Defesa & Geopolítica

Boom do xisto nos EUA já não atrai tanto dinheiro

Posted by

DANIEL GILBERT

Desde 2008, investidores estrangeiros endinheirados vêm subsidiando o boom da exploração petrolífera nos Estados Unidos, enquanto as empresas gastam muito mais dinheiro arrendando terras e perfurando poços do que ganham vendendo petróleo e gás natural.

Mas o fluxo de dinheiro estrangeiro para as petrolíferas americanas está secando. Em 2013, as multinacionais do petróleo gastaram US$ 3,4 bilhões em participações em campos de xisto nos EUA, menos da metade do que investiram em 2012 e um décimo dos seus gastos de 2011, segundo dados da IHS Herold, uma firma de pesquisa e consultoria.

Por causa disso, os produtores de petróleo e gás natural dos EUA já começaram a cortar gastos. “Os dias de dinheiro fácil acabaram”, diz Amy Myers Jaffe, diretora executiva de energia e sustentabilidade na Universidade da Califórnia, em Davis. “A ênfase será na redução de custos.”

O dinheiro estrangeiro ajudou a cobrir os custos da perfuração de poços profundos e das técnicas para extrair petróleo e o gás de formações de xisto e de outras rochas de baixa permeabilidade nos EUA. O investimento tem custado caro: no ano passado, 80 grandes petrolíferas da América do Norte gastaram US$ 50,6 bilhões a mais do que faturaram com suas operações, de acordo com dados da S&P Capital IQ. Esse déficit foi duas vezes maior que em 2011 e quatro vezes maior que em 2010.

Essas mesmas empresas reduziram suas despesas nos primeiros nove meses de 2013, embora ainda tenham gasto cerca de US$ 18,7 bilhões a mais do que seu fluxo de caixa.

Produtores americanos e canadenses estão “voltando a gastar dentro de suas possibilidades”, escreveram analistas da Sanford C. Bernstein num relatório de análise de dezembro, que analisou os padrões de gastos de 50 petrolíferas.

As empresas também estão se voltando para outros investidores, inclusive de private equity e da bolsa de valores, à medida que compradores estrangeiros perdem o apetite pelo setor de petróleo americano. A mudança tem grandes implicações para a indústria de petróleo e gás natural, dizem analistas, porque os investidores de Wall Street tendem a ser mais sensíveis a lucros e aos preços das ações, enquanto os investidores estrangeiros são, historicamente, mais focados na aquisição de tecnologia e reservas de petróleo.

John Walker viveu essa mudança de perto. O diretor-presidente da empresa de capital fechado EnerVest Ltd. cortejou grandes petrolíferas do Japão, Coréia e China quando decidiu vender grandes participações da empresa nos campos da formação de xisto Utica, no Estado de Ohio.

Mas um ano depois, a EnerVest, que é sediada em Houston, e seu braço de capital aberto EV Energy Partners LP EVEP -3.67% tinham vendido apenas uma parcela dos seus campos na Utica por US$ 284 milhões, muito menos que os US$ 6 bilhões que Walker estava buscando por todos os ativos da formação. E o comprador não veio da Ásia, mas sim do Estado de Oklahoma: uma empresa nova financiada por firmas de private equity e liderada por Aubrey McClendon, ex-diretor-presidente da Chesapeake Energy Corp. CHK -0.84%

“Todo o mercado mudou”, disse Walker em entrevista recente. Investidores asiáticos estavam interessados nos ativos de xisto da empresa na Utica, disse ele, mas poucos fizeram ofertas. A EnerVest mudou de estratégia, dividindo os ativos da Utica em pacotes menores para atrair outras petrolíferas com menos dinheiro disponível.

Aos poucos, os preços baixos do gás natural diminuíram o interesse das empresas internacionais pelo xisto americano, e alguns se arrependeram do investimento. Em julho, a Royal Dutch Shell RDSB.LN +0.84% PLC concluiu que seus ativos de xisto na América do Norte valiam US$ 2 bilhões a menos do que havia estimado. Um ano antes, a BHP Billiton Ltd. BHP.AU -0.93% registrou uma baixa contábil de US$ 2,8 bilhões relativa ao valor de seus campos de xisto nos EUA.

Em 2013, os preços do gás natural subiram 26%, fechando o ano em US$ 4,23 por milhão de unidades térmicas britânicas. Mas esse aumento se deu a partir de mínimos quase históricos. Os preços do gás natural caíram para menos de US$ 2 em 2012, o nível mais baixo em dez anos, à medida que o crescimento da produção nos EUA e temperaturas amenas (que requerem menos calefação) provocaram um excesso de oferta de combustível. Os preços voltaram a subir no ano passado porque algumas geradoras de energia se voltaram para o gás natural para reduzir o uso de carvão.

Alguns dos maiores financiadores do boom de xisto não esperam que as grandes empresas asiáticas e europeias reabram seus cofres tão cedo.

“Eles ainda estão digerindo”, diz Ralph Eads, vice-presidente do conselho e diretor global de investimentos em energia do banco de investimento Jefferies Group LLC. Ainda assim, diz ele, “à medida que os estrangeiros se retiraram, vimos um aquecimento da atividade de private equity”.

No mês passado, a Riverstone Holdings LLC, uma gigante de private equity especializada em energia, anunciou que iria investir até US$ 300 milhões na empresa de petróleo e gás natural Eagle Energy Exploration LLC, de capital fechado.

O mercado de abertura de capital também continua a ser uma grande fonte de financiamento para os produtores de petróleo e gás. A abertura de capital da Antero Resources Corp., AR -2.92% que arrecadou US$ 1,6 bilhão no mês passado, foi a quinta maior do ano entre as empresas com ações negociadas nas bolsas americanas.

 

Fonte: Wall Street Journal

 

24 Comments

shared on wplocker.com