Defesa & Geopolítica

E a Contra-Espionagem Brasileira? como se encontra?

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“Se o governo e a população ficar achando que atividade de inteligência ainda é fruto de um passado triste na história do Brasil, e também representa “porão”, o país só perde em competitividade e segurança.” Fábio Pereira Ribeiro.

Fábio Pereira Ribeiro, 08/07/201

fabiomkt@uol.com.br

Dias atrás escrevi aqui no Blog EXAME Brasil no Mundo sobre o Serviço de Inteligência, e vendo os últimos acontecimentos da novela Estados Unidos X Snowden, o governo federal brasileiro se mostra cada vez mais ineficiente no tema “Inteligência e Espionagem”. Já falei diversas vezes sobre a temática, e quanto o governo, por algum fantasma do passado relega à atuação da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) às traças. É notório e perceptível, o descontentamento dos diversos agentes e operadores de inteligência, e também a falta de conexão do serviço secreto de Estado com os diversos serviços de inteligência na estrutura do Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN).

Mas o pior é ver as declarações do governo federal, através dos ministros, tanto do Itamaraty, como também das telecomunicações, em estarem perplexos com as atividades americanas em território brasileiro. Me pergunto, pois era mais do que explícito, anos atrás, e até hoje, a atuação de agentes de inteligência em território brasileiro através de cobertura diplomática, e com autorização do próprio governo brasileiro.

Pós o 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos ampliaram suas redes de inteligência com o objetivo de Guerra ao Terror, e com isso os países parceiros foram solidários em dar apoio ao próprio sistema. Como Barack Obama afirmou, qualquer potência tem por dinâmica e prática o desenvolvimento de atividades de inteligência estratégica, por quê um chefe de Estado, ou ministro brasileiro iria ficar perplexo com isso?

Outro ponto, nós brasileiros tivemos que engolir o sistema de controle de segurança portuária ISPSCODE, que literalmente afronta a soberania de qualquer país, mas pela parceria, nós fomos obrigados à adequar os portos brasileiros. Sem contar que o próprio sistema é um ponto de coleta de dados estratégicos.

Outro ponto, durante anos o Brasil aceitou, ou ainda aceita, agentes da DEA (agência americana de inteligência contra o narcotráfico) em território brasileiro, sem contar agentes da própria CIA com cobertura diplomática na famosa Tríplice Fronteira, que para os americanos é um verdadeiro “hotel para terroristas planejarem ações”.

O governo brasileiro não pode se mostrar perplexo, e nem cego com isso, o mesmo deve potencializar as atividades de inteligência através da ABIN e das Forças Armadas, e também potencializar o trabalho de Contra Espionagem, que é a salva guarda das informações estratégicas do país, e pelo visto, a turma da contra espionagem deve estar em uma geladeira só. Até semana passada, muitos gritavam que o Brasil não tinha ameaça. Pelo contrário, um país tão importante e grande em sua geopolítica, com certeza é um alvo prioritário para a espionagem internacional.

Um país com os condicionantes de política externa como o Brasil tem, com certeza é um alvo prioritário. Veja alguns pontos:

– Pré Sal

– Amazônia

– Crescimento das ameaças em Narcotráfico e Contrabando de Armamento

– Fronteiras desguarnecidas

– Baixos indicadores de segurança em Tecnologia da Informação

– Políticas de Inteligência e Defesa ainda truncadas

– Vasto território adquirido por chineses e outros grupos multinacionais

– Amplo território biológico para bio pirataria

– Diversidade de atuação de organizações não governamentais em territórios indígenas

– Sérios problemas diplomáticos e de segurança internacional com os vizinhos

– Nióbio (maior reserva do mundo no Brasil)

– Outras riquezas minerais concentradas

– Reservas de água mineral (aqüíferos)

– Urânio

– Políticas de aproximação com países fora do eixo de relacionamento com os Estados Unidos e Europa

– Alimentação

Bom, a lista é bem grande, mas estes são alguns exemplos, sem contar a preocupação de países da Europa, e o próprio Estados Unidos em relação ao futuro político do Brasil, considerando inclusive a carga de investimentos no país.

Mas analisando o evento em si, me pergunto, onde está a Contra Espionagem Brasileira? Por quê a ABIN não se pronunciou? Por quê a Polícia Federal irá atuar? E o investimento e a política de inteligência do país, estão na gaveta?

