Defesa & Geopolítica

O fenômeno do Separatismo no mundo hoje

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Ana Lis Soares

Anexação da península à Rússia reacendeu discussão sobre movimentos em outras regiões, que buscam independência, como Escócia, Veneza, Catalunha e Quebec; há locais com referendos marcados para este ano.

Sempre houve e haverá discussão quando o assunto é ampliar fronteiras”, diz o historiador e professor do Insper, Vinícius Muller, ao ser questionado sobre uma possível onda separatista em curso atualmente.

O tema – uma discussão antiga – voltou a ter destaque nos noticiários, especialmente pelos acontecimentos recentes na península da Crimeia, anexada à Rússia após um referendo em meados de março, em que mais de 96% da população votou a favor da anexação ao país de Vladimir Putin, e que pode ter inspirado outros movimentos em cidades do leste da Ucrânia como Donetski.

Além da Crimeia, outras regiões da Europa ocidental e oriental, do Oriente Médio, da Ásia e das Américas também já foram palco de levantes populares que pedem a separação de seus países: como Veneza – na Itália, Catalunha – na Espanha, Escócia – no Reino Unido, e Quebec – no Canadá. Tais movimentos vem ganhando força e, em meio ao cenário atual, levantam um questionamento importante: o que está acontecendo?

Para o economista e cientista político, professor da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, Marcos Troyjo, não se pode falar em uma “onda separatista” comum e atual, uma vez que os movimentos são bastante diferentes entre si.

“Não há um surto separatista. E, se ele existisse, não seria algo novo para o sistema internacional, e, sobretudo, para a ONU. No final dos anos 80 e início dos 90, com o fim das ditaduras comunistas nos países da chamada ‘Cortina-de-Ferro’ e o esfacelamento da União Soviética, dezenas de novos países compuseram uma nova geografia política mundial. Hoje, seguramente, não estamos perto disso”, defende Troyjo.

Apesar da singularidade dos movimentos, o desejo de independência é comum e ocorre em simultâneo em várias partes do mundo, o que nos traz a sensação de uma ‘onda’ – e, assim como as ondas, não há um controle central, sendo forças espalhadas. Portanto, para entender o todo, precisamos observar e analisar cada um.

Crimeia: anexação ou separação?

Para o historiador Vinicius Muller, a crise na Crimeia é importante, pois dá força ao tema, possuindo características históricas bastante sensíveis.

A crise no leste ucraniano se diferencia de outros movimentos contemporâneos, como na Escócia, por se tratar de uma ‘anexação’ à Rússia (mesmo custando a sua separação da Ucrânia).

Na região, existe uma questão estrutural, que cerca questões culturais e de identidade social, além de questões econômicas relacionadas ao passado, quando ainda vigorava o poder da ex-União Soviética, e que, nos últimos meses, volta com força na voz da maioria, com o referendo realizado em março.

Após a Crimeia, outras regiões da Ucrânia foram tomadas por protestos violentos no leste do país, como em Donetski, Dnipropetrovsk e Luhansk, que também querem separação, especialmente depois de o governo russo anunciar que irá dobrar o preço do gás para o governo de Kiev, atualmente comandado por um presidente pró-europeu, Olexandre Turchinov.

Quebec: movimento de baby boomers

No início da década de 1970, um grupo de guerrilha chamado Front de Libération du Québec iniciou protestos nesta região de língua francesa no Canadá, cometendo assaltos a bancos e sequestrando políticos e ministros, numa tentativa de esparramar o movimento revolucionário.

Por duas vezes, a população participou de referendos: em 1980 e 1995. Mas, em ambas, a maioria optou pelo “não”.

Em 7 de abril de 2014, os cidadão rejeitaram massivamente o governo do Partido Québécois (PQ), principal defensor da independência.

Segundo o cientista político e professor associado da York University, em Toronto, Martin Breaugh, o desejo de independência está concentrado em pessoas entre 55 e 65 anos, os chamados ‘baby boomers’.

Nas gerações entre 18 e 35 anos, o PQ ocupa o 4º lugar no ranking de popularidade. “Isto significa que o movimento de independência em Quebec está seriamente comprometido”, analisa Breaugh.

