Defesa & Geopolítica

Coreia do Norte, um buraco negro de informação

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Kim Jong-il morreu no sábado e ninguém ficou sabendo. A notícia não vazou nem por Twitter ou Facebook. Em um país sem conexão, até que faz sentido

Poucos líderes nacionais morrem hoje em dia sem que ninguém fora de seu país saiba disso, sem nem mesmo uma menção no Twitter. No entanto, aparentemente ninguém, o que inclui os serviços de inteligência sul-coreanos, estava ciente de que o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-il, havia morrido na manhã de sábado – até que a morte fosse revelada em um anúncio emocionado da TV estatal do país, nesta segunda-feira, 19.

Essa escolha de mídia mesma parece antiquada na Coreia do Sul, frequentemente citada como o mais conectado país do planeta, onde as notícias são cada vez mais distribuídas e dissecadas via celulares inteligentes e serviços de rede social.

Uma imagem noturna da península coreana registrada em 2002 mostra a Coreia do Norte como uma mancha escura, em forte contraste com o mar de luzes do próspero vizinho ao sul da fronteira mais militarizada do planeta. E, passada uma década, pouco mudou.

A morte de Kim parece ter sido mantida em segredo entre a pequena elite que controla o norte da Coreia. Não houve mensagens de Facebook ou Twitter, em um país onde as pessoas não têm internet, para espalhar a notícia, ao contrário do acontecido na “Primavera Árabe”.

Os internautas sul-coreanos, acostumados a um fluxo quase instantâneo de informações, ficaram quase tão chocados pela demora em divulgar a notícia quanto pela morte de Kim.

Poucos telefones. O controle do regime norte-coreano sobre a informação é relativamente facilitado pela infraestrutura de comunicação limitada do país, o que torna quase impossível um cenário parecido com o da Primavera Árabe, dizem analistas.

De acordo com dados da União Internacional de Telecomunicações, a Coreia do Norte contava com menos de duas assinaturas de telefonia móvel por 100 habitantes, no ano passado, ante 105 para a Coreia do Sul.

Enquanto 83% dos sul-coreanos dispõem de acesso regular à Internet, ela continua indisponível no Norte, se excluirmos um pequeno número de ministérios do governo, hotéis e áreas diplomáticas da capital Pyongyang.

Os norte-coreanos que dispõem de celulares e acesso à internet são “pró-governo, pró-regime. Não teriam nada a ganhar se organizassem um levante. Assim, nesse sentido, o acesso não parece uma ferramenta útil de resistência ao governo”, disse Cho Min, especialista do Instituto pela Unificação Nacional da Coreia.

As respostas dos blogs sul-coreanos à morte de Kim ilustram a facilidade com que mensagens sediciosas podem ser transmitidas a uma audiência de massa, hoje, e isso é algo que as autoridades norte-coreanas se esforçam por reprimir.

Muitos usuários do Twitter publicaram mensagens de condolência e até elogios a Kim, apesar da retórica favorável ao Norte poder representar violação dos regulamentos de segurança nacional da Coreia do Sul. “Oro pelo repouso do falecido Kim Jong-il”, escreveu o usuário “@heliumgas”.

Agências que têm contatos em Pyongyang disseram que era provável que a morte de Kim levasse as autoridades a reforçar ainda mais seu controle das comunicações.

“Estamos antecipando que haverá um bloqueio de comunicações e viagens, nos próximos dias, enquanto as autoridades norte-coreanas agem para estabilizar a situação e preparam o período de luto”, disse Geoffrey See, diretor executivo da Chosun Exchange, uma organização sem fins lucrativos sediada em Cingapura que promove intercâmbio acadêmico com a Coreia do Norte.

Mas há alguns sinais de que o controle do governo sobre as comunicações possa estar se afrouxando. Celulares vêm se tornando comuns entre os moradores de Pyongyang, e não apenas entre a elite, diz Simon Cockerell, da Koryo Tours, uma agência de viagens em Pequim que organiza viagens à Coreia do Norte.

Nos dois últimos anos, o uso de celulares “explodiu”, segundo ele, e as pessoas usam aparelhos chineses de preço médio para trocar mensagens de texto, jogar e verificar informações sobre o clima.

A Coreia do Norte deve registrar este ano o milionésimo usuário de sua nova rede 3G de telefonia móvel, criada em parceria com o grupo egípcio Orascom.

O setor de telefonia móvel do Norte “atravessou os obstáculos, e o governo não conseguirá mais forçar um recuo sem pagar preço político pesado”, afirmou o Nautilus Institute for Security and Sustainability em relatório no mês passado.

Fonte: Estadão

Nota : Um país a prova de espionagem

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