Defesa & Geopolítica

As aventuras de um romântico do país dos duplos critérios

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Foto: Voz da Rússia

Irina Tsiplakova

O escândalo à volta dos documentos secretos e das revelações de Edward Snowden continua a aumentar. O presidente francês François Hollande apelou aos países da União Europeia para que estes tomem uma posição concertada acerca das escutas feitas às representações diplomáticas dos países europeus pelos serviços secretos norte-americanos. Paris não tenciona realizar quaisquer conversações com Washington enquanto não receber garantias quanto ao fim da vigilância sobre os seus diplomatas e sobre os representantes de outros países da UE.

O escândalo das escutas a 38 embaixadas e missões diplomáticas estrangeiras, incluindo de países aliados que integram a OTAN, é comentado por Georgi Georgiev, vice-editor-chefe do jornal búlgaro Duma. Ele considera que as revelações de Snowden terão consequências em longo prazo nas relações entre os EUA e a Europa:

“Os serviços secretos dos principais países se vigiam uns aos outros”. Essa prática já existe há décadas e não irá desaparecer no futuro. Os problemas são os seguintes: neste caso são escutadas instituições de países aliados. Penso que isso irá ter uma influência negativa nas relações não só dos europeus com as suas elites políticas ligadas aos EUA, mas também nas relações entre os europeus e os estadunidenses em geral.

Eu não excluo que nos próximos dias tenha lugar certo arrefecimento desse escândalo, porque os dirigentes dos países europeus e das estruturas da UE dificilmente quererão se confrontar com os EUA, mas o aumento dos sentimentos antiamericanos irá receber um novo impulso, devido às revelações de Snowden, precisamente na Europa.

A conclusão mais importante que parece se evidenciar devido a esses acontecimentos é a América estar a perder o monopólio na esfera das informações e isso irá, antes de mais, prejudicá-la a ela própria. Nas últimas décadas, a força dos EUA se baseava na imagem mediática dos Estados Unidos como o império do Bem. Mas recentemente ocorreu o grandioso escândalo das revelações da WikiLeaks. Agora, o testemunho foi passado para Snowden. Podemos prever que haverá novas sensações. Isso significa que nas estruturas públicas dos EUA estão a aparecer cada vez mais pessoas que compreendem a enorme disparidade existente entre as palavras e os atos, e isso as impulsiona a desmascarar os duplos critérios da política externa norte-americana, os quais se vão tornando cada vez mais evidentes.”

Haverá algum país que irá, por fim, conceder asilo a Snowden? Georgi Georgiev considera que ainda é cedo para tirar conclusões:

“A motivação dos atos de Edward Snowden tem um caráter não-comercial evidente, eu vejo um certo romantismo no seu comportamento. Quanto a conceder-lhe asilo político, ainda não é claro se algum dos mais de 20 países se decidirá a fazê-lo. Os EUA exercem uma pressão enorme sobre cada um deles, mas espero que haja pelo menos um país latino-americano que conceda asilo a Snowden. Ele retirou o seu pedido relativamente à Rússia por ter considerado como inaceitáveis as condições que lhe foram apresentadas pela parte russa.

Antes de mais, o que está a acontecer é um grande teste a muitos países ocidentais, que se posicionam como campeões do liberalismo, da democracia e dos direitos e liberdades individuais. Até que ponto eles estarão dispostos a ajudar um homem perseguido pela máquina estatal estadunidense? Vamos ver como eles irão defender Snowden. Ou será que o jogo duplo dos EUA que ele denunciou é também uma característica das outras democracias na Europa?”

 

Fonte: Voz da Rússia

 

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