Defesa & Geopolítica

Os brasileiros brilharam, mais uma vez

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Por José Pastore publicado no Estadão

A imprensa deu pouca atenção aos jovens brasileiros que, no início de outubro, disputaram o mais difícil torneio mundial de qualificação profissional, realizado em Londres – o “World Skills”, que reuniu 944 competidores de 51 países das mais diversas profissões. Pois bem. Pela segunda vez, os 28 estudantes brasileiros do Senai conquistaram o prestigioso 2º lugar, ficando atrás apenas da Coreia do Sul, e na frente do Japão, Suíça, Alemanha, França, Estados Unidos e muitos outros super desenvolvidos.

Os brasileiros obtiveram oito medalhas de ouro nos campos do desenho mecânico, eletrônica industrial, mecânica de refrigeração, mecatrônica, joalheria e webdesign e ganharam três medalhas de prata em polimecânica, design gráfico e tecnologia da informação. Além disso, conquistaram várias medalhas de bronze e certificados de excelência, o que os coloca entre os jovens mais bem preparados do mundo. Essa é uma notícia maravilhosa e que merece ser mais divulgada. A necessidade da boa formação profissional é mundialmente reconhecida. Passou o tempo em que as famílias rejeitavam essas profissões por serem de “mãos sujas”.

Numa pesquisa feita em junho de 2011 na União Europeia, 71% dos entrevistados indicaram que as escolas profissionais desfrutam de uma imagem altamente positiva. Cerca de 80% consideram o ensino técnico como absolutamente necessário para as empresas e para as pessoas que, com ele, passam a ter melhores oportunidades de trabalho. A maioria discorda frontalmente de que as profissões técnicas sejam menos apreciadas pela sociedade (Attitudes towards vocational education and training, European Commision, 2011).

No Brasil, igualmente, as famílias disputam freneticamente as matrículas nas boas escolas profissionais, em especial as do Senai. Cada vez mais os prefeitos e as lideranças locais pressionam os empresários para ampliarem as vagas naquelas instituições. Felizmente, as oportunidades de ensino neste campo começam a aumentar.

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais, em 2001 as matrículas no ciclo profissional representavam apenas 5% do total de alunos no ensino médio regular. Em 2009 essa proporção passou para 10%. Ainda é pouco, mas já é um avanço.

Os que passam pelas escolas profissionais se empregam mais facilmente e têm renda 20% superior aos que fizeram o ensino médio regular. Para os que cursaram as boas escolas técnicas, a diferença é muito maior. São profissionais disputadíssimos. Tomei conhecimento de um empresário que está construindo uma refinaria de petróleo no Nordeste. Seu maior desespero no momento é constatar que, todos os meses, a empresa contratante lhe “rouba” 50% dos seus melhores funcionários, desde mecânicos, soldadores e eletricistas até projetistas, gestores e mestres de obras.

Essa pilhagem está em toda parte. As redes de hotéis, por exemplo, só conseguem pessoal qualificado quando os tiram de outras – um alerta aos organizadores dos eventos esportivos de 2014 e de 2016. Nas montadoras de veículos, os técnicos aposentados estão de volta ao trabalho. No setor de óleo e gás, as empresas estrangeiras que chegam ao Brasil fazem de tudo para seduzir os técnicos que a duras penas foram formados pela Petrobrás. Muitas firmas já buscam candidatos nos bancos das universidades ou das escolas técnicas, e as grandes mantêm suas próprias unidades de ensino.

A competição por talentos bem preparados está se transformando numa verdadeira guerra. Segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), dois terços das indústrias brasileiras estão com dificuldades para preencher os cargos disponíveis. Por tudo isso, os resultados que indicam a boa qualidade do ensino do Senai e a expansão do ensino profissional merecem ser comemorados. O Brasil descobriu o caminho das pedras: educar mais e melhor.

José Pastore é professor da FEA-USP, membro da Academia Paulista de Letras, presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomércio de são Paulo.

Fonte: Jornal da Ciência

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