Entre os jovens, o sentimento que se destaca em relação à independência é a desconfiança. Considerando-se 60% inglês e 40% francês, Alex Morency-Letto, 24 anos, comunicador social, é exemplo disso.

“Existe medo, pois não sabemos o que viria depois. Depende muito de qual partido levará Quebec à Independência. Se o PQ ganhasse, poderíamos esperar mais leis e restrições para imigrantes e anglófonos (de língua inglesa). A independência costumava ser um grande projeto social para criar uma social-democracia de estilo escandinavo, mas o principal partido separatista tornou-se, cada vez mais, de direita”, explica Morency-Letto.

O estudante de mestrado em Sociologia da Université du Québec à Montreal (UQAM), Guillaume Latour, é mais enfático: “as pessoas não têm qualquer razão para buscar a independência. Tivemos eleições e o PQ perdeu quase metade dos deputados na bancada por medo de um referendo”, defende.

Escócia: impacto potencial ao mundo

O cientista político Marcos Troyjo acredita que, de todas as dinâmicas citadas, o movimento independentista de maior impacto potencial para o mundo é o da Escócia, onde uma consulta popular para averiguar a vontade de deixar o Reino Unido se realizará em 18 de setembro próximo. “Se isso acontecer, os efeitos serão sentidos tanto na União Europeia, quanto na Otan, pois o Reino Unido se enfraqueceria relativamente como potência”, afirma.

A Escócia se uniu ao Reino unido em 1707 voluntariamente, embora não tenha acontecido um movimento popular pela anexação. Apesar disso, a região continuou tendo instituições, sistema educacional e igreja independentes do governo britânico.

Hoje, mais de trezentos anos depois, o assunto é latente no país, que irá realizar um referendo em setembro deste ano.

“Não usamos o termo separatista e, sim, de independência. ‘Separatismo’ é um termo muito usado pelos britânicos para criar uma associação com os movimentos violentos e militares na Irlanda e na Espanha. Nós não queremos nos ‘separar’, pois ainda haverá uma forte união social entre a Escócia e a Inglaterra após a independência”, explica Malcom Kerr, integrante do movimento “Yes” em Arran – ilha da Escócia – que luta pela saída do Reino Unido.

O movimento “Yes” tem força entre os socialistas e o Partido Verde, além de ter participação popular – de pessoas que não participam da política normalmente. Indo na contramão, a campanha “No” é liderada por três partidos políticos com sede em Londres – Conservador (do atual governo do Reino Unido ), Trabalhista e Liberal Democrata.

“O governo conservador do Reino Unido é particularmente impopular na Escócia, o que reflete uma visão de mundo muito diferente, por isso acho possível conseguirmos maioria de votos este ano, o que daria lugar para a Escócia no Reino Unido”, diz Kerr.

O escocês Gar Brown, que trabalha como guia turístico, também acredita na independência. Apesar de achar que o referendo em setembro terá resultado negativo, o escocês defende a possibilidade de independência em relação ao Reino Unido como uma saída interessante para seu país.

“Caso disséssemos ‘yes’ em setembro, teríamos até março de 2016 para nos separarmos. Isso nos daria tempo para deixar coisas resolvidas. Acho que conseguiríamos resolver as questões facilmente, pois somos uma pequena nação de apenas 5 ou 6 milhões de pessoas e temos um belo país, com exportações interessantes”, afirma.

Catalunha: desde os tempos de Franco

“Os motivos pelos quais lutamos por nossa independência são diversos e têm características antigas. Veja: a instauração do fascismo na Espanha, em 1936, acontece também como forma de conter movimentos de libertação bascos e catalões”, afirma o historiador e líder do Projeto de Independência da Catalunha, UDIC (Units per Declarar la Independència Catalana), Jordi Fornas Prat.

Para entender a questão da região é realmente necessário voltar no tempo. A Guerra da Sucessão Espanhola (1702-1714) opôs os estados bourbônicos (França e a Espanha) aos da Grande Aliança de Haia (Inglaterra, Países Baixos, o Império Alemão, Savoia e Portugal).

Com a vitória dos Bourbon, a Catalunha perdeu seu poder e Barcelona seria ocupada no dia 11 de setembro de 1714.

