Defesa & Geopolítica

Brasil deve investir mais para entender Oriente Médio, diz marroquino

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O Marrocos apoia a candidatura brasileira ao Conselho de Segurança, uma “ambição legítima”. O Brasil, no entanto, deve continuar a investir mais para “entender claramente o que é Irã, o que é muçulmano, o que é árabe, o que é Mediterrâneo”, disse o ministro das Relações Exteriores do Marrocos, Taib Fassi Fihri.

Ministro das Relações Exteriores do Marrocos, Taib Fassi Fihri

Em entrevista a jornalistas brasileiros, ele também falou do que vê como risco de aumento do terrorismo no norte da África e da oposição líbia, apoiada por seu país. “Temos que fazer essa diferenciação entre jihadistas, que promovem o caos e o terrorismo, e outros que dizem que são a favor de levar em conta alguns valores do islã”, disse. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

O sr. falou do aumento do fluxo de armas no norte da África e seu uso por terroristas. É por causa da guerra na Líbia?
Não necessariamente, mas por causa da Al Qaeda no Magreb, que atua no sul da Argélia, na Mauritânia, no Níger, no Mali. Antes da crise, o Marrocos já advertia para o aumento de suas atividades. Eles começaram atividades ilegais no Atlântico, no leste, no sul.
Falamos da possibilidade de junção da Al Qaeda no Magreb com grupos da Somália e da Nigéria. Se acontecer, será a implosão da África.

O risco do terrorismo era usado como argumento contra reformas democráticas. Agora há pessoas na oposição líbia, antes ligadas à Al Qaeda, que haviam sido presas pelos EUA e torturadas. Como vê essa situação?
Não é porque um governo combate o terrorismo que podemos aceitar o que aconteceu em alguns países. Depois do que houve na Tunísia, no Egito, na Líbia, e está acontecendo na Síria, vemos que o que aceitávamos antes –estabilidade em troca da luta contra o inimigo comum– não é mais aceitável.
Ouvi do Conselho Nacional de Transição líbio que eles estão comprometidos com a democracia, com o pluralismo. Temos que fazer essa diferenciação entre jihadistas, que promovem o caos e o terrorismo, e outros que dizem que são a favor de levar em conta alguns valores do islã.

Ao promover uma conferência sobre reformas constitucionais no mundo árabe, o Marrocos quer se apresentar como modelo?
Acreditamos que cada país tem suas especificidades. A Constituição é a principal questão aqui no evento porque alguns países tentam construir as novas regras do jogo, depois de uma revolução ou de uma evolução. E acreditamos que temos que compartilhar a experiência marroquina, que é interessante.

Há uma competição com a Turquia, que é apontada como modelo de junção do islã com democracia?
Não estamos em competição. Não esqueça o que aconteceu com a Turquia nas últimas décadas, em termos de ditadura militar. Felizmente agora eles progrediram em crescimento e também em direitos humanos, porque estão pedindo o ingresso na União Europeia.
Queremos apenas ouvir outros e ver o que é possível fazer aqui. Tunísia, Egito e Líbia estão em processo constituinte. Há alguma experiência no Marrocos e podemos ajudar, em termos de Justiça, representação. Podemos ser não uma fonte de inspiração, mas de referência.

Críticos dizem que nova Carta marroquina não é suficientemente democrática, que mantém o poder de veto do rei.
O certo é que todos os cidadãos marroquinos dizem que a nova Constituição é um grande passo, que foi aplaudido pela comunidade internacional. As ruas e os partidos políticos foram ouvidos. A Constituição é um passo em termos de separação de Poderes, de independência da Justiça, de ação contra a corrupção, de transparência. O novo Parlamento, a ser eleito em 25 de novembro, terá mais competências.

O Brasil tem um papel político a desempenhar no Oriente Médio?
Seguimos com interesse e simpatia o que aconteceu no seu país, em termos de progresso. Em termos de uma melhor contribuição para as crises internacionais, eu disse ao chanceler Antonio Patriota quando ele esteve no Marrocos, e disse antes ao Celso Amorim, que apoiamos a candidatura do Brasil a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança.
É justo, levando em conta o papel do Brasil e também porque precisamos de mais gente do Sul administrando a lei internacional. Bilateralmente, temos muito a fazer. Temos tratados de livre comércio e associação comercial com EUA, Turquia, União Europeia, Tunísia, Jordânia e Egito. Queremos o mesmo com o Brasil. Estamos negociando com o Mercosul para o primeiro passo, que é o acordo de preferências tarifárias.
O Brasil, com sua nova ambição legítima, tem que investir mais, e vocês já começaram, para entender claramente o que é Irã, o que é muçulmano, o que é árabe, o que é Mediterrâneo. E para estar presente na África. Sei que abriram muitas embaixadas aqui e no Oriente Médio, o que é bom. Vocês são defensores da lei e dos princípios internacionais. A implementação dessa lei não é todo o tempo em preto e branco. Eu segui sua decisão de se abster na resolução sobre a Líbia [autorizando a intervenção militar], entendi e respeito. Mas agora estamos esperando uma nova resolução do Conselho de Segurança, para definir a missão da ONU na Líbia.

Fonte: Folha

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