Defesa & Geopolítica

Em escândalo de espionagem, EUA silenciam, Alemanha exige respeito

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Agente americano expulso deve deixar a Alemanha em breve. Ministro alemão do Exterior Steinmeier reafirma que expulsão foi passo certo e exige confiança e respeito dos EUA. Washington não comenta o assunto.

A expulsão do chefe do serviço de inteligência dos Estados Unidos em Berlim causou mal-estar na relação teuto-americana. Enquanto Washington ignora o fato e permanece em silêncio, ministros alemães exigem esclarecimento sobre casos de espionagem contra o país, pedindo confiança e respeito.

O ministro alemão do Exterior, Frank Walter Steinmeier, avaliou nesta sexta-feira (11/07) a decisão de ordenar a saída da Alemanha do chefe da espionagem americana como um “passo necessário” e uma “reação apropriada”, diante a quebra de confiança. A decisão se seguiu à revelação que dois funcionários do governo alemão possivelmente estavam realizando atividades de espionagem para os serviços de inteligência dos EUA.

“Nós precisamos e esperamos uma parceria baseada na confiança”, comentou Steinemeier. A Alemanha deseja nutrir com os EUA um “intercâmbio de opiniões aberto”, que não hesite diante questões difíceis, como tem sido até agora. Perante às muitas crises no mundo – no Irã, Ucrânia, Oriente Médio, Afeganistão – a “ligação transatlântica” é mais do que necessária, disse.

Reforço da parceria

Segundo o ministro social-democrata, é ilusão acreditar que a mitigação dos conflitos e a busca de soluções diplomáticas possam ser bem sucedidas sem uma estreita cooperação com os Estados Unidos. Ele alerta, porém, que essa cooperação precisa ser conduzida com confiança e respeito mútuo.

“Nós queremos revitalizar nossa parceria e amizade sobre uma base sincera”, anunciou Steinmeier, acrescentando ser essa a mensagem que ele vai levar a seu homólogo americano, John Kerry, em Viena. No fim de semana, ministros do Exterior de vários países se encontram na capital austríaca para discutir o programa nuclear iraniano.

Enquanto isso, o governo alemão confirma que o agente americano deve deixar o país em breve. “Foi uma clara ordem de retirada”, comentou o porta-voz do ministério do Exterior. Apesar do agravamento do escândalo de espionagem, a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente dos EUA, Barack Obama, continuam tento um “bom contato”, afirmou, por sua vez, o porta-voz da Chancelaria Federal, Steffen Seibert.

Silêncio americano

Entretanto, Merkel e Obama não conversaram na quinta-feira e no momento nenhum telefonema entre os dois está programado, prossegue Seibert, que, mesmo com os últimos acontecimentos, diz não temer efeitos negativos sobre a amizade teuto-americana.

Esta estaria “profundamente ancorada” em ambos os lados do Oceano Atlântico e viva através de milhões de pessoas. O porta-voz também negou que o escândalo de espionagem possa abalar a cooperação entre os serviços secretos da Alemanha e dos Estados Unidos, como divulgado pelo jornal alemão Bild.

No entanto, o ministro alemão da Justiça, Heiko Maas, espera que os EUA revelem todas as atividades de espionagem contra a Alemanha e as encerrem imediatamente. Os americanos precisam contribuir ativamente para os esclarecimentos das acusações, exigiu Maas ao jornal Passauer Neue Presse.

Até o momento, Washington permanece em silêncio perante o novo escândalo, sem se posicionar oficialmente sobre as acusações ou a expulsão do agente. “Qualquer tipo de comentário sobre alegadas ações do serviço secreto colocaria em risco o patrimônio, os funcionários e a segurança nacional dos EUA”, declarou o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest. Ele salientou que a relação entre os dois países permanece muito importante para os Estados Unidos.

Fonte: WD.DE

História comum agrava espionagem americana na Alemanha

Celular da premiê, espiões na inteligência e no Ministério da Defesa da Alemanha. Os EUA querem controle total e acabam ofendendo os amigos. Isso é ruim, mas não tem como mudar, opina articulista da DW Volker Wagener.

