Defesa & Geopolítica

F21 – Torpedo pesado do futuro submarino “Riachuelo” em testes

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Carlos Lima, DAN

Em 2015, a DCNS vai entregar o primeiro lote de torpedos pesados F21 da Marinha, como o sucessor do F17 Mod2, derivado do F17 Mod1 (primeiro torpedo filoguiado pesado francês), que foi gradualmente substituído na década de 90. A nova arma será a primeira do submarino nuclear lançador de mísseis (SNLE) Triumphant, atualmente sendo atualizado em Brest.

Ele irá equipar os outros três submarinos nucleares franceses da classe, bem como os submarinos nucleares de ataque da classe Rubis e seus sucessores, a classe Barracuda, o primeiro dos quais, o Suffren, será entregue em 2017.

Desenvolvido como parte do programa FTL (Futuro Torpedo Pesado), o F21 também é destinado à exportação. O primeiro cliente é o Brasil, que optou por equipar seus quatro submarinos convencionais do tipo Scorpene com o mesmo, a serem entregues entre 2017 e 2022.

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O fracasso da cooperação franco-italiana

Além do Brasil, uma centena de torpedos foram até agora encomendados pela França. Ao contrário do Black Shark (vendido especialmente com os Scorpene chilenos e da Malásia), do qual toma emprestado certas tecnologias, o F21 não foi desenvolvido com a Itália.

Após os MU90, torpedos leves, projetados e construídos pela Associação Européia de Interesse Economico (AEIE), uma parceria da DCNS, Thales e WASS (empresa da Finmeccanica), Paris e Roma concordaram em trabalhar juntos no FTL, uma evolução do torpedo pesado Black Shark desenvolvido em conjunto para exportação. Esta nova cooperação deveria servir de base industrial para coordenar a parceria entre franceses e italianos no campo de armas submarinas.

Sob essa perspectiva, a DCNS, a Thales Underwater Systems e a WASS haviam anunciado,no final de 2007, a sua intenção de criar várias joint ventures. No entanto, apesar do entusiasmo inicial, esta fusão finalmente foi desfeita por conta de várias divergências entre os parceiros.

Os alemães aderem ao programa

Os franceses, portanto, continuaram tocando sozinhos o FTL antes de ingressarem no projeto Alemão Atlas Elektronik, o que deu um impulso ao torpedo. “Após o fracasso da joint venture com a WASS, fomos capazes de continuar o programa de torpedos sozinhos. Mas a Atlas ofereceu-se para fornecer a tecnologia da parte da propulsão. Isso seria uma coisa muito boa, porque se fizessemos um bom trabalho, não teríamos a necessidade de desenhar a parte traseira do torpedo, e ganharíamos em termos de preço e prazo”, disse um funcionário da DCNS.

O F21 tornou-se franco-alemão, novamente com a idéia de uma possível fusão. Enquanto prosseguiram as negociações em torno deste novo projeto de consolidação, o que limitou a competição entre europeus, a cooperação franco-alemã é agora uma realidade do ponto de vista industrial, embora, obviamente, o seu escopo continua sendo por enquanto limitado e a Atlas intervindo apenas como uma subcontratada.

Na pendência de um possível acordo entre Paris e Berlim sobre a questão política de parceiria estratégica, cada um protege zelosamente o seu know-how e do lado comercial a concorrência ainda é a norma. Assim, os alemães oferecem para exportação o DM2A4 (ou Seehecht Mod.4) e seu sistema de propulsão ainda é diferente daquele do F21. No entanto, apesar das longas discussões, que já duram mais de dois anos, os industriais franceses estão confiantes em um resultado favorável.

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Desempenho excepcional

Independentemente disso, o trabalho continua no F21, que também envolve o TUS para a parte acústica, e baterias Saft e Eurenco para carga de combate. Com 6 metros de comprimento e um diâmetro padrão de 533 milímetros, o novo torpedo pesa 1,3 toneladas.

