Defesa & Geopolítica

A Arábia Saudita, em pânico, está surtando

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13-20/9/2013, Conflicts Forum WEEKLY COMMENTS
 

 

Dia 12/9/2013, o príncipe Turki da Arábia Saudita falou na reunião do Defence and Security Forum em Londres. O príncipe Turki é conhecido pelas análises frias e objetivas, e embora sempre empenhado defensor da Arábia Saudita, e sunita, é diplomata experiente.

Pois, apesar de toda sua experiência, o que ele disse em Londres, em resumo, foi:

– A Arábia Saudita é potência econômica dominante no Oriente Médio e, também “líder ilustre do mundo muçulmano mais amplo”; e o Irã, disse ele, por sua vez, é o país líder dos muçulmanos que estão contra os EUA. Além dos modos sempre beligerantes da liderança iraniana, disse o príncipe Turki, a Arábia Saudita tem dois graves problemas com o Irã: primeiro, o programa nuclear, que continua, disse ele, e que nenhuma sanção conseguirá jamais deter; e contra o qual, disse o príncipe Turki, devem-se usar meios militares, se necessário. E, em segundo lugar, há a questão da “intromissão” dos iranianos: a “intromissão” dos iranianos nos países de maioria xiita e também em estados de minoria xiita “tem de acabar”. O príncipe Turki alertou que a Arábia Saudita intervirá diretamente naqueles estados para opor-se a “todas e quaisquer ações” iranianas. A influência e as ações iranianas no Iraque foram “inaceitáveis”, disse o príncipe saudita. A Arábia Saudita tem “profundas e firmes” reservas contra o governo de Maliki. A Arábia Saudita fará tudo que estiver ao seu alcance para pôr fim a ações de militares iranianos e do Irã em geral que visem a apoiar Maliki: “Trabalharemos para garantir que o Iraque se torne membro independente do mundo árabe.”

No Líbano, disse o príncipe Turki, o Hizbullah ameaça a própria existência do país, por seu “temerário” [orig. reckless] envolvimento na Síria. Exigiu que o Hizbullah seja desarmado e seus líderes julgados pelo assassinato de Rafic Hariri. Quanto à Síria: “o apoio da liderança iraniana a Assad, desde o início, é ato criminoso e deve ser julgado na Corte Criminal Internacional de Haia. A farsa do controle internacional sobre as armas químicas de Bashar seria cômica se não fosse tão flagrantemente pérfida, concebida com o único objetivo de dar a Obama uma linha de fuga, além de ajudar Assad a massacrar o próprio povo”.

COMENTÁRIO: O que se vê aí é a Arábia Saudita em estado de total desequilíbrio, e enunciado por um experiente diplomata saudita. A Arábia Saudita perdeu o próprio centro de gravidade: já não cabe em si; de fato, está preocupantemente fora de si, frustrada além de todos os limites da racionalidade.

Não se trata apenas de a Arábia Saudita declaradamente opor-se a qualquer entendimento com o Irã; trata-se sobretudo de os sauditas insistirem em que qualquer ‘entendimento’ que envolva os sauditas só ser pensável depois de o presidente Assad ter sido deposto, e as ‘minorias’ terem sido removidas completamente do poder na Síria (o que significa: só depois de o Islã sunita e a influência saudita terem sido restaurados na Síria). Para os sauditas, o Irã tem de ser marginalizado e humilhado politicamente no Oriente Médio, antes de que se cogite de iniciar qualquer ‘entendimento” entre Washington e Teerã.

O destampatório que o príncipe Turki não conteve contra Obama parece indicar que a Arábia Saudita sente-se extremamente, quase paranoicamente vulnerável, ante a possibilidade de a posição iraniana – em vez de estar sendo esvaziada e enfraquecida – estar sendo, isso sim, reforçada. Em nosso Comentário da semana passada,[1] já sugeríamos que esse deve ser o resultado, se a doutrina Carter-Bush para o Oriente Médio já tiver ultrapassado seu ‘prazo de validade’ política e já não ser politicamente exequível, na política dos EUA.

Se a Síria (para nem falar do Irã) já se mostra politicamente ‘difícil demais’ (com a opinião pública e os parlamentos já desiludidos quanto à eficácia dos ‘meios’ norte-americanos), toda a política exterior ocidental para o Oriente Médio terá de ser fundamentalmente repensada. Tudo isso, é claro, ainda são hipóteses a serem exploradas (ver continuação do comentário).

