Defesa & Geopolítica

“Constrangimento e sabotagem impostos por nossos pretensos aliados” – quase faz o Brasil ser responsável pelo fracasso da OMC

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 Roberto Azevêdo – Foto: AFP

Giovanni Lorenzon

A vitória do possível na conferência da Organização Mundial do Comércio (OMC), concluída sábado em Bali, salvando o sistema multilateral do colapso, no plano brasileiro representou uma conquista econômica e um alerta à política externa do país. Faltou pouco para o “abraço de urso” dos adulados amigos latinos fazer naufragar o encontro e o Brasil seria o grande perdedor em todas as frentes. E seria, sim, considerado o responsável pelo fracasso.

Depois de superado o impasse com a Índia, que insistia em manter seus subsídios aos pequenos agricultores, Cuba, apoiada por Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua, se recusou a aceitar o entendimento fechado, ainda que modesto, exigindo uma referência no texto final à necessidade de abolição do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos. Sem consenso, como em outros fóruns internacionais, não há acordo.

“Constrangimento e sabotagem impostos por nossos pretensos aliados”, reagiu o embaixador Rubens Ricupero, ex-secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad). Depois de o governo lutar incansavelmente para fazer do brasileiro Roberto Azevêdo diretor-geral da OMC, em eleição disputada em maio último, e vencendo o candidato do México apoiado pelos Estados Unidos, justamente o quinteto sempre defendido e afinado ideologicamente ao país imporia uma derrota política internacional.

A situação acabou contornada em uma tensa reunião, na madrugada de sexta para sábado, entre Azevêdo e a delegação cubana, com o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo tendo que reagir rápido nos bastidores. Se o caso dos indianos era tema da alçada da OMC, o embargo aos cubanos – indesejável e injusto, ainda mais que resquício da Guerra Fria – definitivamente não. Isso é problema da Organização das Nações Unidas (ONU), no máximo.

O mundo deixou a Indonésia com a perspectiva de que novos US$ 1 trilhão circulem com a redução e barateamento da burocracia aduaneira – base do acordo negociado – e ganha fôlego para aprofundamento de negociações futuras (pelo menos até 2015) mais espinhosas. Evitou-se ainda que os Estados Unidos abandonassem de vez a OMC e partissem para acordos bilaterais à revelia das regras do sistema multilateral, bem como a entidade foi salva da absoluta inoperância e ressituada como centro do comércio mundial – e principal fórum de defesa dos países subdesenvolvidos e emergentes.

Já o Brasil deixou a reunião com uma lição a ser tirada. Na verdade, nem novidade assim. É preciso rever a estratégia geopolítica de alinhamento automático com aquelas nações problemáticas e que só querem tumultuar nos encontros internacionais e não mais se submeter às “chantagens que nos impõem”, reclamou o ex-chanceler Luis Felipe Lampreia.

Mesmo nas relações bilaterais não é possível confiar. A Bolívia e o Equador já desafiaram o Brasil em episódios comerciais, como a nacionalização de uma operação da Petrobras (2006), pelo primeiro, e a expulsão da construtora brasileira Odebrecht (2008), no segundo. Da Venezuela já foi esperado um investimento na Refinaria Abreu Lima, em Pernambuco, que nunca veio, e nos últimos meses vários exportadores são vítimas de calote por conta da bancarrota do país bolivariano.

Pode-se sair do âmbito da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba) e descer mais ao Sul, parando na Argentina. Com este vizinho, então, são incontáveis as restrições e chantagens engolidas pelo país, especialmente durante a dinastia K – com Néstor Kirchner antes e agora com Cristina Kirchner – enquanto Brasília continua com o discurso de apoio à recuperação econômica da Argentina.

Enumerá-las seria enfadonho. As últimas: a continuidade do bloqueio aos calçados brasileiros na fronteira, que já sofrem há anos com cotas enquanto crescem as importações chinesas; a protelação calculada na entrega da lista de produtos do país para que integre a listagem do Mercosul a ser negociada com a União Europeia, visando um acordo bilateral, com prazo até final de dezembro.

Diga-se, de passagem, que no âmbito político, a Argentina sempre minou nos bastidores internacionais a entrada definitiva do Brasil no Conselho de Segurança da ONU.

No fundo, a política externa brasileira, apoiada nessa pseudo organização da irmandade latina dificilmente mudará. O Brasil vai continuar abafando os casos e negociando pontualmente a cada situação. Está impregnado no DNA do governo inaugurado pelo ex-presidente Lula esta diretriz. É o quer ouvir os apoiadores de dentro.

Fazem, também política externa, com o chapéu dos outros. Não estão preocupados com os milhares de empregos perdidos com as dezenas de fábricas de calçados fechadas no Rio Grande do Sul depois que os argentinos resolveram que segurar os dólares nas compras ao Brasil poderia ajudar sua indústria. O que nunca ocorreu, claro.

Com o episódio de Bali, numa esfera muito mais delicada e abrangente, o Brasil levou mais um susto, mas acabou ganhando graças à habilidade da diplomacia nacional que se recuperou a tempo e à habilidade do incansável negociador Roberto Azevêdo.

E ganha economicamente porque o país é um dos que mais têm interesse em ver a OMC funcionar – de um lado porque é principal economia industrializada entre os emergentes depois da China, mas perdendo cada vez mais competitividade, e do outro é um gigante da agricultura mundial e precisa quebrar as barreiras impostas por europeus e americanos, tema que será debatido na Rodada Doha agora sob nova perspectiva.

O que aconteceu na conferência da OMC está dentro da curva e pode se repetir. Fora da curva seria o Brasil fazer valer sua aptidão para a mansidão, mas com certa autoridade, ao exigir contrapartidas visando os interesses da sua economia e da sua população, em última instância. É do jogo.

Como qualquer país que queira algum protagonismo internacional mesmo dentro dos limites da cooperação justa e sem ingerência no domínio dos outros.

 

Fonte: Voz da Rússia

 

 

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