Se o governo e a população ficar achando que atividade de inteligência ainda é fruto de um passado triste na história do Brasil, e também representa “porão”, o país só perde em competitividade e segurança.

As declarações que o governo, e outros políticos prestaram até agora, literalmente demonstram que estamos mais para Clouseau do que para James Bond. Se temos uma política séria de inteligência, com certeza a Contra Inteligência brasileira já deveria estar trabalhando nisso a muito tempo, e por sinal, o próprio jornalista que escancarou as informações do espião Snowden, já vive algum tempo no Brasil, será que a contra espionagem brasileira não sabia disso? Se a ABIN tivesse um foco de Estado exterior, e mais estratégico, em vez de receber missões para monitorar políticos e movimentos sociais, com certeza este assunto Estados Unidos seria de menor impacto para o país.

O governo brasileiro já deve partir de um pressuposto, que os Estados Unidos sempre, e cada vez mais intenso, utilizarão da espionagem como arma de seu poder mundial. E quanto mais o Brasil crescer no sistema internacional, mais o país se tornará prioridade de inteligência. É muito piegas achar que isso não aconteceria.

Fonte: Exame 

 

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Segredos brasileiros são bisbilhotados há décadas por outros países

Segredos brasileiros são bisbilhotados há décadas por outros países

MÁRIO CHIMANOVITCH
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A denúncia do ex-técnico da NSA Edward Snowden de que os EUA usam métodos sofisticados para nos espionar, que gerou furor nos meios governamentais, não deveria ter causado tanta comoção.

Casos ocorridos nos anos 80 e 90, e até antes, mostram que os segredos políticos e tecnológicos do Brasil são bisbilhotados há décadas não só pelos americanos, mas também por franceses, israelenses e sabe-se lá quem mais.

Documentos ultraconfidenciais do extinto Serviço Nacional de Informações revelam que várias instituições do governo e indústrias estratégicas foram alvo permanente de espionagem externa –os mais visados eram o CTA (Centro Técnico Aeroespacial) e o Instituto de Estudos Avançados da Aeronáutica, em São José dos Campos (SP).

Com o SNI voltado para o “inimigo interno”, a atividade de contraespionagem era praticamente nula no Brasil. Mesmo assim, vez por outra, investigavam-se agentes de “países amigos”, como John James Gilbride Jr., que também utilizava os nomes John Gilbraith ou Jack O’Brian.

Credenciado como vice-cônsul para assuntos econômicos, fachada comumente usada pela CIA no exterior, operou no Brasil de 1988 a 1992, nos consulados dos EUA no Rio e em São Paulo.

Estava empenhado em recrutar cientistas e pesquisadores do CTA, principalmente do programa aeroespacial. Deixou o país quando já estava “queimado” –ou seja, identificado como agente empenhado em ações prejudiciais a interesses brasileiros.

Apurou-se que Gilbride nunca fora diplomata de carreira. O assunto foi encoberto, já que o governo do Brasil queria evitar a eclosão de um escândalo diplomático.

O espião americano marcara almoço com importante cientista brasileiro numa churrascaria da alameda Santos (SP). Os agentes brasileiros que o vigiavam descobriram ser impossível pôr escutas no local devido à fortíssima interferência das antenas de rádio e TV. Terminado o almoço, o americano despistou nada menos que 11 agentes.

O interesse estrangeiro recaía também sobre os centros de pesquisa de universidades como a Unicamp e a USP, com tentativas persistentes de aliciar técnicos e cientistas.

Entre 1983 e 1985, a então Telesp, hoje Vivo, teve roubados carros e macacões dos serviços de manutenção. Após os furtos, a Polícia Federal localizou gravadores em postes do Vale do Paraíba.

Esses grampos –especulou-se– objetivavam registrar telefonemas de pessoas ligados ao setor aeroespacial.

MORTE MISTERIOSA

A misteriosa morte do tenente-coronel José Alberto Albano do Amarante, da Aeronáutica, em 3 de outubro de 1981, evidenciou a atuação de um espião do Mossad, o célebre serviço secreto de Israel.

