Defesa & Geopolítica

Aqui Deveria Estar Uma Base de Lançamento de Foguetes

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Sugestão: Praefectus
Duda Falcão
Segue abaixo uma matéria publicada na edição de dezembro de 2013 da revista INFO Exame” dando destaque a atual situação do acordo mal engenhado com a Ucrânia que gerou esse desatino chamado “Alcântara Cyclone Space (ACS)”.
Aqui Deveria Estar Uma Base de
Lançamento de Foguetes
A Alcântara Cyclone Space, empresa pública criada com verba
brasileira e ucraniana para explorar serviços de lançamento de
satélites no Maranhão, deveria operar desde 2009. Mas este
esqueleto de ferro e concreto é Tudo o que foi erguido até agora.
 
Por Rodrigo Brancatelli
Revista INFO Exame
Edição nº 336 – Dezembro de 2013
“SÃO TRÊS DA TARDE E SEU ANÍLSON BATISTA ESTÁ ENTEDIADO”
Faz um tempão que permanece sentado na frente de um bar de paredes verdes descascadas, sem letreiro na porta, mas que todos conhecem na região como o Bar do Batista, logo na frente do Jatobá Frangos. Nada de muito emocionante acontece ali na avenida Anel do Contorno, a principal de Alcântara, município de 20.000 habitantes na região metropolitana de São Luís, no Maranhão. “Isso aqui era um movimento danado, mas agora tá muito calminho. Calmo que nem água de poço, sabe?”, afirma Batista.
O bar fica no caminho entre o miúdo porto da cidade e o Centro de Lançamento de Alcântara, área de testes de foguetes da Força Aérea Brasileira, que ficou tragicamente conhecida após o acidente de 22 de agosto de 2003, quando um veículo lançador de satélites explodiu por volta das 13h30, três dias antes de seu lançamento, matando 21 cientistas. Nos últimos anos, o local voltou a viver a efervescência e o otimismo do programa espacial brasileiro, com gente de toda a região indo e voltando de caminhão para trabalhar em um “projeto com o povo lá da Ucrânia”, como diz Batista.
Trata-se do programa Alcântara Cyclone Space, um ambicioso plano dos governos brasileiro e ucraniano para erguer uma nova base e explorar serviços de lançamento de satélites no município. Contratos foram firmados, construtoras escolhidas, mais de 500 milhões de reais investidos, prazos acertados, armações construídas… e algo de errado aconteceu para que quase todos os funcionários fossem dispensados nos últimos meses. “De uma hora para outra, a cidade virou um deserto”, diz Batista. “Ninguém sabe direito o que aconteceu. Faz dez anos que a gente vive entre a animação de ver um foguete decolando e a decepção de nada acontecer”.
É preciso lembrar das aulas de geografia, física e história para entender o que aconteceu em Alcântara, município localizado a 2018’S de latitude, perto da linha do Equador. Essa posição privilegiada permite o uso máximo da rotação da Terra para impulsionar lançamentos em órbitas equatoriais, uma vez que a velocidade de rotação da Terra ali é maior do que em qualquer outra parte.
Isso faz com que os foguetes que carregam os satélites ganhem um impulso extra, economizando combustível. Segundo a NASA, seria possível uma economia de 30% em relação à Europa e de 6% em relação aos lançamentos feitos na americana Cabo Canaveral, na Flórida, a mais conhecida base de lançamentos do mundo.
Assim, desde que os primeiros esboços de um possível programa espacial brasileiro surgiram, em 1960, quando o presidente Jânio Quadros instituiu uma comissão que daria origem ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Alcântara sempre esteve envolta em planos e em muitos sonhos.
Em 1997, após duas décadas de estudos para a construção de um foguete nacional, foi testado o primeiro protótipo do Veículo Lançador de Satélites (VLS-1). Explodiu segundos após a decolagem. Em 1999, outro teste e outra explosão. Na terceira tentativa, em 2003, a ignição prematura do foguete acabou causando a explosão da torre, matando todos que trabalhavam ali.
Segundo o relatório final da investigação concluído pela Aeronáutica em fevereiro de 2004, houve um “acionamento intempestivo” de um dos quatro motores do VLS, provocado por uma pequena peça que ligava o motor. Mas não se sabe por que esse detonador disparou, embora duas hipóteses tenham sido levantadas na época: corrente elétrica ou descarga eletrostática, e a transferência de energia por contato entre dois corpos.
 
