Guerra da Água é silenciosa, mas já está em curso

A guerra da água é silenciosa, mas é uma realidade: conflito em Barcelona causado pelo aumento das tarifas, quase guerra na Patagônia chilena por causa da construção de enormes represas e da privatização de sistemas fluviais inteiros, antagonismos em Barcelona e em muitos países africanos pelas tarifas abusivas aplicadas pelas multinacionais. A pérola fica por conta da Coca Cola e de suas tentativas de garantir o controle em Chiapas, México, das reservas de água mais importantes do país.

Eduardo Febbro – De Paris

Sugestão: LUCENA

Paris – Quanto vale a vida? “Para começar, um bom copo de água”, responde com ironia Jerôme, um dos participantes do Fórum Mundial Alternativo de Água (FAME) que se reuniu na França, paralelamente ao muito oficial Fórum Mundial da Água (FME). Duas “cúpulas” e duas posturas radicalmente opostas que expõem até o absurdo o antagonismo entre as multinacionais privadas da água e aqueles que militam por um acesso gratuito e igual a este recurso natural cuja propriedade é objeto de uma áspera disputa nos países do Sul. Basta apontar a identidade dos organizadores do Fórum Mundial da Água para entender o que está em jogo: o Fórum oficial foi organizado pelo Conselho Mundial da Água. Este organismo foi fundado pelas multinacionais da água Suez e Veolia e pelo Fundo Monetário Internacional, incansáveis defensores da privatização da água nos países do Sul.

O mercado que enxergam diante de si é colossal: um bilhão de seres humanos não tem acesso à água potável e cerca de três bilhões de seres humanos carecem de banheiro. O tema da água é estratégico e tem repercussões humanas muito profundas. Os especialistas calculam que, entre 1950 e 2025 ocorrerá uma diminuição de 71% nas reservas mundiais de água por habitante: 18 mil metros cúbicos em 1950 e 4.800 metros cúbicos em 2025. Cerca de 2.500 pessoas morrem por dia por não dispor de um acesso adequado à água potável. A metade delas é de crianças. Comparativamente, 100% da população de Nova York recebe água potável em suas casas. A porcentagem cai para 44% nos países em via de desenvolvimento e despenca para 16% na África Subsaariana.

As águas turvas dos negócios e as reivindicações límpidas da sociedade civil, que defende o princípio segundo qual a água é um assunto público e não privado e uma gestão racional dos recursos, chocam-se entre si sem conciliação possível. Um exemplo dos estragos causados pela privatização desse recurso natural é o das represas Santo Antonio e Jirau, no rio Madeira, a oeste do Amazonas, no Brasil. As duas represas têm um custo de 20 bilhões de dólares e, na sua construção, estão envolvidas a multinacional GDF-Suez e o banco espanhol Santander. A construção dessas imensas represas provocou o que Ronack Monabay, da ONG Amigos da Terra, chama de “um desarranjo global”. As obras desencadearam um êxodo interior dos índios que viviam na região. Eles foram se refugiar em outra área ocupada por garimpeiros em busca de ouro e terminaram enfrentando-se com eles.

“Deslocamento de populações, inundação de terras agrícolas e de matas e esgotamento de espécies aquáticas são algumas das consequências nefastas dessas megaestruturas”, denuncia Ronack Monabay. As represas se Santo Antônio e Jirau ameaçam também várias populações indígenas ao longo do rio Madeira: os Karitiana, os Karipuna, os Uru-eu-Wau-Wau e os Katawixi. Outros grupos como os Parintintin, os Tenharim, os Pirahã, os Jiahui, os Torá, os Apurinã, os Mura, os Oro Ari, os Oro Bom, os Cassupá e os Salamãi também estão ameaçados. Nenhuma destas populações indígenas foi consultada sobre a viabilidade dos projetos. Eles foram impostos a elas, juntamente com todos os males que os acompanham.

O exemplo do Brasil é extensivo a outros projetos similares em Uganda ou Laos, onde as multinacionais da água semeiam a destruição. O direito à água para todos foi reconhecido pelas Nações Unidas em 2010. No entanto, esse reconhecimento está longe de ter se materializado em fatos. Emmanuel Poilane, diretor da Fundação France Libertés, criada por Danielle Miterrand, falecida esposa do também falecido presidente socialista François Miterrand, lembra de um dado revelador: “dos 193 países que integram a ONU, só 30 deles inscreveram esse direito na Constituição. Mas esses 30 países são todos do Sul”. O Norte quer água privada para encher os caixas de seus bancos e pouco importa o custo humano que a escassez de água pode causar às populações destes países.