Mas o que o príncipe Turki está dizendo é impressionante: exatamente quando os EUA parecem esgotados (exauridos, depois de uma sucessão de guerras falhadas) e a ponto de tirar de sobre os próprios ombros a carga de assegurar que nenhuma potência hostil (leia-se: o Irã) assuma influência significativa, mediante qualquer tentativa para controlar e administrar e controlar a política de toda a região…

Exatamente nesse momento, o príncipe Turki declara, com todas as letras, que a Arábia Saudita, simplesmente, assumirá a implantação da Doutrina Carter: oposição absoluta a “toda e qualquer” ação de iranianos/Hizbullah em todo o Oriente Médio, do Bahrain ao Egito.

Na prática, a Arábia Saudita disse, semana passada, em Londres, que, se os EUA não estão preparados para ‘re-fazer’ o Oriente Médio, a Arábia Saudita assumirá a tarefa.

Sim, os sauditas têm o dinheiro, mas absolutamente não têm os meios para serem operacionalmente efetivos. É como um exército que tem comandantes de brigada e generais (a família real, em outras palavras), mas não têm os tenentes, os sargentos os soldados rasos, nem nenhum dos grupos especializados que, de fato, são os que convertem ‘ordens de comando’ em ação tangível.

Os sauditas absolutamente não têm o sistema necessário para gerir a mobilização sectária que eles mesmos incendiaram nem para dirigir o fogo na direção de algum resultado político real, precisamente porque só a família real tem poder e autoridade para fazer as coisas acontecerem. Todo o poder operacional dos sauditas resume-se a assinar os cheques – e não têm estrutura para administrar os ‘detalhes’. Foi o que já se viu, exatamente, com os grupos orientados pela al-Qae’da na Síria. Diferentes dos EUA, os príncipes sauditas jamais se dedicam a ‘nutrir’ os movimentos na direção de torná-los efetivos e eficazes: eles compram movimentos. Resultado dessa ação, os grupos Takfiri é que se provaram mais efetivos no campo de combate. Daí em diante, só eles encontraram via fácil para receber financiamento.

O impulso saudita para mobilizar o Islã sunita e fazer dele uma força política de transformação (contrarrevolucionária) – principalmente mediante fartos desembolsos de dinheiro e recorrendo sempre ao discurso sectário – deu em nada e está hoje em frangalhos.

Basta olhar em volta – hoje as principais tensões concentram-se em sunitas contra sunitas, porque as pressões criadas pelos movimentos dos sauditas (em locais como Egito, Líbia e Síria) contribuíram para minar e enfraquecer a identidade sunita. A Arábia Saudita – guiada pelo príncipe Bandar – pôs-se em posição mais difícil do que a que poderia sustentar. Mas, se a fala do príncipe Turki reflete acuradamente o pensamento saudita ‘oficial’, a expressão “mais difícil do que poderia sustentar” é fraca, para descrever a atual posição dos sauditas.

 

Tudo isso significa, isso sim, instabilidade volátil.

A Arábia Saudita, de fato, trabalhou na direção oposta do que o príncipe Turki diz que eram seus objetivos – pelo menos na Síria: em vez de desmantelar a al-Qae’da, como o príncipe Turki diz que é o objetivo saudita, o embaixador israelense que está deixando Washington, em comentário-desabafo, entregou tudo: “A mensagem inicial sobre a questão síria foi que nós sempre quisemos que [o presidente] Assad saísse de lá. Nós sempre preferimos os bandidos não apoiados pelo Irã aos bandidos apoiados pelo Irã” – disse ele.[2] E era assim, disse ele, mesmo se “os bandidos” fossem afiliados da al-Qaeda. “Entendemos que são muito bandidos” – continuou ele, acrescentando que por “bandidos” não se referia a toda a oposição síria. “Mesmo assim, o maior perigo para Israel é o arco estratégico que se estende de Teerã, a Damasco e a Beirute. E já víamos o regime de Assad como pedra basilar desse arco. Essa já era nossa posição desde bem antes do início das hostilidades na Síria. Com o início das hostilidades, nós continuamos a desejar a saída de Assad.”  Não há dúvidas de que o príncipe Turki partilha idênticos sentimentos sobre o ‘arco’.[3]

O embaixador Oren, na sequência, reforça ainda mais a conexão entre Israel e a política do Golfo: “nos últimos 64 anos provavelmente não existiu maior confluência de interesse entre Israel e os Estados do Golfo. Estamos de acordo com os Estados do Golfo sobre a Síria, o Egito e a questão palestina. Não há dúvidas de que também estamos de acordo com os Estados do Golfo, sobre o Irã. É mais uma das oportunidades criadas pela Primavera Árabe.”

