O vexame do Itamaraty

A ser verdadeira, como parece, a denúncia de que o secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, Eduardo dos Santos, ameaçou expulsar do País o senador boliviano Roger Pinto Molina, caso ele aceitasse o convite da Comissão de Relações Exteriores do Senado para falar dos seus 455 dias como asilado na Embaixada do Brasil em La Paz, representa um ato vexaminoso. Em maio de 2012, como se sabe, Molina, de 53 anos, pediu asilo diplomático ao País para escapar às represálias do governo Evo Morales, a quem acusara de proteger o narcotráfico. Em questão de dias, a presidente Dilma Rousseff atendeu à solicitação. Mas o autocrata bolivariano, fazendo tábula rasa da Convenção de Caracas sobre Asilo Diplomático, de 1954, negou-se a conceder o salvo-conduto que permitiria ao senador viajar em segurança ao Brasil. O texto determina que a concessão tem de ser “imediata”.

Confinado a um quarto de 4 metros quadrados, sem banheiro nem luz solar, Molina podia receber apenas a visita, separadamente, de seu advogado e um ou outro parente. Enquanto isso, do lado de fora, grupos de paus-mandados de Evo atormentavam-no com ameaças de “invadir a embaixada”. Franco-atiradores ficavam postados diante do prédio e um sicário teria sido contratado para executá-lo. Nos bastidores, diplomatas dos dois países fingiam negociar a transferência do asilado. O faz de conta viria a ser revelado pelo encarregado de negócios brasileiro, Eduardo Saboia, responsável pela representação na ausência de seu titular. Ele entrou para a história da Casa de Rio Branco graças ao seu corajoso ato humanitário de transportar Molina por terra para o território nacional. A viagem, em dois carros com placas diplomáticas, sob a proteção de um par de fuzileiros navais que serviam na Embaixada, durou 22 horas, sem incidentes.

O governo brasileiro, que ignorou os sucessivos pedidos de socorro de Saboia – a quem o senador sob a sua custódia vinha falando em se suicidar -, reagiu furiosamente ao ser informado de que ele chegara são e salvo a Brasília.

No Aeroporto de Guarulhos, de onde deveria viajar à Finlândia, o então chanceler Antonio Patriota recebeu um telefonema extremamente agressivo da presidente. Testemunhas ouviram-na exigir, aos berros, que Saboia fosse punido sumariamente. Agastado, Patriota replicou, também elevando a voz, que, na condição de responsável último pelas ações do colega, o punido devia ser ele próprio. O que de fato aconteceu, com a sua substituição no Ministério pelo embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, que chefiava a delegação brasileira na ONU.

A ira de Dilma contra Saboia não se explica apenas por ela se sentir vítima de um crime de lesa-majestade. Tão ou mais grave, aos seus olhos, há de ter sido a desmoralização de Evo, a quem o Planalto, desde Lula, presta incompreensível vassalagem. E decerto foi para acobertar a conduta submissa do governo que o Itamaraty ameaçou Molina, por intermédio de seu advogado, Fernando Tibúrcio, de expulsá-lo “no outro dia” de seu previsto depoimento no Senado – o que é muito diferente, por exemplo, de uma entrevista à imprensa. Tibúrcio revelou a chantagem à Justiça Federal, numa audiência relacionada com a ação movida por Saboia a fim de reunir evidências para a sindicância de que é alvo no Itamaraty. A Procuradoria da República no Distrito Federal irá apurar a presumível improbidade administrativa do secretário-geral da Casa.

Conforme o Itamaraty, ele só teria pedido para lembrar o senador dos termos da Convenção de Caracas. Ela não obriga os países signatários a conceder asilo. Mas – e isso não terá sido mencionado pelo diplomata – uma vez concedido o benefício, o asilado deve receber imediatamente o salvo-conduto de seu governo.

O que agrava o despudor do Planalto é o contraste entre o tratamento de presidiário dado a Molina e o de autoridade política ao deposto presidente hondurenho José Manuel Zelaya, que se asilara na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa. Nos quatro meses em que ali ficou, em 2009, transformou-a em seu quartel-general. Recebia quem quisesse, falava a jornalistas e incitava os adeptos a derrubar a “ditadura” hondurenha – com a plena aquiescência de Brasília.

 

Fonte: Estadão

17 Comentários

  1. Isso só demonstra a grandeza desses medíocres que nos governam e que querem se eternizar no comando do nosso majestoso país!E ainda tem gente que apoia essa mediocridade por mera razão fisiológica e identidade própria com a mediocridade!E nisso se insere o bolsa família, o maior cabo eleitoral em caráter permanente nesse país, sendo mesmo compra de votos por antecipação!Temos que passar o país a limpo como novos valores e novas condutas!

    • Regivaldo, vc foi um maestro ao compor tal assertiva… parabéns… esse, acima, é só mais um canino contratado pelo partidão por trinta moedas para fazer a releitura da verdade dos fatos… deixe o mesmo falando sozinho… é uma pobre alma VENDIDA… merece nossa complacência…

  2. “Mas o autocrata bolivariano, fazendo tábula rasa da Convenção de Caracas sobre Asilo Diplomático, de 1954, negou-se a conceder o salvo-conduto que permitiria ao senador viajar em segurança ao Brasil. O texto determina que a concessão tem de ser “imediata”.”