ELEFANTE BRANCO / Quase 500 milhões de reais foram
investidos na obra, que deveria ter sido inaugurada há dois anos. 
COM A REPERCUSSÃO internacional do caso, o governo teve outra ideia para aproveitar a base de Alcântara sem correr tantos riscos: um acordo com a Ucrânia para explorar o mercado comercial de lançamento de satélites utilizando um foguete desenvolvido naquele país, o Cyclone-4. Uma empresa pública binacional de capital brasileiro e ucraniano, a Alcântara Cyclone Space (ACS) foi constituída em 31 de agosto de 2006. Enquanto os ucranianos montavam o foguete, o Brasil construía um novo centro de lançamento para a iniciativa. A ideia era capitalizar “vagas” no foguete para quem quisesse lançar satélites ao espaço, fossem companhias particulares ou governos estrangeiros. Boas intenções não faltavam. Os cientistas brasileiros teriam acesso à tecnologia da Ucrânia, enquanto o estado do Maranhão ganharia empregos, escolas, hospitais e universidades em Alcântara.
Mas começa ai uma espiral de prazos e novos aportes financeiros, sem resultados práticos. Segundo a Agência Espacial Brasileira, o investimento inicial para a criação da binacional era de 487 milhões de dólares, divididos entre os dois países. Em agosto deste ano, no entanto, o governo federal autorizou a transferência de mais 33,33 milhões de reais, com a promessa de chegar a 1 bilhão de dólares em investimento conjuntos.
A expectativa era que os seis primeiros lançamentos comerciais ocorressem em 2011. Chegou 2011 e nada. O prazo passou para 2012. Nada. 2013 então? Nada novamente. “Estamos planejando fazer o primeiro lançamento em 2015”, diz o diretor-chefe comercial do projeto, o ucraniano Sergiy Guchenkov. “Metade da construção da base está pronta, e 78% do foguete já está feito. Temos contatos com empresas do Japão e da Itália para lançar satélites. Estamos confiantes que tudo está correndo como o planejado”.
Segundo INFO apurou com técnicos da própria ACS e com funcionários de empresas terceirizadas que trabalham em Alcântara, quase 1000 funcionários foram dispensados nos últimos três meses por falta de pagamento. Fotos mostram que a ACS se resume a um conjunto de esqueletos de ferro, vergalhões de aço, estacas de madeira e alicerces de concreto. Apenas a terraplanagem foi concluída, segundo um ex-funcionário da empresa, que está desempregado.
O próprio mercado levanta dúvidas sobre a viabilidade do projeto. A primeira crítica é que não existe transferência alguma de tecnologia.  Foguete chegaria pronto da Ucrânia, cabendo ao Brasil apenas a responsabilidade pela construção civil da base. Mas esse não é o ponto mais crítico do veículo.
Criado pela empresa Yuzhnoye Design Bureau, o Cyclone-4 foi desenvolvido com base no antecessor, o Cyclone-3, que fez seu primeiro voo em 1977 e foi aposentado em 2009. Ele é capaz de colocar 5300 quilos em órbita terrestre baixa e até 1800 quilos em órbita geoestacionária. Isso não atinge a demanda atual do mercado, uma vez que os satélites geoestacionários pesam acima de 4500 quilos. Essa baixa capacidade de carga torna o Cyclone-4 inviável comercialmente para disputar o mercado internacional de satélites.
“ O projeto de Alcântara é pouco racional.
É como construir um aeroporto novo
que não pode ser usado porque a pista
é curta e os aviões não podem pousar”
“Somos extremamente céticos quanto ao sucesso econômico desse projeto”, afirma o presidente da Associação Aeroespacial Brasileira (AAB), Aydano Barreto Carleial, engenheiro pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e doutor em engenharia elétrica por Stanford. “Trata-se de um projeto pouco racional. É como construir um aeroporto novo mas não utilizá-lo porque sua pista é pequena e os aviões não podem pousar. Não sei explicar por que esse acordo foi realiado, já que as oportunidades de negócio são muito duvidosas”.
 
