Defesa & Geopolítica

Crise na Síria divide os Brics

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CLÓVIS ROSSI – ENVIADO ESPECIAL A NOVA DÉLI

Os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) chegam para sua quarta reunião de cúpula, a partir de amanhã, divididos em torno da crise na Síria.

O esboço original do documento que os chefes de governo devem assinar na quinta-feira fala em acabar com “toda a violência”, o que equipara a selvagem repressão praticada pela ditadura do presidente Bashar Assad aos atos violentos cometidos, em resposta, pelos opositores.

O Brasil não concorda com essa formulação. Gostaria que ficasse claro que a maior responsabilidade é do governo. Mas Rússia e, principalmente, China preferem “equalizar a responsabilidade pela violência”, no dizer de um dos negociadores do texto final.

De certa forma, a divergência em torno do caso da Síria –o mais agudo na agenda global– reproduz a divisão institucional que há entre os Brics. Três países democráticos (Índia e África do Sul, além do Brasil) divergem da fórmula apoiada por uma ditadura (a China) e por um regime autoritário, embora formalmente democrático (a Rússia).

Já houve tal divisão no Conselho de Segurança das Nações Unidas, quando se votou proposta da Liga Árabe de condenação do regime sírio. China e Rússia vetaram o texto que África do Sul e Índia apoiaram.

O Brasil já não era membro do Conselho de Segurança naquele momento, mas apoiou de fora a posição de indianos e sul-africanos.

‘UM ERRO’

A posição das três democracias do grupo inova em relação a uma nota oficial emitida após visita de seus representantes à Síria, em agosto do ano passado.

Naquela altura, o IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) “equalizou” a responsabilidade pela violência. Mas, depois, o porta-voz do Itamaraty, Tovar Nunes, admitiu que a nota fora “um erro”.

De todo modo, os cinco BRICS estão de acordo em respaldar a missão do ex-secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, que está tratando de conseguir ao menos uma trégua para permitir a entrada de ajuda humanitária. Também estão de acordo em rejeitar qualquer intervenção estrangeira, o que acaba sendo inócuo porque a hipótese não está em debate, por enquanto.

O máximo que se discute, assim mesmo apenas entre Estados Unidos e Turquia, é o possível envio aos grupos de oposição de ajuda não-letal, o que inclui equipamentos de comunicação e suprimentos médicos.

Mesmo essa possibilidade é rejeitada pela Rússia.

A divisão entre os Brics tem sua lógica, aponta, em artigo recente, Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas: “Enquanto Brasil, Índia e África do Sul estão se empenhando em uma significativa redistribuição de poder institucional, China e Rússia são poderes do status-quo, relutantes em mudar um sistema que lhes tem servido bem nas últimas décadas”.

Fonte: Folha de S.Paulo

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