Defesa & Geopolítica

Artigo: “Quando a História nada ensina”

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friedrich-hegel-biografiaEuropa ocidental e os EUA são corresponsáveis pelo alto grau de tensão na Crimeia que agora leva tantos analistas a falarem em uma reedição da Guerra Fria

Vivian Oswald
, O Globo, 19/03/2014

LONDRES — O impasse a que o mundo assiste na Crimeia — hoje, na prática, já anexada à Rússia — era previsível como foram poucas crises contemporâneas. O que, sim, surpreende, é a falta de habilidade com que a Europa ocidental e os EUA lidaram com a situação. Estes países são, a rigor, corresponsáveis pelo alto grau de tensão que agora leva tantos analistas a falarem em uma reedição da Guerra Fria.

Ninguém pode dizer-se surpreendido pela falta de sutileza com que Moscou conduz suas incursões no antigo espaço soviético. Primeiramente, porque sutileza é qualidade que os russos, aparentemente, reservam à música e à literatura — mas nunca à política, seja doméstica ou externa. Em segundo lugar, porque qualquer iniciante sabe que a imensa perda territorial de 1991, entre outras perdas, é algo que o Kremlin jamais digeriu. Ambas são razões suficientes para que se dedique mínima dose de psicologia ao lidar com uma Rússia que mal começou a se recuperar das humilhações que o fim do século XX lhe reservou. Soma-se a isso o particular significado histórico, militar e afetivo que tem a Crimeia para os russos – de resto, majoritários entre a população da península. É talvez o mais estratégico dos espaços russófilos que o fim da União Soviética deixou para além das fronteiras da Federação.

frase-a-historia-nos-ensina-que-a-historia-nao-nos-ensina-nada-georg-wilhelm-friedrich-hegel-126299Mas psicologia foi coisa que passou muito ao largo das considerações do Ocidente na última década. Os avanços da Otan rumo ao Leste jamais levaram em conta as suscetibilidades russas. E a Ucrânia, com sua conhecida fratura identitária, foi transformada em cabo de guerra. A União Europeia nunca hesitou em tomar partido nas disputas internas — e apressou-se, junto com os EUA, em reconhecer um novo “governo”, apesar das credenciais democráticas mais que duvidosas de seus integrantes. O presidente deposto, Viktor Yanukovich, embora sabidamente corrupto, fora eleito democraticamente — à maneira que faz gosto ao Ocidente. Ou nem tanto, a depender do caso.

A hipocrisia das reprimendas vindas de Washington e Londres é particularmente desconcertante. A Rússia, é verdade, age movida pela beligerância que lhe impregna o DNA. Mas nenhum governo pode ser acusado de intervencionismo sem estrilar quando quem acusa tem na biografia a invasão unilateral do Iraque, as aventuras no Afeganistão, entre outras passagens pouco nobres e uma retórica pontilhada por dois pesos e duas medidas.A diplomacia ocidental mostra-se bem mais cuidadosa ao lidar com a China, por exemplo. Por que relutam tanto em estabelecer relações com Taiwan, para não correr o risco de incomodar Pequim, mas não pensam duas vezes antes de apoiar manifestantes que derrubariam um governo eleito pró-Rússia na Ucrânia?

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O fato é que, entre russos desejosos de restabelecer glórias passadas e ocidentais ávidos para impedi-los, restam desamparados 45 milhões de ucranianos, em seu jovem Estado nacional que, ao que tudo indica, será fracionado — com sorte, sem derramamento de sangue. Entre promessas desastradas e remotas de adesão à União Europeia e à Otan, ou sanções risíveis contra Moscou, o que o Ocidente impotente pode mesmo oferecer de concreto aos ucranianos hoje é um empréstimo — nas condições sempre “camaradas” impostas pelo FMI. O cabo de guerra, como toda corda, vai arrebentar no ponto mais fraco.

Fonte: O Globo, Mundo, Página 30, Quarta-Feira, 19/03/2014 

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