Defesa & Geopolítica

Após 11/9, mundo revive choque medieval de cristãos e muçulmanos

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Eduardo Graça

Direto de Nova York

Vencedor do prêmio Pulitzer por duas vezes, por conta dos dois tomos da magistral biografia de uma das figura mais importantes da luta pelos direitos civis dos negros dos EUA, o sóciologo W. E. B. Du Bois, primeiro afro-americano dutorando em Harvard, o professor da Universidade de Nova York (NYU) David Levering Lewis é um dos principais especialistas na história da formação do mundo islâmico na academia norte-americana. Seu livro ‘Islã e a Formação da Europa – 570 a 1215’ (Editora Manole) é considerada obra fundamental para se entender o atual choque entre os mundos cristão e muçulmano.

No livro, lançado em 2008, Lewis joga por terra a ideia de que a identidade europeia se deu unicamente pela confluência judaico-cristã, com os muçulmanos apresentados como neo-bárbaros, assassinos de heróis ocidentais. O período medieval da “convivência” ibérica (em que judeus, cristãos e muçulmanos tentaram se acomodar culturalmente) é especialmente interessante para se estabelecer paralelos históricos com uma possível – e fundamental – comunhão entre as três linhas de pensamento religioso no século XXI. Em entrevista exclusiva ao Terra em seu apartamento na parte setentrional de Manhattan, Lewis fala sobre os múltiplos significados dos atentados do 11 de setembro, que completam 10 anos mês que vem, a ignorância americana, o fundamentalismo islâmico e o papel emergente do Brasil no novo tabuleiro político mundial.

Terra – Qual foi sua experiência estando no Marrocos, um país de maioria islâmica, quando do ataque ao World Trade Center, em 2001?
David Levering Lewis – O choque dos marroquinos, da população, foi genuíno. Estávamos na kasbah quando a notícia nos chegou. Fomos levados para uma casa ocupada por um casal da embaixada americana e passamos a ver tudo pela BBC. Eu e minha mulher voltamos para nosso hotel à pé e quando deixávamos a embaixada um local nos abordou e disse: “Senhores, queria que soubessem o quão tristes estamos com o que aconteceu. E nós, marroquinos, fomos os primeiros a reconhecer formalmente os EUA como nação independente”. Eu, historiador, não sabia disso. Fiquei impressionado, claro. A reação comum era a mesma: incredulidade e simpatia. Mas, no momento em que deixamos Fez, uma semana depois, já sob o impacto da resposta do governo Bush, começamos a ouvir a narrativa de que os americanos não deveriam se surpreender com os ataques.

Terra – Era como se os EUA estivessem pagando a conta de sua posição pró-Israel nas últimas décadas…
Lewis – Exatamente. E a resposta ao 11 de setembro não era esperada pelas populações daquela parte do mundo, a invasão do Afeganistão e, especialmente, do Iraque. Mas boa parte dos americanos também não conseguiu acreditar no que aconteceu. O chefe da inteligência dos EUA, Richard Clarke, diz que ficou atônito quando, no dia 12 de setembro de 2001, Bush pediu a ele para encontrar alguam ligação entre o ataque e Saddam Hussein. Foi uma reação bizarra de Washington, que jamais poderia ser prevista. Hoje, claro, entendemos melhor a mentalidade de Bush Júnior e das pessoas que o cercavam. Eles estavam esperando uma oportunidade para agir. Conseguiram no 11 de setembro.

Terra – Mas o senhor não é um adepto das teorias de conspiração que circundam o 11 de setembro, não é?
Lewis – Não. Mas acho estranho ninguém se perguntar porque não conseguimos encontrar Osama Bin Laden até este ano. Claro, era uma tarefa difícil. Mas sempre acreditei que mantê-lo vivo e escondido fosse fundamental para a justificativa da ocupação do Afeganistão.

Terra – Por outro lado, boa parte da direita americana diz que a primavera árabe não teria ocorrido sem a ocupação americana do Iraque e a política de disseminação da democracia no mundo islâmico…
Lewis – Que fique bem claro, de uma vez por todas: uma coisa não tem nada a ver com outra. Sim, há alguma relação de causa e efeito aqui, mas vem do fato de que desestabilizamos aquela região de tal maneira, que abriu-se a janela para que protestos contra autocracias outras acontecessem. Mas foi só isso.

Terra – Na introdução de seu livro, o senhor escreveu que o império supremo do século XX, os EUA, estava destinado a uma colisão com o Islã similar ao que o império britânico enfrentou no fim do século XIX. O senhor poderia elaborar mais esta coincidência histórica?
Lewis – Quando terminei minha biografia de W. E. B. Du Bois, tive a oportunidade de escrever um outro livro sobre o tema dos direitos civis dos negros nos EUA. Decidi escrever algo sobre o que considerava ser o tópico mais importante para um historiador americano naquele momento: uma narrativa sobre a relação entre o Islã e o mundo cristão. Mas enfrentei muita resistência, com editores dizendo coisas como: “mas como assim, um livro com todos estes nomes árabes, difíceis de pronunciar?” (risos). Diziam: “porque vamos voltar para os tempos de Rolando e Córdoba” Leve seu livro para a América Profunda, para Ohio!”. Logo percebi que precisava escrever um prefácio em que explicava a inevitabilidade de ‘O Islã e a Formação da Europa’. E vivi no Sudão em 1982, em meio a uma pesquisa sobre os fundamentalistas que conseguiram deter o avanço britânico na África Oriental por uma década depois de 1885. Aquela resistência militar organizada foi uma grande surpresa para os ingleses. Foi uma tentativa de se criar Medina no Norte do Sudão!

