Defesa & Geopolítica

A PARTIR DA SELVA, BRASIL QUER ESTENDER SEU ALCANCE

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Simon Romero
Na base Marechal Rondon (Brasil) 07/05/2013 15h 10

THE NEW YORK TIMES

O major José Maria Ferreira sorria enquanto listava as ameaças à sobrevivência humana na mata fechada que cerca a base militar remota na Amazônia brasileira.

Ele começou com as piranhas, que espreitam os rios, e as serpentes, como a temida surucucu, a mais longa cobra venenosa do hemisfério ocidental. Depois, passou para as criaturas silenciosas, como a formiga-cabo-verde, chamada de “bullet ant”, em inglês, e encontrada em colônias na base das árvores. Sua ferroada, de acordo com as vítimas, dói tanto quanto um tiro e dura pelo menos 24 horas.

Ampliando seu sorriso, Ferreira então descreveu a leishmaniose, a doença que faz a carne necrosar e é causada por picada de mosca da areia, as febres transmitidas por mosquitos como malária e dengue e, finalmente, a rabdomiólise, uma condição causada por exercício extremo. Leva a danos renais e à quebra dos músculos esqueléticos; as vítimas podem identificar seu início quando a urina tem cor marrom escura.

“Ficamos preocupados quando isso acontece”, disse Ferreira, 42, porta-voz do Centro de Instrução de Guerra na Selva, que está entre as instituições mais exigentes do tipo nos trópicos. “A cor marrom significa 90% de chance de morte”.

Estranhamente, dezenas de soldados das unidades militares de elite do Brasil, assim como membros de forças de operações especiais do mundo todo, brigam pelas vagas nos cursos do centro, que está emergindo como pilar da ambição brasileira de espalhar sua influência para o mundo em desenvolvimento, em especial para a América Latina e a África.

Os cursos duram cerca de nove semanas, e os instrutores submetem os soldados a uma série de tarefas penosas. Os soldados precisam superar longas caminhadas pela floresta, nadar pelas águas infestadas de jacarés e piranhas e sobreviver por dias sem ração, caçando e colhendo sua própria comida.

Os instrutores também privam os soldados de sono, gritam insultos e, quando percebem sinais de fadiga, forçam-nos a lutar entre si.

Por todo o tempo, os soldados dormem (quando podem) em redes penduradas no meio da selva, frequentemente ensopados por chuvas torrenciais ou atormentados pelos rugidos dos macacos de furar os tímpanos.

“Tem sido uma experiência muito, muito cansativa”, diz o tenente Djibil Toure, 26, um dos quatro oficiais da unidade de operações especiais do exército senegalês enviada para participar do curso neste ano.

O contingente senegalês desistiu depois de fracassar em um teste no qual os participantes precisavam atravessar um trecho de água com o equipamento completo, com a mochila e o rifle que juntos pesam mais de 45 kg. Mas eles permaneceram como observadores, pois o Brasil concordou em ajudar o exército senegalês a melhorar sua capacidade de guerra na mata.

Depois do fim do curso, os assessores militares brasileiros planejam ir para o Senegal, segundo Toure, onde sua unidade está envolvida em combater uma insurgência teimosa, o Movimento de Forças Democráticas da Casamansa.

Para o Brasil, a oportunidade de treinar soldados africanos vai ajudar a elevar seu perfil do outro lado do Atlântico, enquanto as relações comerciais crescem entre o Brasil e os países africanos. Além do Senegal, Angola começou a enviar soldados para o centro, conhecido como Cigs, por suas iniciais em português.

O Brasil também disponibilizou os cursos para países em seu próprio hemisfério, e a Argentina, Venezuela, Guiana e Suriname enviaram participantes. Até a França, que mantém tropas na Guiana Francesa, uma região além-mar que faz fronteira com o Brasil na Amazônia, e os Estados Unidos ocasionalmente enviam soldados para treinamento.

O Cigs nasceu em 1964, depois que um oficial brasileiro que participou de um curso similar operado pelo Exército norte-americano no Panamá procurou criar um centro de instrução adequado às condições da floresta brasileira.

Algumas inovações incluem a substituição de mulas e cavalos por búfalos de água asiáticos, que foram introduzidos décadas atrás na bacia do rio Amazonas e se adaptaram bem à floresta úmida, e uma faca de combate desenvolvida para o centro que é dada aos soldados que completam o curso.

Treinar uma força militar que permita que o Brasil afirme sua soberania sobre a região amazônica, cerca de 60% da qual está no Brasil e vem se urbanizando rapidamente, continua sendo a prioridade do centro. O programa se concentra nos desafios impostos pelo tráfico de cocaína, desmatamento ilegal, mineração não autorizada de ouro e diamante e a ameaça de incursões por guerrilheiros da Colômbia em busca de abrigo.

Além disso, o Centro de Instrução de Guerra na Selva também apoia os esforços do Brasil em aumentar o perfil militar brasileiro, participando mais ativamente das missões da ONU, como no Haiti e na Força Interina da ONU no Líbano. O centro ajuda a reposicionar as forças armadas, depois de um longo tempo de governo militar, de 1964 a 1985, quando os soldados foram implicados em abusos de direitos humanos.

A tarefa de preparar soldados para missões no Brasil ou no exterior, em grande parte, é da responsabilidade do coronel Mario Augusto Coimbra, principal instrutor do centro.

Coimbra, que se descreve como especialista no uísque Jack Daniel`s, recentemente passou férias no Texas caçando porcos selvagens e exibe em seu escritório uma coleção de facas de combate, particularmente kukris nepalesas.

“O Rambo não conseguiria completar esse curso”, disse Coimbra, 44, homem parrudo cujo celular toca como um helicóptero decolando. “Porque ele é individualista; para sobreviver na selva, você precisa ser uma equipe”.

Ainda assim, até mesmo as equipes formadas no curso inevitavelmente vão sendo podadas. Dos 100 participantes deste ano, restavam apenas 53 ainda na metade do curso. Médicos e psicólogos monitoram constantemente os soldados, pedindo sua remoção quando parecem cansados demais ou adoentados. A última fatalidade foi em 2008, quando um soldado desmaiou ao nadar.

Além dos oficiais senegaleses, soldados da Guatemala, Equador e França participaram do curso neste ano.

Em recente tarde, muitos dos participantes pareciam desolados, com olheiras profundas, quando receberam ordens para correr em formação, sob a chuva incessante. Seus nomes foram retirados dos uniformes e são identificados por números.

O número 14, tenente Caio Nicoli Calggario, do Espírito Santo, no Sudeste do Brasil, parecia exausto ao falar sobre o curso. Ele disse que a pior fase foi a de sobrevivência, quando alguns soldados comeram larvas encontradas no coqueiro de babaçu.

“Dormi 10 minutos na noite passada”, disse ele, olhando para o chão. “É difícil caçar quando você está cansado”.

Tradutor: Deborah Weinberg

Fonte: NYT via UOL 

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