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Descoberta de registros de gastos no Mali mostra obsessão da organização terrorista em reportar até as mínimas despesas

RUKMINI CALLIMACHI DA ASSOCIATED PRESS, EM TIMBUKTU (MALI)

O comboio de carros com a bandeira negra da Al Qaeda veio em alta velocidade, e o gerente da modesta mercearia pensou que estava prestes a ser assaltado.

Mohamed Djitteye se escondeu atrás do balcão. Ficou desconcertado quando um comandante da Al Qaeda gentilmente abriu a porta de vidro do estabelecimento e pediu um pote de mostarda. Depois, pediu o recibo.

Confuso e assustado, Djitteye não entendeu. Então, o jihadista repetiu o pedido. Por favor, poderia dar um recibo dos R$ 4 gastos?

A transação, no norte do Mali, mostra o que parece uma preocupação incomum para um grupo terrorista: a obsessão por documentar as mínimas despesas.

Em mais de cem recibos deixados num prédio ocupado pela Al Qaeda no começo de 2013 em Timbuktu, os extremistas registraram assiduamente seu fluxo de caixa, controlando despesas tão simples quanto a compra de uma lâmpada.

As quantias, muitas vezes pequenas, eram cuidadosamente anotadas a lápis e canetas coloridas em pedaços de papel e post-its: o equivalente a R$ 4 por um sabão, R$ 19 por um pacote de macarrão, R$ 33 por supercola.

O sistema de contabilidade demonstrado nos documentos encontrados pela Associated Press é um espelho do que pesquisadores descobriram em outras partes do mundo onde a rede terrorista opera, incluindo o Afeganistão, a Somália e o Iraque.

Os documentos do grupo terrorista ao redor do mundo também incluem programas de cursos corporativos, planilhas de salário, orçamentos de filantropia, currículos de emprego, conselhos de relações públicas e cartas do equivalente a um departamento de recursos humanos.

As evidências reunidas sugerem que, longe de ser uma organização fragmentada e improvisada, a Al Qaeda tenta se comportar como uma corporação multinacional, com o que se compara a uma política financeira consistente de uma empresa em suas diferentes filiais.

Os especialistas dizem que cada filial do grupo terrorista repete a mesma estrutura corporativa, e que esse projeto estrito ajudou a Al Qaeda não apenas a durar como também a se expandir.

RELATÓRIOS

O sistema detalhado de contabilidade também permite controlar os movimentos dos próprios terroristas da rede, que muitas vezes operam de maneira remota.

A natureza corporativa da organização aparece ainda nos tipos de atividades pelos quais eles pagam.

Por exemplo, dois recibos, um no valor de R$ 8 mil e outro no valor de R$ 14 mil, aparecem como pagamento por “workshops”, conceito tomado do mundo dos negócios.

São relativamente poucos os recibos de pagamentos por combatentes e armas. Muitos mais lidam com os aspectos do dia a dia da administração estatal, como a tarefa de manter a luz ligada.

A Al Qaeda invadiu Timbuktu, no norte do Mali, em abril de 2012, e tomou conta de seus serviços públicos estatais. O avanço dos fundamentalistas motivou intervenção francesa, que hoje controla a maior parte da região.

Além do dia a dia do governo, fica claro que os combatentes tentavam conquistar a população.

Eles separaram dinheiro para a caridade: R$ 9 para comprar remédios “para um xiita com o filho doente”, R$ 240 para a cerimônia de casamento de um homem.

A extensão da documentação encontrada aqui e nos outros teatros onde opera a Al Qaeda não significa, porém, que o grupo terrorista dirija uma máquina bem azeitada, alerta Jason Burke, autor do livro Al Qaeda.

“A burocracia, como sabemos, dá aos altos gerentes a ilusão de que podem controlar seus subordinados mais distantes,” disse Burke.

Tradução de MARCELO SOARES

Fonte: FSP via Resenha CCOMSEX

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