiu na negociação para a rendição: 15 veículos blindados já foram entregues e os estrangeiros foram desarmados. Os federalistas garantem a vida dos soldados cercados contanto que eles forneçam provas da participação de estrangeiros, ou seja, vídeos e os mesmos vivos. Ao que parece, existem dentro desta formação, a 79ª Brigada, mercenários de países da OTAN, algo que, todavia, não seria uma novidade: mais de uma centena deles já foram mortos, ou feridos.

Você, caro leitor, que me seguiu até aqui percebeu que os federalistas afirmam que “garantem a vida”? Pois saiba que essa garantia é tênue frente ao ódio desenfreado que é gerado em uma guerra. Dia desses, um garoto muito novo, não mais que 18 anos, parecia ser um menino de 16, foi junto com outro combatente, este veterano, capturado pelos guerrilheiros. Foram interrogados, e muito amedrontados, pois aparentemente sofreram uma surra previa (algo que não me surpreende), para depois ganharem cigarros, quando então foram mandados para um hospital, dado que tinha ferimentos. Entretanto, ambos eram membros da “Guarda Nacional”, que nada mais é do que uma palhaçada nascida da mente fascista dos marginais da Praça Maidan. Postaram, ambos, suas fotos em uma rede social, bem parecida com o Facebook, uma tal de “Kontackt”, ou coisa que o valha, onde estavam uniformizados e fazendo a saudação nazista… Não deu outra: um comando guerrilheiro invadiu o hospital, os retiraram de lá e fuzilaram. É o ódio governando corações e mentes.

E o ódio gera caixões… Em desafio ao retorno sem vida dos seus maridos, irmãos e filhos, as mulheres do oeste da Ucrânia, onde acontecem as convocações, invadem os escritórios dos burgos e empastelam as repartições responsáveis pela conscrição. Já houve atentado à bala em prefeitura do oeste… Fazem, inclusive, bloqueios nas estradas com queima de pneus. Estas ações de desafio civil ao poder central, não ficaram restritas aos pequenos centros urbanos do oeste; espalhou-se no rastilho de pólvora que é a pobreza, assolada pelo custo da guerra, geradora da inflação, desemprego e do corte da ajuda social. Chegaram, assim, à capital ucraniana: Kiev. Sim, caríssimo leitor, acontece agora, neste exato momento o espetáculo Maidan 2, A Farsa! Estrelado pelos mesmos acéfalos de Maidan 1, que agora divididos se digladiam pelas ruas da capital. Poderia aqui apelar para o dito popular e dizer que seria “cômico se não fosse trágico”, entretanto, nem tragédia é, pois o que acontece novamente na praça Maidan, apesar dos confrontos violentos que por agora ocorrem em Kiev, é mais uma farsa: Yúlia Timoshenko e membros do partido Svoboda, insuflam a população contra Poroshenko, o fantoche…

Que seja… A tragicomédia, como se vê não é retratada pela nossa mídia, que repete apenas aquilo que se passa na mídia norte-americana e inglesa. Ora, o que se vê, nestas, é pura propaganda. Por isso tome matérias que fazem de Putin o vilão, como se a bagunça toda ocorresse em território da Federação Russa e não no seu vizinho. Nada, absolutamente nada do que acontece no leste da Ucrânia lhe é informado. Nunca será… A não ser por alguns abnegados, refratários ao abuso e ao sono, com o qual lutam, para tentar trazer até ao querido leitor a informação mínima daquilo que é odioso e horrendo, trágico e farsesco, tenebroso e… Comum.

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