Defesa & Geopolítica

Problemas no reino

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Barack Obama e o Rei saudita Abdullah bin Abdul-Aziz Al Saud

Alexander Cockburn – Counterpunch

Ameace a estabilidade da Arábia Saudita, como estão fazendo agora os levantes xiitas em Qatif e em al-Awamiyah, na província oriental do país rica em petróleo, e estará brandindo uma adaga que aponta para o coração da política que os Estados Unidos aplicam no Oriente Médio há meio século.

Em 1945, o chefe da Divisão de Assuntos do Oriente Médio do Departamento de Estado, escreveu em um memorando que as fontes de petróleo da Arábia Saudita são “uma estupenda fonte de poder estratégico e um dos maiores prêmios materiais da história do mundo”. O homem que orientou os xeiques sauditas a se aproximar dos EUA e a se afastar da Grã Bretanha foi St, John Philby, pai de Kim, e com esse grande golpe Philby pai causou uma devastação muito maior no Império britânico do que seu filho. A queda do aliado dos EUA na região, o Xá do Irã, em 1979, só aumentou a importância estratégica da Arábia Saudita.

Os Estados Unidos consomem atualmente cerca de 19 milhões de barris de petróleo por dia, quase a metade importados. Com 25%, o Canadá é seu principal provedor. Em segundo lugar, está a Arábia Saudita, com 12%. Mas o fornecimento de petróleo cru para os EUA é só a metade da história. A Arábia Saudita controla o preço do petróleo da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e o ajusta cuidadosamente às prioridades dos EUA.

O tráfego não ocorre em apenas uma direção. Desde 1945, os Estados unidos venderam aos sauditas mais de 100 bilhões de dólares em bens e serviços militares. Há um ano, o governo de Obama anunciou o maior negócio de armas da história dos EUA, um programa de 60 bilhões de dólares com a Arábia Saudita para vender equipamento militar a esse país nos próximos 20, 30 anos. Os EUA treinam e abastecem a todas as forças de segurança da Arábia Saudita. As corporações estadunidenses têm imensos investimentos no Reino.

Ao dizer as palavras “Arábia Saudita” ao presidente Obama ou à secretária de Estado Hillary Clinton, cessa abruptamente toda a conversa fiada altruísta sobre a “Primavera Árabe”. Quando os sauditas se apressaram a enviar tropas para o Bahrein, que reprimiu com dureza os manifestantes xiitas no país que serve de base para a Quinta Frota dos EUA, as expressões públicas de reprovação de Washington foram quase imperceptíveis por sua reticência e modéstia.

Os levantes poderiam sair do controle na Arábia Saudita? Falamos de dois desafios diferentes. O primeiro é dos xiitas, oprimidos há bastante tempo, que compõem cerca de 10% da população. O segundo vem da nova geração, dos jovens com menos de 30 anos que representam dois terços da população saudita, na maioria sunitas, que vivem em uma das tiranias mais completas do mundo.

Em fevereiro deste ano, perturbado pela tendência dos acontecimentos no Egito e em outros países, o rei Abdullah, de 87 anos, anunciou um plano de gastar cerca de 36 bilhões de dólares em bolsas de assistência pública, cerca de 2 mil dólares para cada saudita. Identificou corretamente um dos grandes problemas do Reino: quase a metade das pessoas entre 18 e 40 anos está sem trabalho.

Há poucos dias, Abdullah ofereceu às mulheres sauditas um “privilégio”, o direito de participar de eleições municipais totalmente sem importância (caso seus esposos aprovem). O que eleições municipais podem significar em meio à constante repressão de uma monarquia absolutista?

Como assinalou o advogado especializado em Direito Internacional, Paul Wolf, em PressTV: “Na Arábia Saudita, os telefones celulares com câmeras fotográficas são ilegais. Todas as conversações telefônicas são vigiadas. O governo controla a televisão e os meios impressos. Em 2009, as eleições foram canceladas. Portanto, quero dizer que é excelente se tomam uma medida para incluir as mulheres no processo político, mas, na verdade, ninguém está incluído no processo político”.

O Império estadunidense perdeu o Irã e o Traque. E a Arábia Saudita? Suponhamos que sigam abrindo-se fissuras no próprio Reino. Duvido que, diante de tal conjuntura, ouçamos muitos discursos em Washington sobre “democracia” ou transações ordenadas. Além de qualquer outra coisa, a queda do regime saudita teria terríveis consequências para Washington, já que centenas de manda-chuvas estão na folha de pagamento saudita, começando por, virtualmente, todos os ex-embaixadores, com a exceção de James Akins, que disse uma vez a um amigo meu que era o único que não estava. Washington não permitirá de modo algum que o fluxo de dinheiro de Riad para a “Rua K” corra perigo. Envie a 101ª Divisão Aerotransportada!

Uma regra muito apreciada pelo Império britânico, que foi legada ao Império que o substituiu, é: “em caso de dúvida, divida”. Recentemente, alguns ocidentais defenderam a divisão da Arábia Saudita. Dois conhecidos neoconservadores, Richard Perle e David Frum escreveram em seu livro de 2005, “An End to Evil: How to Win the War on terror” (Um fim para o mal: Como vencer a guerra contra o terror”), que os EUA deveriam mobilizar os xiitas que vivem na Arábia Saudita oriental, onde se encontra a maior parte do petróleo saudita: “A independência da Província Oriental seria obviamente um resultado catastrófico para o Estado saudita. Mas seria um excelente resultados para os EUA. Certamente é um resultado que deve ser considerado. É mais seguro inclusive que os sauditas saibam que estamos considerando a hipótese”.

Perle já foi chefe do Conselho de Política da Defesa, que assessorava o Departamento de Defesa. Como informa Robert Dreyfus em Devil’s Game, uma informação do Conselho de Política da Defesa argumentou em 2002 que os EUA deveriam trabalhar para dividir a Arábia Saudita com o objetivo de controlar efetivamente seu petróleo. Outros neoconservadores como Michael Ledeen expressaram pontos e vista semelhantes. No início de 2003, Akins, ex-embaixador na Arábia Saudita, mencionou a possibilidade que Osama Bin Laden poderia se apoderar da Arábia Saudita caso os EUA invadissem o Iraque. “Agora estou convencido de que é exatamente o que (os neoconservadores) querem que ocorra. Aí então nós tomaremos conta da situação”.

Suponho que o modelo atual é o setor curdo do Iraque.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Counter Punch, via Carta Maior

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