Defesa & Geopolítica

Santos vence eleições na Colômbia e garante continuidade do processo de paz

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Presidente é reeleito numa vitória estreita sobre o rival Zuluaga. Campanha opôs visões distintas sobre as negociações com as Farc, grande desafio do novo mandato de Santos.

O presidente Juan Manuel Santos foi reeleito neste domingo (15/06), no segundo turno da eleição presidencial na Colômbia. Santos recebeu 50,73% dos votos, pouco a mais do que os 45,19% do opositor Óscar Iván Zuluaga, quando cerca de 95% das urnas haviam sido apuradas.

Santos, da coalizão de centro-direita Unidade Nacional, conquistou a vitória com uma diferença de pouco menos de um milhão de votos sobre o ex-ministro da Fazenda Zuluaga, do partido de direita radical Centro Democrático, liderado pelo ex-presidente Álvaro Uribe, segundo as autoridades colombianas.

Santos obteve 7,7 milhões de votos, contra 6,8 milhões para Zuluaga. Quase 50% do eleitorado compareceu às urnas. O voto não é obrigatório na Colômbia. O resultado já havia sido previsto em enquetes realizadas antes da semana passada, quando entrou em vigor uma regra proibindo a divulgação de pesquisas de intenção de voto.

Enquanto Santos centrou sua campanha na continuidade do diálogo com as Forças Armadas Revolucionárias da Columbia (Farc) em Cuba, Zuluaga propôs agir com pulso firme contra os rebeldes, redobrando a ofensiva militar para superar o conflito que deixou mais de 200 mil mortos e milhões de desalojados. Poucos dias antes das eleições, Santos também havia anunciado o início de mais negociações de paz com o grupo rebelde Exército de Liberação Nacional (ELN).

O presidente reeleito, que governa desde 2010, celebrou a vitória dizendo que, com a renovação de seu mandato, a paz ganhou. “A exigência (de alcançar a paz) não é somente para o governo, a mensagem de hoje também é para as Farc e para o ELN. É claro que este é o objetivo final e há de se chegar a ele com seriedade e decisão, este é o fim de mais de 50 anos de violência no nosso país e o começo de uma nova Colômbia.” Santos reconheceu, porém, que não será fácil concluir as negociações.

As dúvidas de muitos colombianos sobre a disposição da guerrilha para deixar as armas – o que levou Zuluaga a ganhar o primeiro turno – serão um desafio para o segundo mandato de Santos, que começa em 7 de agosto. “A luta continua”, disse Zuluaga após felicitar o rival pela vitória. “Lutaremos para que todas as promessas que fizemos sejam realidade para todos os colombianos.”

Apesar de participaram de negociações há mais de um ano e meio, as Farc seguem combatendo nas selvas e montanhas da Colômbia. Até agora, as partes envolvidas só chegaram a acordos parciais para garantir o acesso à terra para os camponeses pobres, permitir que a guerrilha se transforme num partido político sem armas e combater o narcotráfico.

LPF/rtr/dpa

Fonte: DW.DE

Reeleição de Santos na Colômbia é triunfo da razão

A vitória de Juan Manuel Santos é uma opção pela democracia e contra a guerra. Em jogo estava algo tão essencial quanto a paz: o Estado de Direito, opina José Ospina-Valencia, da redação espanhola da DW.

As opções eram votar a favor de uma sociedade inclusiva, como o projeto que Juan Manuel Santos pode seguir colocando em prática até 2018, ou a favor de uma polarização, como demonstrou a campanha de Óscar Iván Zuluaga, candidato apoiado pelo ex-presidente Álvaro Uribe.

Apesar de Zuluaga oferecer um sólido programa de governo, muitos colombianos temiam o regresso do “uribismo” — quando a estigmatização e a perseguição dos que pensavam diferente eram o denominador comum no país.

José Ospina Valencia é especialista em Colômbia da DW

Mesmo reconhecendo que Uribe interrompeu o ímpeto de uma guerrilha cuja violência deixou o país à beira de ser declarado um Estado falido, a divisão de poderes – o pilar de qualquer democracia – foi falha em seu governo. O Estado de Direito foi quase substituído por um “personalizado”. Sob o comando de Uribe, que governou de 2002 a 2010, a Colômbia nunca esteve tão perto de se parecer com a Venezuela de Chávez e Maduro – só que no outro extremo do espectro ideológico.

O fato de Uribe ter mudado as leis para poder se reeleger parece hoje uma anedota, mas é outro sinal claro de que a Colômbia precisa fortalecer a sua democracia, negociando a paz com os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Columbia (Farc) e do Exército de Liberação Nacional (ELN), e não voltar para a aventura da extrema-direita que, ironicamente, nutre-se da existência da ultra-esquerda armada.

Não é à toa, portanto, que o voto foi a favor de uma sociedade inclusiva. Assim, os colombianos mostraram algo que não costuma ser levado em conta: sua paixão pela democracia. Não existe na história da América Latina uma democracia mais atacada do que a colombiana. Há mais de meio século grupos violentos tentam impor um regime “castrista”. Sem sucesso. Em seguida, paramilitares de ultradireita quiseram “refundar” o país. Também sem sucesso.

Hoje, apesar dos conflitos, a democracia volta com força. Um presidente nunca havia sido eleito com tanto apoio: de conservadores, liberais, de diferentes grupos étnicos e associações e da esquerda democrática, que, no governo de Santos, pôde voltar a exercer seu direito de fazer oposição sem ser perseguida ou estigmatizada como um suposto braço da insurgência.

Por isso, o processo de paz é vital para a sobrevivência da democracia na Colômbia: sem uma guerrilha armada, os partidos poderão se focar na resolução dos problemas; sem uma guerrilha armada, a ultradireita perderá o sentido num país laico e multiétnico; sem uma guerrilha armada, os riscos para o Estado de Direito serão menores.

Embora ainda seja necessário convencer alguns civis, militares e guerrilheiros de que 220 mil mortos e 5 milhões de refugiados internos já são um preço alto demais, agora as esperanças estão em Santos e em seus interlocutores do outro lado, que prometeram a paz baseada na verdade e não numa “troca de impunidades”.

Por tudo isso, o resultado desta eleição é um triunfo da razão.

Fonte: DW.DE

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