Defesa & Geopolítica

Depois de dez anos de guerra, Ocidente precisa negociar com talibãs

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O Afeganistão foi o primeiro país na história da Otan a sofrer intervenção militar. Passados dez anos, ficou claro que é impossível vencer esta guerra com meios militares. Mas até que ponto o diálogo é realista?

Em dezembro de 2001, políticos do mundo inteiro reuniram-se em Bonn, na Alemanha, para discutir a situação do “novo” Afeganistão. Os inimigos, no entanto, não foram chamados à mesa.

Passados dez anos, porém, parece não haver outra possibilidade para resolver o conflito. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, parece desculpar-se pela necessidade de negociar com o inimigo: “eu sei que soa sórdido e inconcebível fazer as pazes com alguém tão brutal quanto os talibãs. A diplomacia seria muito mais fácil se tivéssemos que discutir apenas com nossos amigos, mas não é assim que se constrói a paz.”

O dia 20 de setembro de 2011 veio a mostrar mais uma vez a realidade afegã: Burhanuddin Rabbani, ex-presidente do Afeganistão responsável pelas negociações de paz com os talibãs, morreu vítima de um carro-bomba em Cabul. Até hoje ninguém assumiu a autoria do atentado. A paz no Afeganistão tem muitos inimigos.

O governo afegão acusa o vizinho Paquistão de envolvimento no ataque e de controlar, à distância, membros do grupo rebelde. Por esse motivo o presidente afegão Hamid Karzai anunciou querer discutir a paz diretamente com o Paquistão, e não mais com os talibãs. Para o Afeganistão, os vizinhos fazem jogo duplo.

Esperança de diálogo

Depois de dez anos de intervenção estrangeira, a situação no Afeganistão ainda é complexa. O especialista em política de segurança transatlântica do Conselho Alemão de Relações Exteriores, Henning Riecke, observa com preocupação o fato de o Ocidente precisar negociar com o inimigo em tão pouco tempo.

“É uma realidade, em tempos de guerra, que para resolver conflitos seja preciso negociar com os oponentes”. No Afeganistão, no entanto, ainda não se sabe com que partes ou com que tipo de oferta se pode alcançar uma atmosfera de negociação. “Entre nós há a ilusão de que as negociações sejam um método milagroso para encerrar o conflito. Mas eu acredito que ainda vamos viver muitos retrocessos”, alerta Riecke.

Ainda assim, a retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão é assunto encerrado. Com quase dois terços dos cerca de 130 mil soldados internacionais no Afeganistão, a endividada superpotência está cansada de guerras e precisa economizar. O presidente Barack Obama anunciou que as tropas de seu país estarão fora do Afeganistão até 2014.

Com isso, o rápido diálogo com os inimigos torna-se obrigatório e deixa os parceiros da Otan sem muito espaço para negociar.

Para Riecke, a retirada das tropas norte-americanas no Afeganistão é precipitado. “Estou convencido de que deveríamos ser mais cautelosos com a retirada das tropas. Existe um grande risco de deixarmos para trás um país em guerra civil”.

Falta consenso

Quando o Ocidente decidiu intervir no Afeganistão, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, o país já estava em guerra há duas décadas: primeiro na luta contra as tropas de ocupação da ex-União Soviética e depois no feroz combate interno pelo poder.

Thomas Ruttig, um dos diretores do think tank Afghanistan Analyst Network, acredita que “ainda existem muitas cicatrizes e traumas da guerra civil. Há uma profunda desconfiança por parte dos afegãos, sejam eles politicamente ativos ou não, em relação ao próprio vizinho.”

Assim, não existe consenso na sociedade afegã em torno da questão da negociação com os rebeldes como o melhor caminho. “Esse consenso precisa primeiro ser construído com todas as forças políticas e sociais que tenham um papel relevante no Afeganistão. Só então é possível buscar, juntos, diálogo com os talibãs”, explica Ruttig.