PARA COMPLETAR o imbróglio, há ainda uma enorme disputa diplomática em jogo. Hoje 75% dos satélites ou sondas lançados pelo mundo são construídos ou utilizam peças feitas nos estados Unidos. E, sem um acordo de salvaguardas entre os dois países, nenhum equipamento com o selo Made in USA poderia ser lançado em Alcântara. Não há expectativa alguma de que o governo americano vá desistir de sua reserva de mercado. Segundo um documento do Departamento de Estado americano vazado pelo site WikiLeaks, os Estados Unidos não permitem o lançamento de satélites americanos desde Alcântara ou fabricados por outros países mas que contenham componentes americanos, “devido à política, de longa data, de não encorajar o programa de foguetes espaciais do Brasil”.
Além de críticas, o projeto ucraniano-brasileiro atrai inveja. Peço menos por seu orçamento. Isso porque o sonho de colocar no espaço um veículo lançador de satélites totalmente tupiniquim continua vivo. O foguete sofreu uma revisão completa após o acidente de 2003, com um aprimoramento nos sistemas de segurança. A previsão é que um voo teste do VLS seja feito em 2014, com o foguete completo sendo lançado em 2017, já com um pequeno satélite a bordo. Só que, enquanto o Alcântara Cyclone Space já recebeu 500 milhões de reais em verbas públicas, o orçamento do VLS foi de 15 milhões em 2013.
“Um projeto não exclui o outro, ainda acreditamos que eles podem ser complementares no mercado”, afirma Raimundo Braga Coelho, presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), autarquia vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. “De fato, concordo que, sem a assinatura do acordo de salvaguardas com os Estados Unidos, os negócios da Alcântara Cyclone Space terão grande dificuldade. E também é verdade que o Cyclone-4 teria dificuldades em levar satélites geoestacionários. Mas a iniciativa ainda pode ser muito competitiva, até porque, no futuro, novas tecnologias farão os satélites serem menores”.
Tanto a agência brasileira quanto a ucraniana afirmam que o projeto do Cyclone-4 continua sendo desenvolvido, com previsão para término em 2015. O entediado Anílson Batista espera ansioso pelo lançamento. “Em 2015, vou ter 68 anos, então não pode atrasar mais do que isso não, rapaz”, diz Batista. “Fala para eles se apressarem porque meu coração não é tão jovem”.
 Fonte: Revista “INFO Exame” – Edição nº 336 – págs. 52 a 57 – Dezembro de 2013
Comentário: Bom leitor, apesar do autor dessa matéria cometer alguns equívocos (como no momento em que o mesmo afirma erradamente o que motivou o governo a fazer esta escolha desastrosa e inconsequente, e também quando transmite que haja inveja por parte daqueles que são contrários a este acordo devido aos recursos já repassados a ACS em detrimento aos repassados ao projeto do VLS, fora também o fato de não ter citado o problema da alta toxicidade desse trambolho ucraniano) esta matéria em nossa opinião tem seu valor e, portanto resolvemos postá-la aqui no blog. Agora quanto ao que disse o Sr. Raimundo Braga Coelho em relação à complementaridade de ambos os projetos só pode ser brincadeira. Ou o presidente da AEB está de má fé, ou é um incompetente. Gostaríamos de lembrar ao Sr. Raimundo Braga Coelho que veículos lançadores são desenvolvidos para lançar cargas uteis no espaço e no momento que essas cargas úteis não existem, perde-se o motivo da existência desses veículos. Assim sendo, num universo de poucas cargas úteis brasileiras é inadmissível que a AEB estimule a ACS a buscar neste mercado cargas que naturalmente seriam atendidas pelos veículos brasileiros, invadindo o espaço naturalmente reservado aos nossos veículos e consequentemente inviabilizando seus projetos. Isto senhor Raimundo Braga Coelho não é complementaridade e sim competição motivada por questões políticas e sabe DEUS o que mais. Se não tem jeito, que essa desastrosa empresa atue em sua faixa de mercado e não invada o mercado que não lhe pertence para justificar a sua obscura e inconsequente existência. Um recado ao Sr. Anílson Batista: “Caro Sr. Anílson Batista, se o senhor sabe o que é melhor para a sua família e região, torça para que jamais esse trambolho tóxico ucraniano seja lançado de Alcântara. De minha parte estamos fazendo o possível para impedir que esses energúmenos atinjam essa meta, e continuaremos lutando enquanto tivermos força”. Aproveitamos para agradecer publicamente ao leitor Ricardo Melo pelo envio dessa matéria.

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