Projetado para alto mar e operações costeiras, pode operar a partir de profundidades de menos de 10 metros e é capaz de mergulhar acima de 500 metros. Seu alcance máximo é de 50 km. Com duas hélices contra- rotativas de várias lâminas, o F21 tem uma velocidade máxima superior a 50 nós.

Tal como o seu antecessor, que é filoguiado, ou seja, é ligado ao submarino por meio de fibra óptica integrada desde a construção do torpedo, cada um com uma bobina enrolada com várias dezenas de quilometros de fibra. Esta técnica facilita a operação e permite que o submarino mantenha o controle do torpedo discretamente durante a fase de ataque, aonde o cabo é cortado, deixando a arma com o seu próprio sonar ser ativada e agir autonomamente. Note-se que a versão francesa tem um pistão ejetor do torpedo fora do tubo antes da ativação do seu sistema de propulsão.

Uma jóia tecnológica de verdade, o F21, de acordo com seus criadores, são os melhores torpedos pesados do mundo, inclusive superando seu concorrente alemão. “Suas capacidades estão no topo da modernidade. Não há melhor, nem mais poderoso, no que se reflete a capacidade e velocidade, que o F21. Quanto a inteligência embutida e desempenho acústico, será melhor do que o Seehecht, diz um engenheiro. Esses recursos, apresentados como incomuns, também podem ser um argumento na defesa de uma aproximação franco-alemã quando a Atlas considerar a renovação do seu portifólio, o que exigiria um investimento considerável.

Energia, a arma secreta do torpedo

O F21 tem se beneficiado dos avanços tecnológicos do MU90, especialmente o sonar, a eletrônica embarcada, a segurança (apropriada para uso em submarinos nucleares) e a produção de energia. Esta última, também incluída no Black Shark, é uma das principais vantagens dos novos torpedos. Depois de 10 anos de estudo, a DCNS conseguiu controlar as baterias de prata/óxido de alumínio, que estão bem acima da capacidade da combinação clássica prata/zinco. A dupla prata/óxido de alumínio produz uma energia muito alta, o que oferece um alto grau de autonomia e otimiza o uso de energia. Assim, o F 21 pode discretamente se aproximar do alvo antes de utilizar a sua potência máxima durante a fase de ataque.

O módulo de potência opera sobre o princípio de células refrigeradas a água do mar enquanto são armazenadas no torpedo e um sistema de válvulas e bombas permitem, uma vez que o torpedo saia para fora do submarino e entre em contato com a água, que o hidróxido de sódio cause uma eletrólise, permitindo que a reação química libere energia. A complexidade do dispositivo encontra-se na gestão de vários parâmetros, tais como a temperatura e a produção de hidrogênio e de oxigênio.

Note-se que, ao contrário do MU90, que tem uma única bateria, o F21 tem duas, uma primária e outra secundária, com capacidade de recarga. Além de sua capacidade de produzir uma grande quantidade de energia, este conceito também é muito interessante em termos de segurança. Como o torpedo é subaquático e refrigerado no estado sólido, é inerte, excluindo a possibilidade de explosão relacionada ao combustível utilizado em torpedos convencionais.

O teste do SNA é esperado para o final de 2014

Enquanto a DCNS de Saint- Tropez fez vários protótipos do F21, os primeiros testes no mar foram concluídos com sucesso em fevereiro. Eles foram conduzidos a partir do catamaran de teste Pegasus no site local da DCNS em Saint-Tropez. Além de simulações numéricas e bancadas de teste, este catamaran pode realizar testes em larga escala no Golfo de Saint- Tropez.

Com 24 metros de comprimento, o Pegasus tem para este efeito um tanque de água que pode mergulhar os torpedos alguns metros de profundidade para testar diferentes sistemas. Para este fim, a ogiva localizada na cabeça do torpedo é substituída por instrumentos. Esses recursos não são, porém, suficientes para completar os testes de qualificação. Para este passo, será necessário a utilização de um submarino verdadeiro, ou seja, um SNA da Classe Rubi, que fará o primeiro teste de tiro real no final de 2014. Esta campanha de qualificação abre o caminho para a entrada em serviço da nova arma.

