Defesa & Geopolítica

Sistema político que os EUA antes recomendavam ao mundo parece não mais funcionar

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Photograph: Mladen Antonov/AFP/Getty Images

O Capitólio — Para o americano médio, a sede da democracia

Anand Giridharadas
George El Khouri Andolfato
International Herald Tribune

A América, aquela cidade cintilante no alto de uma montanha, cada vez mais se parece com um vilarejo semi-iluminado sobre um morro.

Para muitas pessoas, o problema parece ser menos de estruturas e números, por mais graves e reais que sejam, e mais um problema de espírito. O futuro se transformou em algo a temer. Mudar o destino parece ser –e estatisticamente é– terrivelmente difícil. O sistema político que os Estados Unidos antes recomendavam ao mundo não parece mais funcionar em seu próprio quintal. Velhos hábitos e novas realidades não se misturam fácil: devemos comprar tão freneticamente quanto a televisão nos pede neste Natal, ou poupar como os chineses?

Foi em um momento como este, em meados do século 19, que o aristocrata francês Alexis de Tocqueville decidiu fazer sua aventura americana. A diferença é que, naquela época, os Estados Unidos eram a Índia/China/Brasil de sua época, e a Europa exercia o papel dos Estados Unidos de 2011. Tocqueville viu a si mesmo se transformando rapidamente em um cidadão do passado e decidiu partir para ver o futuro.

As notícias são tão desoladoras nos Estados Unidos que é fácil esquecer a mágica americana que Tocqueville encontrou e tão habilmente retratou em prosa. Mas seu relato dessa mágica é vitalmente importante, pois certamente muito mais do que a economia americana precisa de conserto. A cultura parece ter perdido seu vigor, sua energia. Tocqueville, talvez, ofereça pistas de como trazê-la de volta.

Ele observou uma prática de igualdade nos Estados Unidos que considerou fundamentalmente diferente dos costumes europeus (excluindo –e foi uma exclusão imensa– os escravos americanos, cuja realidade ele praticamente ignorou). Mas se os americanos de hoje se dividiram em campos rivais que falam de igualdade, de um lado, e de autonomia, do outro, Tocqueville viu que as duas ideias trabalhavam bem juntas na experiência americana, até mesmo reforçando umas às outras.

“À medida que a igualdade social se espalha, há mais e mais pessoas que, apesar de nem ricas e nem poderosas o suficiente para ter muita influência sobre outros, adquirem riqueza e entendimento suficiente para atender suas próprias necessidades”, ele escreveu. “Essas pessoas não devem nada a ninguém e dificilmente esperam algo de alguém.”

Tocqueville admirava os valores resultantes da classe média: uma sociedade definida pelas necessidades e aspirações das pessoas na classe média, não pelas exigências esmagadoras dos muito pobres, nem pelas ambições dos ricos. O governo era limitado, local, até mesmo íntimo, porque não era nem dominado pelos aristocratas e nem pela multidão necessitada.

Hoje, apesar de todo partidarismo na vida americana, há um quase consenso em torno da ideia de que um presidente “cria empregos”. Em um recente debate presidencial republicano, foi pedido aos candidatos que enumerassem quantos empregos criariam. (Alguns fizeram objeção; Mitt Romney, o homem do setor privado que é, deu o número preciso de 11,5 milhões em um mandato –ou 7.900 empregos por dia.)

Especialmente por vir do partido que nutre mais suspeitas em relação à atividade do governo, Tocqueville consideraria essa noção de “criação de empregos” como espantosa. O americano que ele encontrou “confia destemidamente em seus próprios poderes, que lhe parecem suficientes para tudo”, ele escreveu. “Suponha que o indivíduo pense em algum empreendimento, e que o empreendimento tenha um impacto direto no bem-estar da sociedade; não passa pela cabeça dele apelar pela ajuda da autoridade pública.”

Mas o espírito de livre empresa que ele admirava envolvia menos as empresas grandes demais para falir e mais as pequenas: os padeiros, açougueiros e lavradores. Como essas empresas eram pequenas e autocontidas, elas cresciam e faliam de acordo com seu mérito. Esse movimento peculiarmente americano impressionou muito Tocqueville.

Esse movimento tinha consequências sociais importantes. Ele estava ligado, pensava Tocqueville, ao senso de possibilidade americano: em uma sociedade em fluxo, quando “castas desaparecem e classes são unidades”, ele escreveu, “a mente humana imagina a possibilidade de uma perfeição ideal, mas sempre esquiva”. Aqui, de novo, a igualdade tinha características contraditórias: como os seres humanos podiam se tornar qualquer coisa, na teoria, eles aspiravam por grandeza.

Essa fé na perfeição parece ter recuado na vida americana. Ela vive nos programas de perda de peso e nos livros de autoajuda –ou, mais seriamente, em uma devoção mais aberta à religião do que a encontrada na Europa em grande parte secular. Mas a crença de que é possível morrer em uma existência notadamente melhor daquela em que alguém surgiu está desaparecendo. E por um bom motivo: um estudo publicado no ano passado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico apontou que os americanos atualmente experimentam menos mobilidade social do que em quase qualquer outro país rico.

Em uma sociedade em movimento, observou Tocqueville –novamente ignorando os escravos– “os servos não formam uma raça separada, eles não têm costumes, preconceitos ou hábitos peculiares a si mesmos”. Mas na América atual, servir mesas está se tornando mais uma ocupação vitalícia e menos um emprego temporário para estudantes universitários; tatuagens estão se tornando a rigor para uma classe de americanos que sabe ter pouca chance de ascender a um mundo onde tatuagens possam vir a representar um problema; o 1% e os 99% olham furiosamente um para o outro. Poucos em cada campo sentem alguma chance realista de passarem para o outro lado.

Uma leitura tocquevilleana da América atual, então, pode ir além da observação de que ela está estagnando. Ela poderia até mesmo dizer que ela está calcificando, que corre o risco de se tornar uma sociedade de castas. Nessa sociedade, Tocqueville escreveu, falando sobre sua Europa, “todo mundo acha é capaz de ver os limites finais do empreendimento humano diante de si, e ninguém tenta lutar contra um destino inevitável”.

Fonte: UOL

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