Terra – E hoje o império americano encontra uma força resistente com ideologia similar no mundo islâmico…
Lewis – Sim, embora a população americana, mesmo depois do 11 de setembro siga negando o fato de viver sob um regime imperial. Mas entramos em colisão com o Islã, em todo o planeta, de modo chocante. Há algo curioso: vivi em Jersey City, do outro lado do rio Hudson, na esquina da mesquita comandada pelo xeque egípico Omar Abdul Rahman (o “xeque cego”), que engendrou o primeiro ataque às torres, em 1993. Há décadas estes fundamentalistas se opõem de forma radical à política externa do império americano.

Terra – Mas o quão semelhante estes fundamentalistas do século XXI são dos do século XIX?
Lewis – Em seu núcleo, é o mesmo movimento. Não é mero acaso o homem que derrubou o secularismo no Sudão nos anos 80 seja um descendente direto dos fundamentalistas do século XIX, interessado em impor a sharia. A ideia do “povo do norte” no Sudão é a de reconstuir o califado muçulmano. E a Al-Qaeda não seria o que é sem o período passado por Osama Bin Laden no Sudão, abrigado pelos fundamentalistas contemporâneos. Mas é preciso pensar na variedade, no caráter heterogêneo da manifestação islâmica. É preciso pensar caso a caso.

Terra – Se um muçulmano do século XI tivesse a oportunidade de vir ao nosso tempo, escutar um pronunciamento de Bush, ver um vídeo da Al-Qaeda, o que pensaria do cenário político global?
Lewis – Um dos questionamentos que certamente passariam pela cabeça desta pessoa seria o fato de o mundo ter virado de pernas para o ar, historicamente fazendo pouco sentido para o que se via no século XI, quando nós, muçulmanos, fatímidas, abássidas, estávamos vencendo. O mundo seria nosso. Ciência, tecnologia, comércio, a economia global. Como as coisas estão tão reversas? Mas, há, também, um paralelo possível. Em 1085 Toledo caiu em mãos cristãs e aquele foi o começo do fim da “Convivência”, a experiência breve em que os muçulmanos e cristãos viveram em relativa harmonia. Aquele foi o início de um confronto de civilizações. Estamos vivendo algo mais ou menos semelhante agora.

Terra – O senhor acredita que o 11 de setembro, assim como Toledo, seja um marco histórico no sentido de representar o limite da expansão da atual encarnação do fundamentalismo islâmico no mundo ocidental?
Lewis – É, inegavelmente, um dos grandes momentos históricos planetários. Mas, como historiador, não devo fazer profecias. Não estou certo se podemos dizer com certeza algo a não ser o fato de que a resposta dos EUA ao que aconteceu naquele dia fatídico foi um grande erro. Nos enterrou ainda mais no choque com o mundo islâmico. Antes do 11 de setembro muita gente, como historiador Paul Kennedy, anunciou o fim breve da supremacia americana. Mas ninguém acreditou que aconteceria tão rapidamente. Porque sentimos isso. Acabou o mundo unipolar, iniciado com o fim da União Soviética em 1989. Não estávamos preparado para lutar três guerras ao mesmo tempo, mas não fomos derrotados. No entanto, a derrocada econômica a partir do 11 de setembro gerou o momento histórico dos chamados BRICs, Brasil, Rússia, Índia e China, e com Turquia também surgindo, cada um a seu modo, e com ênfase no aspecto econômico, desafiando a hegemonia americana.

Terra – O senhor inclui o Brasil entre os possíveis novos líderes globais…
Lewis – O Brasil é o grande fenômeno do hemisfério ocidental, que parece oferecer ao mundo algo extremamente original, uma resposta nova aos desafios da questão ecológica, com o etanol e as novas maneiras de lidar com a Amazônia. É uma competição saudável aos EUA, que, apesar de seguir como a maior economia do planeta, vem acumulando problemas cada vez mais sérios neste flanco. Nossa decadência está sendo acelerada por uma prática geo-política equivocada, especialmente no Oriente Médio. Hoje não é mais uma presunção de um certo Osama a ideia de que Washington está por trás das políticas anti-islâmicas coordenadas por Israel. Se em setembro os EUA vetarem o reconhecimento pela ONU do estado palestino, por conta do regime de Sharon-Netanyahu, a percepção será a pior possível naquela região e em boa parte do mundo.

Terra – A convivência que existiu, ainda que breve, na Península Ibérica, entre cristãos, muçulmanos e judeus, poderia se repetir nos dias de hoje?
Lewis – Judeus e muçulmanos são sobreviventes. E há uma ponte cultural clara, histórica, entre as duas religiões. Mais relevante, se você é um israelense e prestar atenção ao crescimento populacional daquela região, não há outra alternativa. A tática de destruir as tentativas do Irã de construir uma bomba nuclear na expectativa de que o conflito será retardado é falível. Lutar, perder, e migrar para os EUA, de novo, não quero profetizar, é outra possibilidade, remota hoje. Mas os israelenses se beneficiariam de um acordo, com ajuda dos EUA, da Comunidade Européia e da Arábia Saudita, em que uma nova convivência fosse estabelecida no Oriente Médio. Mas há uma resistência enorme dos fundamentalistas dos dois lados. Netanyahu é hoje um prisioneiro dos fundamentalistas judeus. O mesmo acontece do outro lado da fronteira.

Fonte: Terra

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