Nos anos 70, o Brasil desenvolvia secretamente um programa nuclear para fins militares. Parceria com o Iraque assegurava os altos recursos financeiros necessários à sua execução; em troca, os iraquianos teriam acesso aos conhecimentos tecnológicos dos cientistas brasileiros.

O responsável pelo programa na Aeronáutica era Amarante, engenheiro eletrônico pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica visto como o pai da pesquisa nuclear no país.

Em outubro de 1981, ele foi atacado por uma leucemia galopante: morreu em dez dias. Sua morte passou a ser investigada pela Aeronáutica –teria sido contaminado de propósito por radiação.

A família acreditava que o cientista fora morto pelos serviços secretos de EUA e Israel, mas nada se comprovou. Na época, a mulher de Amarante contou que ele se queixava de ser seguido quando ia a SP ou ao Rio. Depois, quando seus restos mortais foram exumados para novo enterro no Rio, a família constatou sinais de violação da sepultura.

Amarante fundara o Laboratório de Estudos Avançados, grande centro de estudos destinado a se constituir na espinha dorsal da pesquisa nuclear do país. Seu objetivo era ambicioso: desenvolver o enriquecimento de urânio por raios laser (usados para detonar a reação nuclear), em vez do sistema de centrífugas, mais oneroso e lento.

No exterior, cresciam as suspeitas de que as experiências objetivavam desenvolver armas nucleares, o que sempre foi negado pelo Brasil.

ESCUTAS NO HOTEL

As investigações sobre a morte de Amarante revelaram a existência de um misterioso personagem, Samuel Giliad ou Guesten Zang, um israelense nascido na Polônia, que lutara contra os alemães na Segunda Guerra.

O israelense, apelidado de “Mister Pipe” por fumar cachimbo, chegou a São José em 1979 para gerir o Hotel Eldorado, o principal da cidade, que hospedava muitos estrangeiros, civis e militares, envolvidos em atividades industriais e científicas na área.

Extremamente simpático, Giliad mancava de uma perna devido a um tiro levado na guerra, contava. Hábil, instituiu no Eldorado reuniões sociais de secretárias e gerentes de indústrias, gente solitária capaz de soltar a língua estimulada por drinques. Assim, tinha acesso a informações valiosas: sabia quais delegações visitavam quais indústrias da região e, sempre que possível, a razão das visitas.

O israelense tentou se aproximar de Amarante, mas o oficial o repelia: nunca atendeu a nenhum convite. Passou a frequentar o dentista que atendia Amarante, procurando marcar horários logo depois dos do oficial.

O coronel aborrecia-se com a insistência, e suas suspeitas cresceram quando o dentista o alertou das perguntas que Giliad fazia: “O que é que a Aeronáutica está construindo em Cachimbo (Pará)? Ouvi dizer que se trata de uma grande pista de pouso. Mas para que servirá, se já existem as de Manaus e Belém?”.

Era em Cachimbo que estava sendo preparado o local para a primeira experiência do projeto nuclear brasileiro.

Diante dessas perguntas, o alarme foi dado, e Giliad passou a ser vigiado de perto. Descobriu-se que ele tinha cinco passaportes com nomes diferentes e instalara escutas nos quartos e demais dependências do hotel, para ouvir hóspedes e empregados.

Após dois anos, o israelense bateu em retirada de forma hábil quando percebeu que a vigilância crescia: publicou anúncio num jornal local procurando uma acompanhante para dividir despesas numa viagem à Argentina.

O Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica errou ao responder ao anúncio enviando um agente (homem). Percebendo que fora desmascarado, Giliad deixou a cidade e desapareceu.

Foi durante a ação do agente israelense em São José que a mídia internacional revelou que o Brasil fazia remessas secretas de urânio enriquecido ao Iraque, disfarçadas em material bélico da Avibrás.

Foi também durante a sua estada na região que o “Latin America Weekly Report” noticiou a misteriosa morte de Amarante, expondo suas atividades secretas com impressionante riqueza de detalhes.

Finalmente, quando se divulgou, em 1981, a história das remessas secretas, o Mossad já sabia de tudo e as documentara com fotos. O episódio brasileiro, acreditam os especialistas, serviu como manipulação da opinião pública para que Israel justificasse seu bem-sucedido ataque aéreo ao complexo atômico de Tamuz, no Iraque.

Fonte: Folha 

 

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