Defesa & Geopolítica

Porque finge a China ser um tigre de papel?

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A China irá ultrapassar os EUA e se tornar na maior economia mundial já no final do corrente ano, foi a conclusão a que chegou o jornal The Financial Times depois de analisar o relatório do Banco Mundial. Os últimos dados do Programa de Comparação Internacional do Banco Mundial demonstram que a China cresce bastante mais depressa que o esperado.

Nos últimos tempos o PIB da República Popular da China era avaliado em dólares dos EUA ao câmbio de mercado. Contudo o valor de mercado não pode ser considerado um valor definido ou estável devido à volatilidade cambial. Por conseguinte, o Banco Mundial reconhece que o PIB calculado dessa forma é apenas uma “abstração geralmente aceite”. Para efetuar comparações internacionais mais objetivas e fiáveis, o PIB é calculado pela paridade do poder de compra. Na realidade, os dados relativos ao PIB da China apresentados no último relatório foram obtidos precisamente usando esse método.

Foi calculado que em 2011 o PIB dos EUA foi de 15 trilhões de dólares, enquanto o PIB da China foi de 12 trilhões. Visto que, segundo as previsões do FMI, o PIB chinês irá crescer, no período entre 2011 e 2014, em 24 por cento e o dos EUA apenas em 7,6 por cento, este ano a economia chinesa poderá já se tornar na maior do mundo.

O Ministério das Estatísticas da República Popular da China recusou a publicação desse relatório alegando a falta de rigor desses dados. A mídia chinesa, por seu turno, fez eco com as autoridades, indicando que os dados do Programa de Comparação Internacional estão incorretos e sublinhando que a China ainda está longe dos níveis dos países desenvolvidos.

Parece que a China terá as suas razões para fingir que é um “tigre de papel”, supõe o analista de assuntos orientais Andrei Ostrovsky:

“A China não está interessada em revelar o seu poderio porque ainda em 2001 a China entrou para a OMC como país em desenvolvimento e o estatuto de país em desenvolvimento pressupõe uma série de regalias nessa organização. Nesse contexto, a China não planeja se posicionar no futuro como um país desenvolvido.”

Quais foram as regalias que a China obteve ao entrar para a OMC na qualidade de país em desenvolvimento?

O direito a um período de transição de 5 anos para uma abertura gradual do seu mercado interno.

O direito a subsidiar a sua agricultura em 8,5% dos custos da produção.

O direito a subsidiar toda a produção interna destinada ao mercado doméstico. O direito do Estado definir, e de o governo controlar, os preços dos bens essenciais.

O direito à manutenção de limitações na abertura da esfera dos serviços ao capital estrangeiro.

O direito a manter direitos aduaneiros sobre mais de 80 grupos de mercadorias que pressupõe “a proteção dos recursos naturais da República Popular da China”.

O direito à proteção, e respetiva retirada da área do mercado da concorrência, das áreas econômicas ligadas à segurança nacional e que, por esse motivo, não estão sujeitas a uma abertura ao capital estrangeiro, tais como a indústria de defesa, a atividade editorial, a indústria do cinema e do audiovisual e outras.

Ao obter o estatuto de país desenvolvido e de primeira economia mundial, a China iria perder todas essas vantagens. Contudo, por outro lado, isso seria a realização do “sonho chinês”, do qual tanto se fala nos últimos tempos. Apesar de ainda não haver uma única representação desse “sonho chinês”, e a ele serem associadas quaisquer resultados socioeconômicos ou mesmo geopolíticos, a base para a ideia do “renascimento da nação chinesa” poderá ser mesmo o reconhecimento da China como a maior potência mundial.

Mas China não se apressa a obter oficialmente esse estatuto, considera o nosso perito Andrei Ostrovsky:

“Logo que a China obtenha o estatuto de maior economia do mundo, ela terá a responsabilidade de ajudar outros países. Mas a China agora tem de se concentrar na resolução dos seus próprios problemas internos. Pois apesar dos elevados indicadores de crescimento e do valor do PIB, o rendimento per capita continua baixo. Relativamente a este indicador a China acaba de entrar com dificuldade para a lista dos primeiros 100 países. Se considerarmos o vertiginoso envelhecimento da população, o país enfrente um grave problema: como aumentar o nível de vida de 1,4 bilhões de pessoas nessas condições.”

Os próprios chineses continuam não se sentindo como habitantes de um país desenvolvido. O relatório do Banco Mundial foi difundido pela blogosfera chinesa e provocou uma grande quantidade de comentários irônicos de usuários.

“Os preços dos bens de consumo se aproximam do nível dos países desenvolvidos.” “Se uma pessoa é bilionária e tem a seu lado nove pobres, em média eles são todos milionários.” “Felicito a China do fundo do coração por se ter tornado num pobre país desenvolvido.” Estas são algumas das respostas dos chineses às previsões do Banco Mundial.

Fonte: Voz da Rússia


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