Defesa & Geopolítica

Um ataque ao Irã seria desastroso

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RICHARD NORTON-TAYLOR – DO “GUARDIAN”

TRADUÇÃO DE CLARA ALLAIN

“Um primeiro-ministro britânico alguma vez recusaria um pedido feito por um presidente americano de unir-se à América em uma operação militar controversa?” Essa era a resposta, retórica e irrespondível, na opinião deles, dada pelos mandarins de Whitehall sempre que lhes era perguntado por que Tony Blair concordou em invadir o Iraque. Não era questão de a invasão ser errada ou certa; a questão era que o ocupante de 10 Downing Street simplesmente não recusaria um pedido desse tipo formulado pela Casa Branca.

Para os EUA, o Reino Unido podia oferecer não apenas apoio político e “moral”, mas também um trunfo físico de peso: a base de Diego Garcia, convenientemente situada para os caças americanos no território britânico do mesmo nome, no Oceano Índico.

É isso o que está preocupando seriamente o governo britânico: um temor crescente de que Barack Obama tenha dificuldade em se opor à pressão crescente por uma ação militar contra as instalações nucleares do Irã nos próximos 12 meses. Os comandantes militares britânicos podem ser beligerantes, eternamente otimistas e ansiosos por agradar a seus senhores políticos. Mas eles também são pragmáticos e têm plena consciência do potencial para fracasso e também das consequências catastróficas que tal ação militar pode provocar. E seria difícil alguém defender a legalidade de tais ataques preventivos.

Em meio a tanta morte e destruição, qual seria o resultado final e quais seriam as batalhas ao longo do caminho? Comandantes militares dos EUA e Reino Unido vêm avisando há alguns anos sobre os desastres que se seguiriam a ataques com mísseis contra o Irã.

As forças iranianas podem não ser muito poderosas, mas, com a ajuda do Hamas e do Hizbollah, poderiam semear o caos. As tropas britânicas e americanas no Afeganistão seriam expostas a perigo ainda maior do que estão agora; suas bases no Golfo, especialmente em Qatar e no Bahrein, seriam alvos fáceis. O Estreito de Ormuz, entrada do Golfo e canal pelo qual é transportado mais de 50% do petróleo do mundo, seria fechado. O que se ergueria das cinzas?

Para alguns, vale a pena pagar esse preço para impedir o Irã de adquirir armas nucleares. A sugestão é que neste momento existe uma “janela” que possibilitaria que Israel atacasse os sítios nucleares iranianos sozinho. No próximo ano, a “janela” ficaria aberta para os EUA (e o Reino Unido), antes de as armas nucleares do Irã alcançarem o ponto sem retorno.
Esse raciocínio, se é que pode-se chamá-lo assim, é o de um tolo perigoso. Quão esmagado e devastado teria que estar o Irã para que não fosse mais capaz de reiniciar um programa nuclear, mesmo que fosse apenas um programa envolvendo material físsil como arma para terroristas?

Israel está desenvolvendo seu arsenal rapidamente, dotando-se de uma “tríade” nuclear – ou seja, armas que poderiam ser transportadas por terra, por ar ou por submarinos.
Isso está ótimo e é compreensível, porque Israel não é o Irã – instável, imprevisível, governado por um presidente, Mahmoud Ahmadinejad, que quer semear o caos em todo o Oriente Médio. É o que reza o argumento.

Para que ameaçar, ou até mesmo ameaçar atacar, um país cujos líderes estão mais preocupados, e cada vez mais preocupados, com o estado da economia e a dissensão interna que com qualquer ameaça percebida de Israel? O Irã é uma sociedade muito mais sofisticada e dividida que o retrato geralmente pintado no Ocidente.

Um ataque contra o Irã frearia e inverteria as iniciativas de reforma. A primavera árabe se tornaria um inverno árabe, com consequências desastrosas para os interesses americanos e europeus, além das sociedades árabes, incluindo a Arábia Saudita. As opções alternativas são muitas – continuar a aplicar sanções econômicas, uma política de incentivos e castigos, mas com ênfase muito maior sobre o incentivo. É muito mais difícil resistir a abraços que a ataques.

É essencial nos engajarmos com o Irã, mesmo que Teerã continue a parecer determinada a possuir armas nucleares ou a capacidade de produzi-las – “a arte, mas não o artigo”. Afinal, foi pelo status, e não a praticidade militar, que Blair conservou o sistema de mísseis nucleares Trident para o Reino Unido, segundo sua autobiografia.

Se a pressão continuar a crescer, só podemos esperar que restem vozes influentes em número suficiente no governo britânico e em Washington para dizerem “não!” ao primeiro-ministro e ao presidente.

Fonte: Folha de S.Paulo

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