Defesa & Geopolítica

Sanções fazem balançar economia de Teerã

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– Expulsão da rede bancária internacional em 2010 complicou vida de iranianos

 Mulher passa por cartaz em Teerã com imagem da guerra entre Irã e Iraque na década de 80 Ebrahim Noroozi - AP

“Por conta das sanções, a venda de petróleo, que representa 80% da receita do governo, caiu pela metade. Se Ahmadinejad afirmara que o Irã tinha pelo menos US$ 100 bilhões em reservas cambiais, esse total já foi reduzido a algo como US$ 80 bilhões até meados deste ano, de acordo com um novo estudo da Roubini Global Economics, uma empresa de pesquisa com sede em Nova York, e da Fundação para Defesa das Democracias, uma organização não governamental de Washington que defende a aplicação de fortes sanções contra o Irã.

Mas esse número exagera vastamente na projeção da quantidade de dinheiro prontamente disponível para o Irã. Pelo menos três quartos desses US$ 80 bilhões estão amarrados a contas em países que compram petróleo iraniano – resultado de uma lei de sanções americana que entrou em vigor em fevereiro. E segundo essa lei, o dinheiro só pode ser gasto para comprar os produtos provenientes desses países.

Até ganhar acesso aos outros US$ 20 bilhões é difícil: os recursos têm que ser movidos fisicamente, em dinheiro, por causa da expulsão do Irã da rede bancária global conhecida pela sigla Swift, que permitia transferências eletrônicas.”

Thomas Erdbrink

Do ‘New York Times’

Publicado: 1/10/13 –

 

TEERà– O dono de uma empresa de fabricação de ônibus admite ser um homem que gosta de suas rotinas. E, por isso, continua indo todos os dias a seu escritório no centro de Teerã. Lá, pede xícaras de chá, dita ordens aos funcionários no telefone e assina um enorme fluxo de papéis que os empregados lhe colocam sobre a mesa.

– Parece que estou trabalhando, né? Não. Na verdade, estou rezando ou por um milagre para salvar nossa economia ou para um bobo entrar e comprar minha fábrica – diz Bahman Eshghi, de 43 anos.

Durante anos, líderes iranianos zombaram das restrições econômicas impostas pelo Ocidente, vangloriando-se de que poderiam escapar de qualquer coisa. Mas, as sanções, especialmente aquelas aplicadas sobre as transações financeiras internacionais em 2010, estão criando uma escassez de moeda que está deixando de joelhos a economia do país.

Isso ficou evidente em Nova York na semana passada, quando o presidente Hassan Rouhani enfatizou a necessidade de agir rapidamente para resolver o impasse sobre o programa nuclear do Irã, talvez num período entre três e seis meses. Enquanto pode haver razões políticas para a pressa dele, Rouhani e outros funcionários admitiram que as sanções estavam doendo.

Em vários encontros, o presidente e o chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, disseram que a saúde financeira do governo é bem mais grave que a deixada pelo antecessor, o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Rouhani e Zarif não deram detalhes sobre a falta de dinheiro. Mas, economistas ocidentais acreditam que uma crise séria pode estar muito mais perto do que se pensava – talvez questão de meses. Segundo agências de notícias iranianas, o governo deve bilhões de dólares para empresas privadas, bancos e municípios.

Malotes de dinheiro vivo

Por conta das sanções, a venda de petróleo, que representa 80% da receita do governo, caiu pela metade. Se Ahmadinejad afirmara que o Irã tinha pelo menos US$ 100 bilhões em reservas cambiais, esse total já foi reduzido a algo como US$ 80 bilhões até meados deste ano, de acordo com um novo estudo da Roubini Global Economics, uma empresa de pesquisa com sede em Nova York, e da Fundação para Defesa das Democracias, uma organização não governamental de Washington que defende a aplicação de fortes sanções contra o Irã.

Mas esse número exagera vastamente na projeção da quantidade de dinheiro prontamente disponível para o Irã. Pelo menos três quartos desses US$ 80 bilhões estão amarrados a contas em países que compram petróleo iraniano – resultado de uma lei de sanções americana que entrou em vigor em fevereiro. E segundo essa lei, o dinheiro só pode ser gasto para comprar os produtos provenientes desses países.

Até ganhar acesso aos outros US$ 20 bilhões é difícil: os recursos têm que ser movidos fisicamente, em dinheiro, por causa da expulsão do Irã da rede bancária global conhecida pela sigla Swift, que permitia transferências eletrônicas.

– Eles não podem repatriar o dinheiro de volta ao Irã. Este é o dilema no qual o país está – disse Mark Dubowitz, diretor-executivo da Fundação para Defesa das Democracias.

As sanções causam outros problemas. Sem conseguir financiamentos ou pagamentos simples para seus negócios, executivos são forçados a transferir malas repletas de dinheiro pelas ruas através de cambistas a banqueiros obscuros no exterior. O processo não é só caro, com taxas de intermediários exigentes a cada etapa – mas também perigoso, tornando-se alvo tentador para os ladrões.