Volker Wagener, articulista da DW

A relação Alemanha-Estados Unidos é algo de especial. Os americanos foram os vencedores da Segunda Guerra Mundial que vieram como amigos: chocolate para as crianças, meias de nylon para as senhoras e democracia para todos. As verbas do fundo para reconstrução econômica da Europa, conhecido como Plano Marshall, jorraram, garantindo um milagre econômico no país arrasado pela guerra. Mais tarde, os EUA protegeram a Alemanha em sua fronteira oriental. Como dito: uma relação especial, mas não normal.

Com certeza, toda a comoção em torno dos espiões da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA na Alemanha também tem origem nessa história prévia. A fórmula é: quem vivenciou tantas coisas boas partindo de Washington, reage ofendido e ultrajado quando os benfeitores se tornam malfeitores. Dos russos e chineses, os alemães esperam espionagem sistemática. Eles não pertencem à família política, seria uma surpresa se esses dois países não estivessem interessados no que, política e economicamente, a Alemanha pensa, planeja e também tenciona fazer.

No caso dos americanos, que comungam valores semelhantes aos dos alemães, a situação é diferente: pressupõe-se que vão cooperar e perguntar. Mas não é esse o caso. Eles não diferenciam entre amigo e inimigo, querem saber de tudo e o conseguem de forma pouco diferente de Havana ou Pyongyang. Eles estão por aí, os espiões americanos, só que ninguém nunca procurou por eles. Essa é uma constatação surpreendentemente nova, que enfurece muito os alemães, pois é uma coisa que eles nunca esperaram e contra a qual nada podem fazer. Que ingenuidade a deles!

É verdade que Estados não conhecem a categoria humana da amizade, eles têm interesses. E os perseguirão com todos os meios possíveis. Transgressões e danos colaterais políticos já são pré-contabilizados. E o que está acontecendo agora é justamente um dano.

O desmascaramento de um espião americano no Departamento Federal de Investigações (BND, na sigla em alemão) e agora também de um informante no Ministério da Defesa em Berlim, comprovam duas coisas: por um lado, além de descarados no estilo, politicamente os monitoramentos vão de míopes a estúpidos. Washington teria outros meios de satisfazer sua sede de conhecimento. Quem é aliado de tão longa data, agindo lado a lado, pode perguntar, se quiser saber algo. Talvez nem sempre se revele ao amigo tudo, abertamente, sem lacunas. Mas é difícil imaginar que a Alemanha não revelasse aos seus parceiros mais próximos tudo o que sabe, por exemplo, no combate ao terrorismo.

Em segundo lugar, a espionagem dos EUA justamente em sua filha de criação, a Alemanha, está fora de qualquer propósito, assumindo traços visivelmente paranoicos. A conduta de Washington é ludibriar seus aliados, e isso em tempos de desafios dramáticos em outras partes do mundo, quando a Rússia tenta se apossar de regiões da Ucrânia, e o Oriente Médio está mais uma vez em chamas – para só mencionar dois focos de conflito.

Os EUA praticam política do poder como se não houvesse amanhã. E no entanto, há muito a nação líder do século 20 anda no mau caminho. Não querer levar isso em conta só faz aumentar o abismo entre aparência e realidade. Seria uma tarefa para o Berlim advertir seu amigo dos perigos de uma política externa excessivamente prepotente.

Certamente, muitos dos excessos nas práticas de espionagem americanas têm sua origem nos atentados terroristas de setembro de 2001. Os quais foram planejados em Hamburgo, entre outros lugares. Desde então, uma certa dose de desconfiança frente à Alemanha faz parte da psique americana – e de forma coletiva. Mas isso não justifica tudo aquilo que tanto enfurece a chefe de governo alemã, os paladinos das relações transatlântica e os cidadãos comuns.

Espionar a comissão parlamentar alemã que investiga sobre a NSA é simplesmente uma burrice. Há maneiras mais fáceis de obter quase todas as informações relevantes. Por exemplo, através dos membros da comissão e de jornalistas. A política americana de “elefante na loja de porcelana” alemã precisa ter um rápido fim. É certo que a Alemanha não tem como responder à altura, pois lhe faltam os instrumentos de poder. Contudo, já em médio prazo, paira a ameaça de um decidido antiamericanismo. E isso, num país que tanto tem a agradecer aos EUA.

Fonte: DW.DE

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