A este respeito, Emmanuel Poilane recorda que “a cada três segundos morre uma criança por falta de água”. A própria existência do Fórum Mundial da Água, organizado por um Conselho Mundial da Água composto por multinacionais e pelo FMI é uma aberração. A batalha entre público e privado se deslocou inclusive para o Senado francês. No curso de um debate, um dos senadores socialistas lembrou que esse fórum não é uma instância das Nações Unidas, mas sim um lugar onde “se fazem negócios privilegiados entre as multinacionais”. É urgente que a água seja objeto de uma reapropriação cidadã”. Não é o caso. As instâncias internacionais estão ausentes porque os lucros à vista são colossais. A gestão da água foi confiscada pelos interesses privados.

Brice Lalonde, coordenador da Rio+20, cúpula da ONU para o Meio Ambiente, prometeu que a água será “uma prioridade” da reunião que será realizada no Rio de Janeiro em junho. O responsável francês destaca neste sentido o paradoxo que atravessa este recurso natural: “a água é uma espécie de jogo entre o global e o local”. E neste jogo o poder global das multinacionais se impõe sobre os poderes locais.

As ONGs não perdem as esperanças e apostam na mobilização social para contrapor a influência das megacorporações. Neste contexto preciso, todos lembram o exemplo da Bolívia. Jacques Cambon, organizador do Fórum Alternativo Mundial da Água e membro da ONG Aquattac, recorda o protesto que ocorreu na cidade de Cochabamba: “dezenas de milhares de pessoas manifestaram-se na rua em protesto contra o aumento da tarifa da água potável imposto pela multinacional norteamericana Bechtel”.

A guerra da água é silenciosa, mas existe: conflito em Barcelona causado pelo aumento das tarifas, quase guerra na Patagônia chilena por causa da construção de enormes represas e da privatização de sistemas fluviais inteiros, antagonismos em Barcelona e em muitos países africanos pelas tarifas abusivas aplicadas pelas multinacionais. A pérola fica por conta da Coca Cola e de suas tentativas de garantir o controle em Chiapas, México, das reservas de água mais importantes do país. Jacques Cambon está convencido de que “o problema do acesso à água é um problema de democracia. Enquanto não se garantir o acesso e a gestão da água sob supervisão de uma participação cidadã haverá guerras da água em todo o mundo”.

A senadora brasileira Katia Abreu (PSD), que também é presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), propôs durante o Fórum uma iniciativa para “proteger em escala mundial as zonas essenciais à preservação dos recursos de água”. As palavras, no entanto, se chocam com a dura realidade: a das multinacionais e a da própria natureza. A ONU apresentou na França um informe sobre o impacto da mudança climática na gestão da água: secas, inundações, transtornos nos padrões básicos de chuva, derretimento de geleiras, urbanização excessiva, globalização, hiperconsumo, crescimento demográfico e econômico. Cada um destes fatores, constitui, para as Nações Unidas, os desafios iminentes que exigem respostas da humanidade.

A margem de manobra é estreita. Nada indica que os tomadores de decisão estão dispostos a modificar o rumo de suas ações. A mudança climática colocou uma agenda que as multinacionais, os bancos e o sistema financeiro resistem a aceitar. Seguem destruindo, em benefício próprio e contra a humanidade. Ante a cegueira das multinacionais, a solidariedade internacional e o lançamento daquilo que se chamou na França de “um efeito mariposa” em torno da problemática da água são duas respostas possíveis para frear a seca mundial.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior

12 Comentários

  1. Calma gente, não se preocupem, o mundo sabe que um país da américa do sul tem água avontade, se faltar eles viram buscar aqui, na marra. É um tal de BRAZIL, alguem conhece?

  2. Acorda governo quadrupede olha as malditas multinacionais ai de olho na nossa água ainda bem que temos um exercito de salva mais temido do mundo é a nossa garantia contra esses piratas infernais do capitalismo desenfreado.

  3. ÁGUA VIROU ALVO DA GATUNAGEM

    Com certeza haverá guerras mais cedo do que se possa imaginar;os efeitos climáticos e a poluição das grandes potência já há tempo desencadearam o efeito estufa e comprometendo a normalidade climática e a vida na Terra.

    Há também a malandragem e a gatunagem,motivada pelo maucaratismo,essa já opera faz vítimas há tempo.

    *********(trechos do original)

    Colonos israelenses se apropriam de água prejudicando palestinos, diz ONU

    Colonos israelenses se apropriam de dezenas de recursos de água na Cisjordânia em detrimento da população palestina, afirma o Escritório de coordenação dos assuntos humanitários da ONU (OCHA, na sigla em inglês) em seu relatório publicado nesta segunda-feira, 19.

    (*)Fonte:Reuters

    (…) No documento, a entidade afirma que em 2011 foram identificados 56 fontes de recursos hídricos nas proximidades das colônias que tiveram o acesso proibido aos palestinos através de “atos de intimidação, ameaças e violências cometidas por colonos israelenses”.(…)

    ************************

    http://www.portugues.rfi.fr/mundo/20120319-colonos-israelenses-se-apropriam-de-agua-prejudicando-palestinos-diz-onu

  4. E os CANALHAS BILDERBERGs da AMBEV consomem NO$$A água, nos fazem COMPRAR a sua DROGA(CERVEJA) maldita e, ainda, enviam TODOS os seus EXORBITANTES lucros para a BÉLGICA, não é interessante???