    ——–
    Pura desinformação, a Bolivia não é signatária desta “Convenção de Caracas”, estando portando desobrigada de quaisquer regras que a mesma estipule…

    Que conversa mole da “lesa majestade”, os funcionários do corpo diplomático devem agir

    • Que conversa mole da “lesa majestade”… Então agora a regra de ouro da diplomacia brasileira é cada um por sí e que os outros se explodam?

      Os funcionários do corpo diplomático devem agir disciplinadamente, subordinados a orientação das autoridades competentes, se não vira bagunça e mais grave, sabotagem!

  3. O Estado de São Paulo, para variar, deixa de fazer jornalismo para tecer peças de ficção de baixa qualidade, como de resto faz toda a nossa imprensa com sobrenome: Civita, Mesquita, Marinho, Frias…

    Se houve um aviso ao Sr. Molina, que sua estada neste país depende dele não fazer política, este aviso foi de ótima feitura. Não cabe a uma pessoa refugiada fazer uso da hospitalidade concedida, para aliar-se a oposição local e fazer política.

    Quanto ao Sr. Sabóia, que se dê por satisfeito por ainda ter um emprego, pois em outras eras estava não só demitido, como sofrendo duros interrogatórios. Não cabe a um Secretário Geral agir de maneira autônoma, aliás, nem a um Embaixador é concedida tamanha autonomia. Fato é que se sabe, hoje, que esta pessoa, bem como o embaixador, faziam política de oposição ao atual governo de turno da Bolívia… Ora, não acabe a uma embaixada brasileira se imiscuir nos assuntos internos de outra nação, ainda mais, de forma tão amadora. Nossos diplomatas devem representar o Brasil e defender os seus interesses, e não alimentar aversões aos governantes das demais nações.

    Por fim lembro que tanto nas Armas, como na Diplomacia, a disciplina, a uniformidade doutrinária e a hierarquia, são fundamentais… Algo que não houve no caso do Sr. Sabóia.

    😉

  4. Que xororo descabido, a esquerda hipocrita odeia ser tratada como lixo que eh, aos poucos as mascaras destes homicidas potencias irao caindo kkkkkkk,so resta aos ilyas da vida rasgar calcinhas e trocar seus obs !

  5. Quem busca enquadrar o corrupto senador boliviano Roger Pinto Molina é o poder judiciário da Bolivia, não o governo/poder executivo…

    “A despeito de seu poder e influência, o senador foi devidamente processado e condenado, em consequência de diversas acusações, que vão desde venda irregular de terras públicas, passando por remessa ilegal de fundos públicos, favorecimento de bingos e cassinos irregulares, até assassinato”, sendo apontado como um dos responsáveis pelo massacre dos camponeses de Pando, em 2008, quando participou da promoção de agitações separatistas nos estados da “meia-lua boliviana”, incentivadas pelos comprovados trabalhos dos EUA…

  6. Perfeito o comentário do Ilya , é tudo uma questão de hierarquia e disciplina, e no caso ambas foram quebradas, se ele não concorda com as ações do governo que ele representa, deveria pedir a conta e procurar os meios corretos e legais para agir.

    Como diria o Capitão Nascimento: “Tá com nojinho 01, pede pra sair”

    Para os bitolados de plantão, o que eu disse é em relação a QUALQUER governo e serve também para as FAs, corporações, empresas ou qual seja a estrutura organizacional que o indivíduo representa.

  7. Roger Pinto Molina já estava condenado a um ano de prisão em um processo por corrupção e deveria responder a outros 20. Além de ser acusado de crimes ambientais, Molina responde na Justiça por delitos econômicos no valor de 6 milhões de dólares, cometidos quando governou o Departamento de Pando.

    O Senador boliviano também está envolvido em um massacre que resultou na morte de 13 indígenas e em centenas de feridos. Ou seja, o parlamentar boliviano não é propriamente um perseguido político.

    Um caso bem semelhante é o caso Donaton.

    • O caso do Dirceu não é uma questão política, mas de simples condenação por CORRUPÇÃO ATIVA e FORMAÇÃO DE QUADRILHA, tudo dentro dos conformes legais e com amplo direito de defesa amparado na CF durante o processo do MENSALÃO PETISTA… se o mesmo der o cano na justiça, basta um simples mandado internacional de captura expedido em seu desfavor… seria interessante se isso acontecesse… colocaria os petralhas no governo em uma sinuca de bico… de qualquer jeito, ele tá fu… rsrsrsrsrsrs… prefiro ele lá do que aqui, inflamando o ânimos… se pegar pena de dez anos já estará velhinho como FHC, somente dando pitacos, se bem que só cumprirá 1/6 da pena total se não fizer outra caca ou for pego em alguma ainda em investigação… rsrsrsrsrs…

      • Agora que o STF vai reanalisar o caso do MENSALÃO, coisa já sabida, desde que o pt introduziu 5 de seus indicados na Suprema Corte tupiniquim, sabemos que toda essa farsa vai acabar em uma bela e redonda pizza… só vai faltar a wanda fazer a dancinha da deputada Angela Guadagnin (PT-SP) comemorando a absolvição dos mensaleiros… as duas até se parecem… tem o mesmo corte joãozinho nos cabeluxos… rsrsrsrsrs… http://www.youtube.com/watch?v=AwOSmTRmNtA

Comentários não permitidos.