Uma formidável arma para submarinos

Contrariamente aos torpedos leves MU90, que tem uma carga moldada concebida para penetrar os espessos cascos dos submarinos, o torpedo pesado é concebido para provocar uma forte explosão, criando uma bolha destinada a quebrar a embarcação em questão. A arma também é formidável contra navios de superfície pois um torpedo é capaz de, literalmente, quebrar em dois um Destróier ou uma Fragata.

O torpedo pesado tem a função de garantir a proteção do submarino e requer a capacidade de destruir unidades de superfície, além de outros submersíveis. Destróieres, fragatas, corvetas, entre outros, por sua vez utilizam torpedos leves, projetados especialmente para operações anti-submarino e, dado o seu tamanho e sua massa reduzida, também são utilizados por helicópteros e aeronaves de patrulha marítima.

Um retorno aos navios de superfície ?

Os torpedos pesados praticamente desapareceram dos navios de superfície (com algumas exceções, como os utilizados nas fragatas Árabes da Classe Madina, que podem levar quatro F17 nos tubos traseiros), com o advento do míssil, o que aumentou significativamente o escopo do engajamento entre navios.

No entanto, o progresso tecnológico feito na produção de energia, está permitindo o alongamento significativo de autonomia e raio de ação, talvez permitindo ao F21 assinar o retorno dos torpedos pesados a unidades de superfície. Estas poderiam realmente ganhar uma arma anti-superfície com uma nova capacidade anti-navio particularmente destrutiva e contra a qual contramedidas são muito limitadas. Uma possibilidade para meios de grande porte, mas também, porque não, para pequenas embarcações, que podem retomar o conceito dos Barcos da Classe “S” alemães da Segunda Guerra Mundial, otimizados para o combate litoral.

Potencial de mercado significativo

A DCNS estima que o potencial de vendas de exportação do F21 é considerável. Um benefício para Saint- Tropez, que emprega 300 pessoas com a atividade de produção, fornecida principalmente nos últimos anos pelo MU90. “A última década tem sido a dos torpedo leves. Assim, em 10 anos nós vendemos mais de mil MU90, que passaram a equipar 70 navios e aeronaves da França, Itália , Alemanha, Dinamarca , Polônia e Austrália. Agora é a hora dos torpedos pesados”.

“Durante muito tempo, o míssil era a principal ameaça, mas na sequência do naufrágio da corveta coreana Cheon, em 2011, a ameaça submarina voltou ao centro do palco. O torpedo pesado é, de fato, uma munição particularmente letal, que pode destruir uma fragata com um só acerto. É por isso que o mercado para essas armas vai crescer e como ambos são armamentos navais, criam uma capacidade muito interessante e uma grande ameaça”. Enquanto a DCNS espera atrair novos clientes para a MU90, o grupo francês espera que o F21 vai ser tão bem sucedido quanto seu irmão e o seu antecessor, o F17, que produziu cerca de 300 cópias.

O esporão e o escudo

Ao mesmo tempo que Saint-Tropez conta em se beneficiar com o surgimento dessa nova ameaça, em paralelo desenvolve atividades no campo das contra-medidas submarinas, sua outra grande especialidade. Este é o princípio do Esporão e o Escudo.

Para cada nova geração de armas, temos de ser capazes de ter um portifólio com os mais avançados torpedos, e obviamente, teremos que estar aptos a conceber a proteção. É nesta perspectiva que os engenheiros desenvolveram, na DCNS, um sistema de contra medidas de nova geração (Canto-S para navios de superfície e Canto -V para submarinos) projetado para se oporem aos torpedos mais modernos e eficientes. Mais uma vez o mercado parece muito promissor e, assim como no caso do F21, o Brasil é o primeiro cliente de exportação do sistema de “confusão/contra medidas’ que irá equipar os seus Scorpene.

Fonte: Mer et Marine via Defesa Aérea & Naval (DAN) (http://www.defesaaereanaval.com.br/?p=32259)

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