Dois séculos após a derrubada de Barcelona, capital da Catalunha, partidos surgiram na tentativa de mudar o cenário político local: o conservador Liga Regionalista, que deu origem à aliança Solidaritat Catalana, e outro mais radical representado pelo Estat Català. A união do Estat Català com outros grupos resultou na Esquerra Republicana, partido que está ativo até hoje e advoga pela independência da região.

Com isso, em 1932, as Cortes Constituintes espanholas aprovaram o Estatuto de Autonomia da Catalunha, garantindo um presidente, um governo e um Parlamento à região.

Porém, o governo de Francisco Franco (1936-1975) anulou o Estatuto, destruiu instituições e repreendeu movimentos. Na época, até a língua catalã foi proibida.

Jordi participa de movimentos de independência desde aquela época, quando tinha menos de 20 anos “e já aconteciam manifestações muito reprimidas pelo regime fascista”, lembra. Segundo ele, o UDIC pretende participar das eleições em 25 de maio para se declararem independentes.

“Sofremos um saque fiscal significativo do Estado espanhol. A independência também melhoraria muito o bem-estar social da região da Catalunha”, defende. Além da economia, Jordi Prati aponta questões culturais e raízes históricas muito profundas que fazem o movimento de independência no país tão antigo.

Depois de mais de 30 anos de democracia, o líder do movimento acredita que a luta está ainda mais forte. “Só não teremos independência em breve se houver falta de vontade e excesso de interesses particulares da casta política”, concluiu.

Veneza: “Pessoas se mataram por motivos econômicos”

Em meio a questões culturais e de identidade social, Veneza possui um movimento separatista bastante voltado à questão econômica, apontada como essencial entre os argumentos para a independência da Itália.

“Duzentas pessoas se mataram em Veneza por motivos econômicos. Sem trabalho, sem vida”, conta o sócio-fundador do movimento de Veneza, o partido Independenza Veneta, Nicolas Gardin.

Os separatistas da região apontam problemas econômicos relacionados ao governo italiano que chamam de “ineficiente”. Segundo os líderes, a crise financeira da Itália dos últimos anos impede a antiga “Sereníssima República de Veneza” de competir no mercado internacional, o que classificam como uma “desertificação socioeconômica irreversível”.

Veneza já foi uma cidade-estado bastante desenvolvida e importante economicamente na região do Mediterrâneo, tendo forte comércio. Porém, em 1797, passou a fazer parte da  Itália.

“Hoje, a região de Vêneto tem um PIB de 147 bilhões de euros e paga ao Estado romano cerca de 70 bilhões. Retornamos 50 bilhões em serviços e, assim, 20 bilhões vão para o assistencialismo e precarização do governo, que não possui o menor controle dos gastos”, explica o também sócio-fundador do partido Indipendenza Veneta, Fabrizio Lucato.

“Acreditamos que problemas sociais podem ser resolvidos imediatamente se nos tornarmos uma República de Vêneto, como éramos há 1.100 anos, antes de sermos parte do Estado italiano”, defende.

Para conseguir realizar um referendo em Veneza, o partido aguarda o projeto de Lei 342 (um questionário online foi previamente realizado em março), que está sendo avaliado pelo Conselho Regional. Os líderes políticos o esperam com bastante ansiedade.

Consequências para a geopolítica mundial

Apesar de acontecerem concomitantemente, os movimentos de independência mundiais são inspirados por motivações regionais, especialmente relativos ao contexto histórico, social e econômico específicos de cada região. No entanto, os acontecimentos recentes reacenderam as discussões sobre as possíveis consequências de tal “onda” para a História, geografia, política e economia internacionais.

Para Marcos Troyjo, a análise fundamental, para as relações internacionais contemporâneas, é observar as próximas movimentações de líderes de determinados países.

“Muito mais importante que a vontade separatista dessa ou daquela região, será a maneira com que o poder centralizado de países como Rússia e China lidará com a delimitação de suas fronteiras e de seu entorno e também de como a influência dessas abordagens regionais no âmbito do diálogo dessas duas potências com o Ocidente”, conclui o cientista político.

Fonte: Terra

 

 

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