Defesa & Geopolítica

A última bola fora de Jobim

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http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/images/HumbertoJobim.jpgApós declarações polêmicas na festa de FHC e revelação do voto em José Serra, ministro é demitido por Dilma ao criticar publicamente as colegas Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann. Celso Amorim é o novo titular da pasta

Por Denise Rothenburg e Igor Silveira

Depois de uma série de declarações constrangedoras para a presidente Dilma Rousseff e o governo, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, foi finalmente demitido. A decisão de afastá-lo foi tomada ainda na noite de quarta-feira, depois que Dilma foi alertada pela ministra da Secretaria de Comunicação, Helena Chagas, das afirmações do ministro à revista Piauí. “De novo?! Não é possível. Estive com ele de manhã e não me disse nada disso”, comentou Dilma, indignada. Ontem, por volta do meio-dia, a presidente fez a primeira ligação para Jobim, que estava em Tabatinga (AM). Na conversa, que durou menos de três minutos, foi direta: “Ou você pede para sair ou eu saio com você”.
A presidente estava tão chateada que Jobim não tentou se explicar, como das outras vezes em que se viu enrascado por afirmações polêmicas. Antes de voltar a Brasília, cumpriu agenda em Tabatinga, de forma lacônica, certo de que, em algumas horas, seria ex-ministro. Quando estava dentro do avião, preparando-se para continuar a viagem até Letícia, na Colômbia, houve outro telefonema de Dilma, às 14h50, com uma ordem expressa para que retornasse ao Distrito Federal. Entre uma ligação e outra, Dilma havia fechado com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva o nome do sucessor, o ex-chanceler Celso Amorim (leia detalhes na página 3).
Um dos aviões a serviço da comitiva brasileira voltou de Tabatinga com Jobim e três assessores diretos. No voo, ele revisou a carta de demissão — um texto seco, pedindo o afastamento de forma “irretratável” — e fez uma lista de pessoas a quem deveria avisar em primeira mão: a mulher, Adrienne, os filhos, alguns ministros, parlamentares e amigos. Sereno, não fez comentários a respeito dos episódios.
Na revista Piauí que chega às bancas hoje, a repórter Consuelo Dieguez traça um perfil do então ministro da Defesa, entremeado com declarações a respeito de outras áreas do governo — críticas diretas dele às ministras de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, a quem Jobim chama de “fraquinha”, e à da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, tratada como uma pessoa que não conhece Brasília. As declarações soaram para Dilma como se Jobim estivesse falado mal do coração do governo.
Ideli e Gleisi foram avisadas pela própria presidente, na noite de quarta-feira, da entrevista. E elas não gostaram do que ouviram. Juntas, concluíram que ele havia passado dos limites. Ontem pela manhã, nova reunião no Planalto, dessa vez já com o nome de Amorim colocado sobre a mesa. Ao fim do encontro, quando Ideli voltou a sua sala, recebeu um telefonema de Jobim, tentando se explicar, mas ela não quis conversa. Até os militares, que ainda o apoiavam, ficaram estarrecidos com o fato de o chefe da Defesa comentar abertamente sobre outras áreas do governo. Pareceu insubordinação, algo que generais, brigadeiros e almirantes não toleram.
Dilma estava com Jobim engasgado na garganta desde o início de julho, quando o ministro, ao participar da solenidade em homenagem aos 80 anos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, soltou uma série de declarações constrangedoras para o governo. Disse que FHC era um “estadista” e não “levantava a voz para seus subordinados”. E, citando Nelson Rodrigues, afirmou que, no passado “os idiotas ficavam quietos e, agora, perderam a modéstia”. Naquele período, Dilma chamou o ministro para uma conversa. “Querem nos intrigar”, comentou Dilma com Jobim na ocasião.
Na semana passada, um novo episódio tirou Dilma do sério. Jobim, numa entrevista ao site UOL, comentou ter votado em José Serra para presidente da República, e não na chapa composta por Dilma e Michel Temer, então presidente do PMDB — mesmo partido de Jobim. Ali, o ministro perdeu o apoio da própria sigla, que ontem lavou as mãos. E Dilma começou a procurar um substituto.
A presidente pensou primeiro em colocar Temer no cargo, mas o PT considerou que seria dar muito poder aos peemedebistas mais orgânicos. O vice-presidente também resistiu à sugestão, porque perderia o status de “igual para igual” que tem hoje com Dilma. Passaria a ser um subordinado, e não o substituto.
Nestes primeiros sete meses de governo, Jobim é o terceiro ministro a cair, depois de Antonio Palocci (Casa Civil) e Alfredo Nascimento (Transportes). Isso sem contar a troca de pastas entre Ideli Salvatti e Luiz Sérgio, atual ministro da Pesca. Nesse grupo, foi o único a perder o cargo porque falou mais do que devia. Não foi à toa que seu ex-assessor José Genoino comentava ontem, no voo de Letícia para Tabatinga, que “a palavra é criação do diabo”. O repórter viajou a convite do governo brasileiro.

Sucessor

A escolha de Amorim é vista com ressalvas e encontra críticas na caserna. Na avaliação dos militares, o novo ministro deverá rever alguns de seus entendimentos, como a visão estratégica de aproximação à França, por exemplo. Sobretudo no Exército, muitos generais se espelham nas experiências dos Estados Unidos e da Inglaterra, e não tanto nos franceses. Mas lembram que Amorim foi um dos formuladores da política de aumento da capacidade militar do Brasil, que leva em conta a possibilidade de o Brasil ser a quinta maior economia do mundo, ter enormes reservas de petróleo com a camada pré-sal e o aumento da potência agrícola. Partiu dele, antes mesmo de Jobim assumir o Ministério da Defesa, a proposta de reaparelhar as três Forças, dando sequência à compra dos caças pela Força Aérea e à construção do submarino nuclear.
Os militares consideram que a política externa do Brasil, ao se orientar na busca por uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), passou a dar mais destaque à política de defesa nacional. A caserna lembra a liderança do Brasil na Força de Paz enviada ao Haiti autorizada depois das negociações lideradas pelo Itamaraty, o que aprimorou o treinamento da tropa para situações de guerra. Em entrevista ao programa É notícia, da RedeTV!, na semana passada, Amorim defendeu uma retirada gradual da Força na ilha da América Central: “Prontamente, deveriam voltar para o Brasil os militares que foram adicionados à tropa depois do terremoto que devastou o pequeno país caribenho em 2010”.
Agora, entre os desafios que passam à tutela de Amorim, estão a aprovação pelo Senado da Lei de Acesso à Informação e a instalação da Comissão da Verdade para investigar crimes praticados durante a ditadura. Jobim vinha trabalhando para reduzir as resistências no Congresso sobre a divulgação de material do governo, incluindo os dados classificados de ultrassigilosos de gestões passadas.

Desafios
O novo ministro da Defesa, Celso Amorim, vai herdar de seu antecessor pelo menos quatro temas de relevância e de polêmica. São eles:
Estratégia Nacional de Defesa
Além de reforçar as fronteiras, prevê a modernização das Forças Armadas para os próximos 30 anos.

Caças
A compra dos aviões caças, um dos temas mais discutidos durante o governo Lula, deve voltar à tona.
Comissão da Verdade
Parte dos militares não aceita que sejam retomadas investigações sobre a ditadura.

Copa do Mundo
As Forças Armadas, que também participaram do Pan-Americano, atuarão principalmente na área de inteligência.

Fonte: Correio Braziliense via Resenha

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