Defesa & Geopolítica

Escolham: China ou EUA?

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Por Gideon Rachman

Tradução de Ana Pina

A luta pelo poder e influência entre a China e os Estados Unidos será o drama geopolítico determinante dos próximos 100 anos.

A disputa já coloca os países asiáticos perante escolhas incómodas, apanhados entre os dois gigantes globais.

O Senado americano devia ter aprovado recentemente uma lei que permite aplicar taxas alfandegárias aos produtos chineses. Embora a corrente proteccionista na América tenha abrandado ligeiramente, a atitude de confronto por parte dos EUA coloca um dilema aos países vizinhos da China, principal parceiro comercial do Japão, Índia, Austrália, Coreia do Sul e de grande parte da nações do Sudeste asiático. A questão que se coloca é que a relação militar destes com os EUA continua a ser extremamente importante. Por quanto tempo poderão os seus interesses económicos e estratégicos seguir caminhos distintos?

Por pouco tempo, se atentarmos a um recente editorial no Diário do Povo. O jornal oficial do Partido Comunista Chinês teve por alvo “certos países, que se julgam livres de fazer o que entenderem enquanto conseguirem equilibrar as relações com a China e a ajuda militar dos EUA”. É provável que o editorial seja uma reacção às declarações proferidas pelo Japão e pelas Filipinas, comprometendo-se a reforçar a cooperação naval, o que constitui um desafio implícito às reivindicações territoriais de Pequim no Mar do Sul da China.

A ironia está no facto de o tom ameaçador da China levar os seus vizinhos a fazer exactamente o contrário, isto é, a correr para os braços do “Tio Sam”. Até recentemente, Pequim geria de forma inteligente o jogo da paciência, usando a sua crescente robustez económica para atrair os países vizinhos para a sua esfera de influência. Faria mais sentido a China manter uma “política de paciência”, até porque vai ser a maior economia global em 2020. Como poder político e militar estão intimamente ligados ao poder económico, a hegemonia dos EUA no Pacífico poderá tornar-se insustentável.

Actualmente, Washington pede emprestado 40 cêntimos de cada dólar que gasta. Ora, a China é o principal comprador de dívida americana, por isso, é legítimo dizer que são os chineses quem está a financiar indirectamente o domínio militar americano no Pacífico. Estrategas americanos alertam para os planos de desenvolvimento militar chinês, incluindo uma nova geração de mísseis, que constitui uma séria ameaça às bases aéreas e aos porta-aviões que os americanos usam como pilar estratégico do seu domínio militar no Pacífico.

A interpretação menos positiva da actuação da China tem a ver com a crescente influência das forças nacionalistas e dos militares em Pequim. Uma geração mais nova está a chegar ao poder, convencida de que o seu país tem sido perseguido pelo mundo exterior devido à sua fragilidade. O actual contraste entre o desempenho económico da China e dos Estados Unidos também ajudou ao reforço da confiança e assertividade chinesas.

Existe também uma interpretação mais benigna: os interesses económicos da China não se confinam ao território nacional, sendo por isso natural – senão inevitável – que reforce o investimento militar e defenda os seus interesses de forma mais musculada. No entanto, não é provável que o governo chinês reclame para si o domínio regional de uma forma agressiva, como receiam os seus vizinhos.

Apesar das tensões, as relações diplomáticas mantêm-se. No próximo mês, Barack Obama receberá as principais potências da região, nomeadamente a China, na cimeira do Fórum de Cooperação Económica Ásia-Pacífico, que terá lugar no Havai, terra natal do Presidente americano. Obama deveria organizar uma viagem a Pearl Harbour para todos recordarem os perigos dos erros estratégicos no Pacífico.

Fonte: Econômico

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