  5. Que legal em 2025 já não vai ter água pra ninguem e nosso sub nuclear só sai em 2030, que dirá de uma esquadra completa e eficiente, isso sim é fazer uma nação sem futuro.

  6. Um bom documentário sobre o tema é “Blue Gold – World Water Wars“, “Water – The Great Mistery“, “Flow: For Lover of Water“.
    .
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    Lucena, Israel é um dos países que mais agem de forma criminosa quanto a água, roubam ela das regiões que ocupam de todas as formas possíveis, a última agora será a construção de um muro (outro) para impedir que os não-israelenses possam ter qualquer tipo de acesso à água, enfim, crimes contra humanidade diariamente!

  7. a humanidade esta cometendo suicidio coletivo,estamos andando para frente , ou apenas andando rapido e em circulos?? lamentavel

  8. pelo que eu vi no mapa os paises que estao em azul nao tem problemas ainda de aqua ,se visualizar os mais prejudicados sao a africa e o oriente eu acho muito dificil eles virem buscar aqua aqui ,mas como tem uns cupins de aço la no hemisferio norte mesmo eles nao tendo escazes de aqua mas como ela valeria mais vai sim ter guerra por causa da aqua mas não antes que varias outras por outros motivos ,é aquilo que eu sempre falo apesar de reaparelhamento estar acontecendo ainda é em um ritimo muito lento,pois se estivermos bem armados as possibilidades de sermos charcados fica mais dificil.

  9. Direito Universal da Agua garantido pela ONU, onde na realidade as fontes e companias que fornecem a agua estao sendo vendidas a MultiNacionais , na maioria Americanas..
    Ou seja os Gringos querem Controlar a Agua do Planeta..
    Nao esquecendo que na Bolivia,quando a Bechtel(americana) teve o monopolio da Agua, foi declarado Ilegal ter Poc,os Artesianos ou coletar Agua da Chuva..

  10. Cmtejfilho disse:
    23/03/2012 às 10:50

    Calma gente, não se preocupem, o mundo sabe que um país da américa do sul tem água avontade, se faltar eles viram buscar aqui, na marra. É um tal de BRAZIL, alguem conhece?===brazil eu ñ conheço + BRASIL esse eu conheço e temos de tomar providências p defendr o q nos pertence…O Canada tem mt + água q o n BRASIL…podem ir prá lá.Por issoq os nefastos judeus ñ devolvem Golan aos sirios…Sds.

  11. Não é a toa que as colonias de ocupação em israel estão justamente sendo construidas sobre os últimos reservatórios de água daquela região…
    O pouco que sobrou na cisjordânia vai logo ser canalizado para tel aviv e seus colonos da periferia. Faixa de gaza? nao existe sequer um açude ou fio dágua lá, agonde existe alguma água para os palestinos ela é racionada. Ela chega em um ou dois dias da semana(tudo programado) e os palestinos podem usufruir dela por 7 horas, contando a partir das 10 da noite. é o tempo deles encherem os reservatorios de água para toda a semana. pois eles sabem que na proxima semana israel pode cortar de vez o fornecimento. Sem contar que eles pagam mais caro pelo metro cúbico de água que os moradores do estado de israel…
    .
    isso é jeito de tratar as pessoas que moravam ali antes deles e que tiveram suas terras tomadas sem a menor cerimônia, sem indenização nem nada?

  12. Gustavo G disse:
    24/03/2012 às 11:07

    “… Não é a toa que as colonias de ocupação em israel estão justamente sendo construidas sobre os últimos reservatórios de água daquela região…
    O pouco que sobrou na cisjordânia vai logo ser canalizado para tel aviv e seus colonos da periferia. Faixa de gaza? nao existe sequer um açude ou fio dágua lá, agonde existe alguma água para os palestinos ela é racionada. Ela chega em um ou dois dias da semana(tudo programado) e os palestinos podem usufruir dela por 7 horas, contando a partir das 10 da noite. é o tempo deles encherem os reservatorios de água para toda a semana. pois eles sabem que na proxima semana israel pode cortar de vez o fornecimento. Sem contar que eles pagam mais caro pelo metro cúbico de água que os moradores do estado de israel…
    .
    isso é jeito de tratar as pessoas que moravam ali antes deles e que tiveram suas terras tomadas sem a menor cerimônia, sem indenização nem nada? “======= Vc vai ter de gritar , pois os nefastos judeus são surdos , cegos, expansionistas, corsários, c td os adjetivos pejorativos possíveis e estão acima das leis, tanto q ñ cumpre a raolução da ONU .242…Sds.

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