Defesa & Geopolítica

Propina abre portas para o berço da revolta

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Sugestão: Lucena
Jamil Chade / ENVIADO ESPECIAL / DERAA, SÍRIA

DEERA – Bairros arrasados, um silêncio perturbador e um estranho vazio – grande parte da população parece ter desaparecido. Esse é o cenário na cidade de Deraa, o berço da revolta na Síria, há quase um ano, que continua sendo alvo quase diário da ofensiva do ditador Bashar al-Assad.

Edifício em chamas no bairro de Baba Amr, em Homs, na Síria - Efe
Efe
Edifício em chamas no bairro de Baba Amr, em Homs, na Síria

A reportagem do Estado entrou clandestinamente na Síria por sua fronteira sul, na companhia de grupos de oposição dedicados a levar ajuda médica aos feridos. Os opositores subornam diariamente os soldados de Assad para permitir que o carregamento de bolsas de sangue, material médico e de cirurgia chegue aos rebeldes.

A Deraa sitiada não é feita só de escombros, mas também de uma sociedade em ruínas. Em uma cidade que tinha 100 mil habitantes, foram quase 8 mil mortos e milhares de refugiados, segundo cálculos – aparentemente exagerados – de moradores.

A missão em território sírio que o Estado acompanhou foi obrigada a parar na periferia de Deraa. Informações indicavam que atiradores estavam prontos para abrir fogo. Na maioria das vezes, os rebeldes carregavam apenas uma “rusi”, nome local para os fuzis Kalashnikov – em contraste profundo com o farto armamento do Exército sírio.

No horizonte, os tanques e baterias sírias podiam ser vistos com binóculos.

As ruas vazias dos bairros do sul de Deraa chamavam atenção até dos rebeldes que moravam no local. A cidade fica a cinco minutos de carro da fronteira com a Jordânia e sempre conviveu com a constante passagem de bens e mercadorias na direção de Amã, além de ter um forte setor comercial.

Hoje, Deraa é uma cidade de lojas abandonadas, ao lado de dezenas de edifícios arrasados. Escolas estão fechadas há semanas, hospitais servem de centros de tortura. Luz e água estão limitadas e bancos não operam em todas as regiões.

Refugiados de Deraa dizem que todos os moradores que puderam abandonar a cidade o fizeram. Noha Shaaban deixou a cidade na companhia de sua filha, de 17 anos, e de sua nora depois da morte de seus primos. “Meu irmão e meus dois filhos ficaram lutando pelo Exército Livre da Síria”, afirmou. “Tenho muito orgulho deles”, acrescentou, mostrando a fotos de ambos.

Contatado por telefone pela reportagem, um dos filhos de Noha – um engenheiro – prefere não dar detalhes das operações nem seu nome. Mas garante. “Agora ou ele (Assad) ou nós acabaremos mortos”, disse.

Depois de 11 meses de revoltas, todos sabem que, a cada dia que passa, a violência de ambos os lados torna o diálogo cada vez mais difícil. Entre o sentimento de orgulho de lutar, a revolta diante das mortes e a tentação cada vez maior de uma jihad (guerra santa), a sociedade ganha contornos que fazem lembrar o Líbano dos anos 80.

Propina. Mesmo o temido Exército de Assad, acusado de crimes contra a humanidade, não passa de uma força moralmente em decadência. Ao cruzar a fronteira, dois carros que levavam o equipamento médico à oposição síria subornavam os guardas de Damasco com se pagassem pedágio. À primeira vista, o dinheiro era embolsado por capitães do Exército, sem nenhum sentimento de traição ao regime.

O único ponto de debate era o preço. “Está ficando cada vez mais caro”, disse o chefe da operação ao interlocutor dos militares. O soldado explicou que o controle de Damasco era cada vez maior e, portanto, mais pessoas cobravam seu quinhão. Recebidos os US$ 500, os soldados nem sequer pediram para ver o passaporte das quatro pessoas que faziam parte da operação.

Os rebeldes não são os únicos a entrar ilegalmente. Um comunicado de imprensa emitido poucas semanas atrás pela entidade Médicos Sem Fronteira confirmou que, diante da recusa de Assad em aceitar a entrada deles no país, a opção era mesmo a de levar equipamentos para a Síria ilegalmente.

Sabendo das divisões existentes entre os rebeldes, o governo não perde a oportunidade de incitar o sectarismo, armar milícias em cidades aliadas e colocar o país à beira de uma perigosa fragmentação.

Essa tensão se encontra nas ruas de Deraa. Em março de 2011, muros de uma escola foram pintados com slogans anti-Assad. O que ocorreu depois, depende das versões. Para alguns, os slogans foram escritos por crianças de 9 a 14 anos que, no dia seguinte, foram capturadas e torturadas por 13 dias consecutivos nas prisões da região.

Para outros moradores, a história não é exatamente essa. Os slogans teriam sido escritos por ativistas. Mas, ingenuamente, as crianças da família Al-Abazeed assinaram seus nomes no mesmo muro. A prisão e tortura dessas crianças – fato que não é contestado pela população local – fez famílias inteiras saírem às ruas para protestar. O que parecia ser um caso isolado transformou-se em um movimento nacional.

Hoje, o muro em Deraa que deu início à revolta deu lugar a escombros, como em dezenas de outras partes da Síria. “O tecido social da Síria já foi destruído. Mesmo se a guerra acabar amanhã e Assad deixar o país, esses meses de conflito já abriram feridas que levarão anos para cicatrizar”, completou Rajati Tayara, um dos principais ativistas sírios.

A operação para levar o equipamento médico até Deraa não terminou como esperavam seus organizadores. Por falta de segurança, os aparelhos não puderam ser entregues na região mais destruída. Restou apenas repassar a um intermediário sacolas repletas de bolsas de sangue, empacotadas em caixas de biscoitos. “Pelo menos mantemos nossos homens vivos por mais algum tempo”, disse um dos líderes da operação.

Ao voltar pela fronteira na direção da Jordânia, os mesmos soldados que haviam recebido o dinheiro apenas fizeram um sinal positivo para os dois carros.

Fonte: Estadão

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