Defesa & Geopolítica

Após dez anos da Guerra do Afeganistão, EUA buscam saída honrosa

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Bruna Carvalho, iG São Paulo

Enquanto planejam retirada até 2014, EUA e Otan veem frustrados esforços para pacificar país invadido após ataques do 11 de Setembro.

Os números da Guerra do Afeganistão, que completa dez anos nesta sexta-feira, refletem as dificuldades para alcançar a paz e uma vitória militar e política em um país que, durante toda sua história, sofreu invasões e teve seu poder pouco centralizado controlado por forças distintas, em períodos marcados por violência.

Desde o início do conflito até o fim de setembro deste ano, morreram 2.753 soldados da Força Internacional de Assistência na Segurança (Isaf), operação que a Organização do Atlântico Norte (Otan) lidera no Afeganistão com um contingente de mais 130 mil militares de 49 países – majoritariamente dos EUA.

Entre os civis, as mortes em decorrência direta da guerra superam estimados 12 mil. Os custos totais do conflito chegam a centenas de bilhões. Apesar de a Otan e o presidente americano, Barack Obama, terem estabelecido uma retirada gradativamente até 2014, é difícil acreditar que o retorno dos soldados ocidentais a seus países de origem seja uma garantia do fim dos conflitos internos e das mortes.

“O governo dos EUA começou a perceber que essa guerra não é vencível. A proximidade das eleições nos EUA com Obama concorrendo pela segunda vez é outra razão para a retirada das tropas em uma guerra altamente impopular”, afirmou o especialista em conflitos asiáticos e islamismo Pervaiz Nazir, professor da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Após os atentados do 11 de Setembro de 2001, que deixaram quase 3 mil mortos em Nova York, Washington e Pensilvânia (veja cronologia dos ataques), o governo americano priorizou a caçada pelos membros da rede Al-Qaeda, autora dos atos terroristas.

A milícia islâmica do Taleban, que tomou o controle de boa parte do Afeganistão em 1996, isolou e empobreceu ainda mais uma nação que já enfrentava a miséria. Além disso, seus militantes ofereciam abrigo para insurgentes da Al-Qaeda, incluindo seu líder, Osama Bin Laden, e por conta disso receberam um ultimato do então presidente americano George W. Bush (2001-2009). Ou entregavam Bin Laden ou as forças do seu país iniciariam uma guerra para encontrá-lo.

Diante da negativa do Taleban, uma coalizão internacional liderada pelos EUA uniu-se a um grupo rebelde que vivia à margem do país na era Taleban, a Aliança do Norte (organização político-militar das etnias afegãs), e iniciou os ataques contra o Afeganistão 26 dias depois do 11 de Setembro, em 7 de outubro de 2001.

A ofensiva militar, batizada de Operação da Liberdade Duradoura, agiu por terra e por ar e teve resultados rápidos. Em novembro, a capital afegã, Cabul, foi tomada e, em dezembro, o grupo insurgente islâmico foi obrigado a deixar seu reduto na Província de Kandahar, no sul, e buscar refúgio em Tora Bora, nas montanhas localizadas ao longo da fronteira com o Paquistão.

Na Conferência de Bonn, em dezembro de 2001, líderes afegãos exilados ou pertencentes à Aliança do Norte se reuniram na cidade alemã para decidir qual seria o futuro político do país. Nesse encontro, ficou acertado que Hamid Karzai, monarquista da etnia pashtun, assumiria a presidência do governo interino com o propósito de conduzir uma transição até as eleições democráticas marcadas para 2004 – nas quais ele sairia vencedor. A ONU criou na mesma ocasião a Isaf, operação especial para o país asiático.

Retomada da insurgência em meio à Guerra do Iraque

Apesar da aparente derrota em 2001, o Taleban continuou seus movimentos de guerrilha a partir de uma base na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão. Enquanto os EUA concentravam seus esforços militares na invasão e ocupação do Iraque, em 2003, o Taleban se reorganizou e ampliou sua influência na parte sul, seu reduto original.

Também em 2003, a Otan assumiu a liderança da Isaf, encerrando a rotação de seis em seis meses entre países. Inicialmente, o controle da Isaf estava limitado a Cabul, mas em outubro daquele ano, com o aumento da insurgência, a ONU achou por bem estendê-lo. As tropas das nações da Otan, então, passaram a se organizar na complexa teia étnica e geográfica do Afeganistão, cujas forças tribais historicamente prevaleceram sobre as tentativas de centralizar o governo.

“O Afeganistão é um país geograficamente desafiador para governar, e suas múltiplas identidades regionais também são profundamente desconfiadas e resistentes a uma centralização e à transferência de autoridade para Cabul. Tropas militares estrangeiras encontraram muita desconfiança”, disse ao iG o americano Kirk Buckman, professor de relações internacionais da Universidade de New Hampshire, nos EUA.

Além da antipatia que sua presença no país causava, os soldados estrangeiros tinham de lidar com uma

vasta área – o país tem 647,5 mil km², cinco vezes a área da Inglaterra – e com recursos humanos limitados. Por conta disso, os militares, apesar de terem mantido sob seu comando os centros urbanos e as estradas, perderam campo para o Taleban ao longo do conflito.

“Além de questionar a legitimidade das iniciativas estrangeiras, o Taleban destrói muitos projetos públicos e desestabiliza o processo de paz por meio de ações militares, guerrilha e ataques suicidas”, afirmou Buckman.

Além da atenção desviada dos EUA para o conflito sangrento no Iraque, o Taleban contou para sua reorganização com uma base forte nas áreas tribais do vizinho Paquistão, país fundamental na sua conquista do poder nos anos 1990.

“Como não é fácil de controlar, sempre houve instabilidade na fronteira do Afeganistão e do Paquistão. Uma inconstância no Paquistão causa preocupação mundial, porque o país tem armas nucleares, o que desestabiliza todo o sul da Ásia”, disse Philip Towle, coautor do livro “Temptations of Power: The United States in Global Politics after 9/11” (“Tentações do Poder: Os Estados Unidos na Política Global pós-11/9”, em tradução livre). Por conta dessa retomada Taleban, o Afeganistão voltou a figurar na pauta mundial como um grave problema para o Ocidente.

Fonte: Último Segundo

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