Defesa & Geopolítica

Os árabes, como eram vistos há cinquenta anos

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Por Daniel Pipes

“Outrora gentis e acomodáveis, a remota civilização dos árabes vem sendo arrebatada hoje pelos ventos revigorantes da mudança. Uma fértil espécie de desordem está substituindo os velhos e definidos padrões de vida”. Essas palavras que parecem contemporâneas foram publicadas em 1962, em um atraente livro, de 160 páginas, repleto de fotografias, intitulado The Arab World (O Mundo Árabe).

A edição ostenta três virtudes que valem a pena serem revistas cuidadosamente, meio século depois. Primeiro, os editores da revista Life, a então destacada revista semanal americana, produziram-na, implicando valor cultural. Segundo, o alto funcionário reformado do Departamento de Estado, George V. Allen, autor da introdução, apontou as credenciais de establishmentdo livro. Terceiro, Desmond Stewart (1924-1981), aclamado jornalista britânico, historiador e escritor, escreveu o texto.

O Mundo Árabe representa de forma enfática um artefato de outra era, embora não enaltecendo por completo o objeto de seu artigo, Stewart apresenta uma abordagem paternalista, benigna e romântica que deixaria engasgado até os maiores escritores eufemísticos de hoje. Por exemplo, ele leva a crer que um visitante do Ocidente nos países de língua árabe entraria “no domínio de Aladin e Ali Baba. As pessoas trazem à memória sua Bíblia ilustrada”. Encontra-se pouco desse sentimentalismo na era da Al-Qaeda.

Mais interessante ainda, o livro mostra com que facilidade um proeminente analista pode interpretar mal a situação como um todo.

Conforme proposto pelo título, um tema domina a existência de um único povo árabe do Marrocos ao Iraque, um povo tão atado pela tradição que Stewart recorre a uma analogia do mundo animal: “os árabes possuem uma cultura comum, distinta, impossível de se livrar tanto quanto o beija-flor não mudará seus hábitos de nidificação pelos do melro”. Ignorando o histórico do fracasso árabe em unificar seus países, Stewart previu que “independentemente dos acontecimentos, as forças para a união [árabe] continuarão a existir”. Altamente improvável: essa ânsia desapareceu logo depois de 1962 e se manteve extinta desde então, bem como a premissa superficial que o idioma árabe por si só define o povo, sem levar em conta a história e a geografia.

O segundo tema trata do Islã. Stewart expressa que essa fé “simples” elevou a humanidade “a um novo patamar”, que ela “não é pacifista, mas a sua principal palavra é Salam, ou seja, paz”. Ele chama o Islã de “fé tolerante” e descreve os árabes historicamente como “conquistadores tolerantes” e “soberanos tolerantes”. Os muçulmanos lidaram de forma “tolerante” com os judeus e cristãos. De fato, “a tolerância árabe estendia-se à cultura”. Toda essa tolerância faz com que Stewart alegremente, porém de forma insensata, não leve em conta as manifestações do islamismo, que segundo ele “tem um ar antiquado e pouco apelo para os jovens”. Em suma, Stewart não tem a mínima ideia quanto ao supremacismo, da sua origem aos tempos modernos.

Legenda do livro: “Em uma festa estilo levantino, oferecida por um homem de negócios, milionário árabe, uma dançarina libanesa chamada Kawakib apresenta a tradicional dança do ventre. Enquanto Kawakib dançava, os convidados também dançavam e cantavam”.

O terceiro tema trata da determinação dos árabes em se modernizar: “Uma das surpresas do Século XX foi a maneira como os muçulmanos árabes aceitaram a mudança e o mundo moderno”. Com exceção da Arábia Saudita e do Iêmen, em todos os outros lugares, ele descobre que “o modernismo árabe é uma força tangível, visível e audível”. (Essa é a razão da minha primeira sentença, “ventos revigorantes da mudança”). Sua falta de visão em relação às mulheres resulta no chocante trecho a seguir: “o harém e seus pilares psicológicos foram detonados pelo Século XX”. “Em assuntos econômicos, … as mulheres são quase iguais aos homens”. Ele enxerga o que deseja enxergar, sem ligar para a realidade.

Legenda do livro: “Estudiosos amigáveis da seita muçulmana xiita passeiam no pátio do santuário em Najaf, Iraque, enquanto outros rezam, meditam ou até dormem”.

Continuando com o tema do otimismo quimérico, Stewart detecta os povos de língua árabe se livrando do molde antigo, determinados “a destruir antigos estereótipos”. Ninguém se atreveria hoje a escrever sobre o século VII da maneira como ele o fez, especialmente após o fracasso das ambições de George W. Bush em relação ao Iraque e a incursão na Líbia de Barack Obama: “Os primeiros quatro califas foram tão democráticos quanto William Gladstone da Grã-Bretanha ou Thomas Jefferson dos Estados Unidos”. Stewart chega a alegar que a “civilização árabe faz parte da cultura ocidental, não oriental”, seja lá o que isso quer dizer.

Legenda do livro: “Passando por cima de um carpete de boas-vindas de valiosos tapetes persas, o rei Saud da Arábia Saudita chega de Cadillac ao terraço de um palácio real”.

Como aparte, o Islã era tão misterioso há cinquenta anos que as duas dezenas de funcionários, com altos salários da revista Life, listados como equipe editorial do livro legendou uma foto com a informação errada de que a peregrinação islâmica “ocorre todos os anos na primavera”. (A Peregrinação hajjé antecipada de 10 a 11 dias a cada ano (no calendário gregoriano) devido ao calendário lunar muçulmano).

Os erros dos predecessores têm o efeito de causar modéstia. Um analista como eu espera não ser tão obtuso como Desmond Stewart e a revista Life e não ser exibido sob um prisma tão ruim com o passar do tempo. Aliás, eu estudo história na esperança de obter uma visão mais ampla e assim não estar limitado pelas suposições de hoje. Em 2062, diga-me como estou me saindo.

Publicado no The Washington Times – Original em inglês: The Arabs as Seen Fifty Years Ago 
Tradução: Joseph Skilnik

Fonte: MídiaSemMáscara

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