O ponto de partida para as negociações é delicado. A guerra continua, não há perspectiva de cessar-fogo e nenhum dos campos políticos no Afeganistão é homogêneo. Por detrás dos termos “talibã” e “rebelde” se escondem pelo menos três grandes grupos: Quetta-Shura, de Mullah Omar, o grupo de elite talibã que monitora as operações insurgentes do movimento dentro do território do Afeganistão; o núcleo da família de Jalaluddin Haqqani; e a facção armada Hezb-e-Islami de Gulbuddin Hekmatyar.

Os três grupos possuem estreitos contatos no vizinho Paquistão e têm jihadistas estrangeiros entre seus membros. Todos são marcados pela cultura pachtun. Radicados na metade sul do Afeganistão, os pachtuns formam o maior grupo étnico do país e correspondem a 40% da população. Porém, a guerra constante no Afeganistão fragmentou até mesmo os clãs e estruturas dessas sociedades. E entre eles também é incerto quem estaria disposto a dialogar.

Corrida contra o relógio

Políticos ocidentais gostam de usar o termo “talibã moderado”, quando abordados sobre o tema. Gunter Mulack, ex-embaixador alemão no Paquistão, também o utiliza: “existem os assim chamados talibãs moderados. Refiro-me àqueles que hoje moram em Cabul e que são acessíveis, como Mullah Zaeef, que esteve presente inclusive em uma conferência em Berlim. Temos que negociar com eles. Mas esses naturalmente não são ‘os’ talibãs. Chegar perto de Mullah Omar ou da rede Haqqani-Netzwerk é mais difícil. Para isso, precisaríamos do Paquistão”, diz Mulack. Mas o Paquistão é outro país instável e com muitas desavenças e conflitos internos.

Mulack acusa os Estados Unidos de terem apostado demais na força militar para dominar o “fenômeno talibã”. Por esse motivo, agora é tarde para uma resolução política. “Ainda não é tarde demais, mas já é tarde”, avalia Mulack. “Espero que consigamos incluir na reconstrução do Afeganistão aqueles que só pegaram em armas por considerarem os americanos como invasores e quererem se vingar.”

A outra metade política do Afeganistão, aliada à comunidade internacional, é igualmente fragmentada. Dela fazem parte o presidente afegão, Hamid Karzai, e seu clã, também pachtun, junto com novos grupos multiétnicos que surgiram após a intervenção ocidental. Outro componente importante são as antigas associações de combatentes dos povos do norte do Afeganistão, como os tadjiques, uzbeques e hazaras. Embora tenham lutado unidos contra os talibãs, a aliança nórdica não tem um plano comum para o futuro do Afeganistão.

Além disso, entre eles também há criminosos, radicais e opositores da nova Constituição. Cada um desses grupos tem membros e financiadores no exterior. Ao lado do Paquistão e do Irã, competem por influência ainda a Índia e a China, a Turquia, a Rússia e repúblicas centrais asiáticas. Estão em jogo recursos minerais, poder estratégico e religião. Trata-se anda de drogas, armas e redes de comércio.

É preciso reconhecer as dificuldades

Quem quiser conquistar a paz em um ambiente tão difícil precisa de muito tempo e, sobretudo, de uma grande vontade política, destaca Thomas Ruttig, do think tank Afghanistan Analyst Network. “Agora, é claro, é muito mais difícil recuperar o tempo perdido. Não há qualquer garantia de que isso vá funcionar. Mas existe, na minha opinião, uma garantia: a de que não há mais nada que se possa fazer militarmente.

O fato de que a Otan não tem como vencer essa guerra já é consenso. Mas os aliados ainda evitam reconhecer publicamente que há um longo e difícil processo político pela frente. “O que precisa ser conquistado são os corações e as mentes da população”, diz o especialista em assuntos islâmicos Peter Heine, repetindo uma frase que muitos políticos ocidentais gostam de usar.

Sobretudo, é preciso pensar nos jovens afegãos, diz Heine. “Para eles temos de passar a mensagem de que ninguém está interessado em mudar sua cultura ou identidade, nem em utilizar de quaisquer meios para levá-los a uma determinada direção ideológica, política ou cultural.”

Autora: Sandra Petersmann (br)

Revisão: Francis França

Fonte: DW-WORLD.DE

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