Defesa & Geopolítica

Telegramas diplomáticos inéditos revelam tensão entre Brasil e EUA

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Exercício militar próximo à Amazônia irritou o governo

O Brasil advertiu os Estados Unidos sobre o risco de exercícios militares realizados em países limítrofes da Amazônia, revelam os documentos do Itamaraty agora liberados ao público.Em setembro de 1993, o embaixador brasileiro em Washington, Sérgio Amaral, aproveitou um briefing feito pelo Departamento de Estados dos EUA “a um número selecionado de embaixadores” para dar o recado.

O Brasil estava particularmente contrariado com recentes exercícios realizados pelos EUA na Guiana, numa região localizada a cerca de 470 km da fronteira da capital de Roraima, Boa Vista.

Amaral levou a situação ao secretário de Estado assistente, Thomas McNamara: “O aumento da presença [dos EUA] e de exercícios militares em áreas sem nenhum perigo visível pode dar um sinal equivocado. Em vez de gerar tranquilidade, cria a percepção de riscos que requerem aumento dos efetivos e dos recursos militares nos países da região [América Latina].”

Embora não tenha citado a Amazônia, o recado do embaixador foi explícito. Meses antes, o Brasil havia trocado mensagens e telefonemas com autoridades dos EUA sobre exercícios na Guiana.

O Estado-Maior das Forças Armadas brasileiras acompanhou o assunto. Relatório do CIE (área de inteligência do Exército), retransmitido pelo Itamaraty em caráter confidencial, descreveu o treinamento de Forças Especiais dos EUA por mais de um mês, entre abril e maio de 1993.

Os norte-americanos empregaram mais de 180 homens, helicópteros e barcos.

O CIE se preocupava ainda com exercícios realizados na região, meses antes, pela França. “[…] Os exercícios foram executados de maneira que não houvesse conhecimento nem repercussão.”


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Questionário para obter visto é ‘humilhante’, relatou Amorim

O tratamento dado a turistas brasileiros pelos EUA nos consulados e na imigração foi tido como “inadequado” e “degradante” pelo Brasil.Despacho do gabinete do então chanceler Celso Amorim, hoje ministro da Defesa, definiu como “inadequado” o tratamento e “motivo de humilhação” os questionários para obtenção de visto.

Transmitido à embaixada em Washington em outubro de 1994, o documento relata um encontro em Brasília com o embaixador norte-americano Melvin Levitsky que, na ocasião, admitiu que problemas aconteciam porque os EUA desconfiavam do Brasil -segundo ele, país com grande número de portadores de documentos falsos, só atrás de México e El Salvador.

O argumento não convenceu o ministro brasileiro que, segundo o telegrama, reagiu: “mesmo em casos especiais, como os de autoridades e funcionários do governo em viagens a serviço, era muito difícil contar com a boa vontade do serviço consular”.

Em 2000, foi chamado de “degradante” o tratamento dado ao diplomata brasileiro, algemado e detido em cela após dizer, em tom jocoso, que o embrulho que levava era uma bomba. Há relatos de brasileiros, com vistos, que foram barrados e presos.

Em 1993, o consulado brasileiro em Miami protestou contra perguntas “ridículas” do formulário e sugeriu usar a reciprocidade diplomática.

Americanos violaram malas de diplomatas brasileiros

Os telegramas sigilosos do Itamaraty obtidos pela Folha narram frequentes ataques das autoridades alfandegárias norte-americanas à incolumidade das malas diplomáticas do Consulado do Brasil em Miami (EUA) e da Embaixada brasileira em Havana.Esse tipo de bagagem tem livre passagem pelas alfândegas dos aeroportos no trânsito entre países com acordos de reciprocidade. As malas podem conter documentos sigilosos que, se revelados, poderiam gerar incidentes diplomáticos internacionais.

Entre 1992 e 1993, lacres metálicos foram rompidos e as autoridades alfandegárias norte-americanas em Miami tentaram submeter as malas diplomáticas brasileiras a análises de raio-x, incluindo uma remessa proveniente da embaixada em Havana.

As primeiras violações foram verificadas em 1992. Em 16 de julho, a mala recebida pelo consulado em Miami “teve o arame de fechamento rompido próximo ao lacre, e seu lacre interno também está aberto”, segundo telegrama expedido pelo Itamaraty.

Em novembro, o consulado informou que o secretário Fernando Vidal, do correio diplomático de Havana, “foi retido por funcionário da alfândega norte-americana para averiguações” sobre a bagagem que trazia de Cuba em avião de carreira.

A alfândega “levantou suspeitas sobre o caráter da missão, as características da mala e seu conteúdo, e ordenou que a mesma fosse objeto de revista em raio-x”. Vidal ameaçou chamar o consulado, o que fez os americanos desistirem da ideia.

PEDIDO DE APURAÇÃO

Em 1992, o Brasil exigiu que as violações fossem apuradas pelos EUA. Em outubro, o Departamento de Estado informou ter solicitado uma “minuciosa investigação”.

Não houve resposta por mais de oito meses. Em julho de 1993, o Itamaraty pediu que a embaixada verificasse se as investigações “acerca dos casos de violação das malas diplomáticas já teriam sido concluídas”.

A Embaixada brasileira em Washington cobrou os americanos, mas, novamente, não houve resposta.

O ex-chanceler Celso Lafer disse à Folha que, passados quase 20 anos dos incidentes, não se recordava dos problemas em Miami.

Além das violações e de extravios rotineiros, a remessa de malas também foi ameaçada por falta de recursos para quitar dívidas com companhias aéreas responsáveis pelo transporte dos documentos, quadro relatado em dois telegramas enviados pelo consulado em Miami.

Em resposta aos apelos, o Itamaraty informou que, mesmo sem aprovação orçamentária, conseguiu antecipar US$ 5 mil para atender “os compromissos financeiros com o processamento de malas diplomáticas”.

Fonte: Folha de S.Paulo

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