A Arábia Saudita pode ter-se aproximado de Israel no que tenha a ver com Síria e Egito, mas, ao fazê-lo rompeu com a política dos EUA e europeia. Como disse recentemente o ‘número 2’ da CIA recentemente aposentado, Mike Morell: “Quando se vê o potencial de uma presença tão dominante da al-Qaeda como na Síria, no final desse conflito… Será que consumimos tantas vidas humanas e tantos dólares, não para negar qualquer tipo de santuário, mas, simplesmente, para mudar o endereço da base terrorista?”[4]

E Mike Morell continua: “Não há dúvida alguma de que aquela ideologia espalhou-se para o Norte da África e outras partes do Oriente Médio. E que todas essas áreas podem vir a ser, eventualmente, o tipo de santuário para terroristas que, sim, são ameaça significativa à segurança dos EUA. Por hora, ainda não são. Por enquanto são só uma ameaça regional. Mas… o local que me preocupa, porque pode vir a ser paraíso seguro para a al-Qaeda e converter-se na ameaça que a al-Qaeda já era, para nós, antes do 11/9, é a Síria, em primeiro lugar; em segundo lugar, o Afeganistão…”.[5]

O tom de pânico que se vê na fala do príncipe Turki, contudo, é compreensível. A situação dos Estados do Golfo é muito vulnerável: eles apostaram tudo em que o Irã seria superado e ‘contido’ de um modo ou de outro, e não economizaram. Agora, o apoio externo com o qual tanto contaram (e para cuja obtenção investiram tantos bilhões em compra de armas) parece hoje existencialmente abalado e instável. Os sauditas temem que haja um preço a pagar. Além de tudo mais, os Estados do Golfo abriram guerra contra islamistas – e inexoravelmente o torvelinho continua a consumir credibilidade e legitimidade de todos os lados.

 

Mas a Arábia Saudita não é a única a manifestar sintomas de ansiedade psicológica. Um outro tipo de histeria parece tomar conta também do Ocidente: o aparente ‘refugo’ de Obama, que ainda não saltou o ‘obstáculo’ “Síria” levou a um surto sem precedentes de “Putin-fobia”.

Um ex-embaixador britânico, em estado terminal de depressão, disse, dia 9/9/2013, que aquele teria sido “o pior dia para a diplomacia dos EUA e toda a diplomacia ocidental, desde o início dos registros históricos”.[6] E quando se leu a carta aberta assinada pelo presidente Putin e publicada no New York Times,[7] comentaristas entraram também em surto psicótico de alta rotação, porque Putin ‘dinamitara’ o excepcionalismo norte-americano.[8] Um importante senador Democrata disse à rede CNN que “quase vomitei” ao ler a coluna de Putin no New York Times, na qual o presidente russo explicou sua proposta de paz para a Síria. O Republicano John McCain também foi excepcionalmente agressivo nos comentários sobre a coluna de Putin: disse que seria “orwelliana” e que Putin teria “ego mamute”. E colunista de uma revista russa liberal assegurou aos seus leitores que Putin, de fato, pouco liga para o que aconteça na Síria, que só pensa em se autopromover e que, além do mais, só “velhotas murchas de mais de 50” apoiam Putin.

Tudo isso cheira a ‘Suez’. Naquele momento, a Grã-Bretanha e a França, ante as provas que se avolumavam do enfraquecimento de suas respectivas economias e influência, pouco antes da 2ª Guerra Mundial, e obcecadas por fazer crer – contra todas as evidências de enfraquecimento – de que continuavam tão fortes e poderosas como antes, decidiram fazer uma exibição de força (em local bem distante, é claro). Pouco depois do fracasso da tentativa, Nasser nacionalizou Suez. Vivemos outra vez tempos instáveis.

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