Defesa & Geopolítica

Países buscam alternativa ao monopólio chinês de terras raras

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http://quiprona.files.wordpress.com/2011/06/terras-raras.jpgCientistas japoneses sugerem prospecção do fundo do mar; Brasil tem situação “interessante”

Por Carlos Orsi

Alegando preocupações com o meio ambiente, o governo chinês determinou o fechamento temporário da maior parte de sua indústria de terras raras, denominação que engloba um grupo de 17 elementos químicos essenciais para aplicações de alta tecnologia, como componentes de computadores, turbinas de geração de energia eólica e lâmpadas fluorescentes compactas.

Embora as terras raras existam em diversas partes do globo, as maiores reservas mundiais estimadas, de acordo com Mineral Commodity Summary 2011 do US Geological Survey (USGS), publicado em janeiro deste ano, encontram-se na China (55 milhões de toneladas) e em países da ex-União Soviética (19 milhões de toneladas), seguidos por Estados Unidos (13 milhões) e Austrália (1,6 milhão). Atualmente, a China controla de 95% a 97% da produção mundial.

O Brasil aparece como fonte significativa, mas com reservas de apenas 48 mil toneladas.

Mas a situação desses minerais no Brasil é “interessante”, como escreveu o pesquisador chinês Chen Zhanheng, da Sociedade Chinesa de Terras Raras, em artigo sobre o futuro da indústria mundial do setor, publicado também em janeiro de 2011, no periódico especializado Journal of Rare Earths.

Isso porque um trabalho da própria USGS, publicado em novembro do ano passado sob o título The Principal Rare Earth Elements Deposits of the United States—A Summary of Domestic Deposits and a Global Perspective aponta o Brasil como possível detentor de uma das maiores reservas de terras raras do planeta, com mais de 52 milhões de toneladas. Mas essa riqueza toda aparece sob a rubrica “Unclassified Resources” que, os autores explicam, refere-se a “um saco sortido de recursos conhecidos que provavelmente não serão explorados”, seja por questões ambientais ou falta de viabildade econômica.

A USGS tradicionalmente distingue “reservas” – concentrações de um mineral aptas a exploração comercial – e “depósitos”, onde o material está presente, mas de onde a extração pode não ser viável. Nesse critério, o que a documentação produzida pela USGS parece indicar é que o Brasil conta com volumosos “depósitos” que, por algum motivo, não se consolidam em “reservas”.

Outros países citados como possuidores de bom potencial para explorar terras raras são Canadá, Índia, Malawi e Dinamarca (mais especificamente, o território dinamarquês da Groenlândia).

Aperto chinês

O governo da China já vinha exercendo há tempos um rígido controle sobre suas exportações de terras raras. De acordo com o jornal The New York Times, nos últimos anos as manobras chinesas já causaram elevações de preço que chegaram, em alguns casos, a 40 vezes.

A agência de notícias financeiras Bloomberg registrou que, em apenas duas semanas do mês de junho deste ano, o preço do óxido de disprósio, usado na produção de lasers e magnetos, saltou de US$ 740 para US$ 1.470 o quilo.

Nota da General Electric, empresa que usa terras raras na produção de lâmpadas, diz que “se a taxa de inflação do óxido de európio nos últimos 12 meses fosse aplicada a um cafezinho de US$ 2,00, o novo preço seria US$ 24,55”.

Em 15 de setembro, o New York Times noticiou que a maior parte da produção chinesa encontrava-se parada desde o início de agosto, devendo permanecer assim até outubro.

As autoridades chinesas mencionam preocupação com “poluição do ar, poluição da água e resíduos radioativos da indústria de terras raras”, principalmente por causa de pequenas empresas que operam no setor sem obter as licenças necessárias. Embora as terras raras não sejam radioativas, elas são encontradas em minérios que contêm o elemento radioativo tório.

Pequim está criando um grande monopólio estatal, a Bao Gang Terra Rara, para consolidar toda a produção no norte do país, região responsável por mais de 60% desses elementos extraídos na China.

No sul, onde ocorre o restante da produção, a atividade será consolidada nas mãos de três estatais que, ao longo dos próximos dois anos, deverão responder por 80% da extração na área. Essas empresas são antigos ministérios do governo chinês, convertidos em corporações.

Os fortes controles impostos pelo governo da China às exportações de terras raras têm induzido empresas que dependem desses materiais a abrir instalações em solo chinês, onde o acesso ao insumo sofre menos embaraços por parte das autoridades.

Essa estratégia de controle e de restrição às exportações deve ser contestada na Organização Mundial do Comércio (OMC) por Estados Unidos e União Europeia, diz o NY Times, ressalvando que a consolidação do setor num monopólio estatal poderá dificultar o andamento do processo.

Resto do mundo

O domínio chinês e a alta de preços têm levado a um interesse pela extração de terras raras em outras partes do mundo. Estados Unidos e Austrália têm projetos em andamento para explorar suas reservas, mas estima-se que não estarão em condições de superar a capacidade de produção da China antes de 2013, de acordo com nota da Bloomberg.

A busca por fontes alternativas está levando a prospecção de terras raras até mesmo para o fundo do mar. Em julho, a revista Nature Geoscience publicou artigo de pesquisadores japoneses sugerindo que o leito do Oceano Pacífico é rico nesses minerais: os pesquisadores afirmam que “uma área de apenas um quilômetro quadrado (…) poderia suprir até um quinto do consumo mundial atual desses elementos”.

Os autores dizem que a extração de terras raras da lama submarina é um processo simples, e concluem com a sugestão de que “a lama do fundo do mar constitui uma fonte enorme e altamente promissora para esses elementos”.

Brasil

No Brasil, o relatório de novembro de 2010 da USGS, com os números sobre o potencial do país no setor, provocou alguma movimentação, como indicou artigo do diretor de Inovação do IPT, Fernando Landgraf, publicado em abril deste ano no jornal Valor Econômico.

Em maio, a Inovação Unicamp noticiou que a Fundação Certi, de Santa Catarina, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), de São Paulo, e Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), do Rio de Janeiro estavam se articulando para dar apoio à iniciativa privada, caso o empresariado nacional optasse por explorar esses recursos. E em julho, a Agência Estado divulgou a notícia de que a Vale Rio Rio Doce realizava um estudo, com prazo de conclusão de seis meses, sobre a viabilidade de produção de metais de terras raras no Brasil.

Além disso, a estatal CPRM, ou Serviço Geológico do Brasil, tem um programa de pesquisa de áreas potenciais para a mineração de terras raras. O projeto conta com um investimento de R$ 18,5 milhões e prazo de três anos. Em 2011, estão sendo aplicados R$ 2,3 milhões.

Fonte: Unicamp

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