– Como um camelo pode sobreviver no deserto com a gordura de sua corcunda, eu tenho sobrevivido com minhas economias nos últimos anos. Mas agora o fim está próximo. Eu desisto – lamentou o empresário Bahman Eshghi.

Foto: Mulher passa por cartaz em Teerã com imagem da guerra entre Irã e Iraque na década de 80.  Ebrahim Noroozi – Associated Press (AP) 

Fonte: O Globo, Mundo, Página 29, Quarta-Feira, 02/10/2013 

Leia também:

EUA indicam que podem reduzir sanções se Irã adotar medidas concretas

“Os Estados Unidos indicaram nesta quinta-feira (03/10/2013) a“possibilidade de conceder algum alívio de curto prazo nas sanções impostas ao Irã” em troca de passos concretos do país para “retardar o enriquecimento de urânio” e revelar mais dados sobre seu programa nuclear.”

Reuters

Arshad Mohammed e Timothy Gardner
Em Washington, 03/10/2013

Os Estados Unidos indicaram nesta quinta-feira (03/10/2013) a possibilidade de conceder algum alívio de curto prazo nas sanções impostas ao Irã em troca de passos concretos do país para retardar o enriquecimento de urânio e revelar mais dados sobre seu programa nuclear.

A subsecretária de Estado, Wendy Sherman, principal negociadora dos EUA com o Irã, também pediu aos congressistas que não imponham novas sanções ao país até os dias 15 e 16 de outubro, quando seis grandes potências –Reino Unido, China, França, Alemanha, Rússia e Estados Unidos– vão reunir-se com autoridades iranianas para negociações sobre o programa nuclear iraniano.

As conversações foram programadas depois da eleição este ano do presidente iraniano Hassan Rouhani, um centrista que tem feito acenos de abertura em relação ao Ocidente e falou na semana passada por telefone com o presidente dos EUA, Barack Obama, no contato de mais alto nível entre os dois países desde 1979.

Em depoimento no Congresso dos EUA, Wendy Sherman apontou a possibilidade de um alívio das sanções, mas deixou claro que os Estados Unidos esperam ações concretas do Irã para que isso possa acontecer. Ela disse que todas as questões que preocupam os EUA sobre o programa nuclear iraniano têm de ser superadas para que as sanções principais possam ser removidas.

“Nós vamos aguardar medidas específicas por parte do Irã que respondam às questões centrais, incluindo –mas não limitado a isso– o ritmo e o alcance de seu programa de enriquecimento de urânio, a transparência global do seu programa nuclear e estoques de urânio enriquecido”, declarou Wendy à Comissão de Relações Exteriores do Senado.

“Os iranianos, sem dúvida, em troca estão buscando algum alívio para as abrangentes sanções internacionais em vigor”, acrescentou.

Fonte: Reuters via UOL

 

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Rohani diz que Irã não negociará direito de enriquecer urânio

 

“O princípio de tecnologia e o enriquecimento dentro do Irã não é negociável, mas é preciso discutir sobre as características disso; nosso princípio é deixarmos abertas as portas das usinas nucleares para a agência internacional de energia atômica. Eles podem supervisionar.” Hassan Rohani , Presidente eleito do Irã
EFE
Teerã, 2 out 2013 (EFE).- O desenvolvimento de tecnologias nucleares civis e o enriquecimento de urânio no Irã não são negociáveis, disse nesta quarta-feira, 02/10/2013, o presidente iraniano, Hassan Rohani, em declarações divulgadas pela agência de notícias “Isna”.

“O princípio de tecnologia e o enriquecimento dentro do Irã não é negociável, mas é preciso discutir sobre as características disso; nosso princípio é deixarmos abertas as portas das usinas nucleares para a agência (internacional de energia atômica). Eles podem supervisionar”, ressaltou Rohani.

Rohani também comentou as recentes declarações do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ao assinalar: “O fato de que um regime ocupante da região (Israel) falar com um tom incorreto sobre a República Islâmica do Irã não nos preocupa em nada. Não esperamos mais do que isso de Israel”.

“Israel tem um forte lobby nos Estados Unidos; nós devemos cobrir a ausência nos Estados Unidos de um poderoso lobby do Irã e fazer algo para que alguns tentem expressar o pensamento e as ideias do Irã”, acrescentou Rohani.

Segundo o presidente iraniano, seu país pretende explicar à opinião publica dos EUA que as reivindicações de Israel são incorretas.

Em todos os casos, Rohani assegurou que o Irã deu um importante passo neste aspecto, já que seu discurso em Nova York foi bem-sucedido, e expressou sua esperança em alcançar o fim das sanções “que impuseram injustamente” ao país nos passos seguintes.

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