Defesa & Geopolítica

“DAC CONG” – As forças Especiais de Ho Chi Min

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Autor: Vympel 1274

Plano Brasil

1. Antecedentes

O Exército Norte-Vietnamita utilizou tropas especiais de assalto (conhecidos como sapadores) para uma ampla gama de missões, às vezes por si só ou como ponta de lança de uma força principal. Os vietcongues também implantaram sapadores em seus ataques. As perdas na ofensiva do Tet, em 1968  demonstraram que ataques em grande escala eram muito perigosos. Devido a considerações estratégicas, todas as nações que na idade moderna enfrentaram o Vietminh (guerrilha de libertação do Vietnã), estabeleceram “pontos fortes”, ou seja, bases militares de tamanhos diversos para concentração de recursos (tropas, artilharia, veículos), e que ao mesmo tempo forneciam proteção para estes mesmos efetivos (Dien-Bien-Phu para os franceses e Khe Sahn para os americanos, como exemplos), para poder enfrentar a guerrilha em seu ambiente, a selva. Estes “pontos fortes” foram idealizados por japoneses, franceses e posteriormente, os americanos.

 

 

Para enfrentar esse tipo de inimigo, os vietnamitas desenvolveram técnicas para infiltração em pontos fortes e bases em geral altamente defendidas, ultrapassando seus obstáculos defensivos e armadilhas, abrindo assim caminho para a força principal, que atacaria as posições inimigas.

Chamados de Binh chủng Đặc công” (Unidades especiais do Exército) pelos próprios vietnamitas, e “sapadores especiais” pelos soldados americanos, os “sapadores” foram uma medida de economia de força que poderia desferir um duro golpe no inimigo, sendo estas as primeiras unidades especializadas do ENV, criadas oficialmente em 19 de março de 1967, embora tropas com estas mesmas características já existissem há décadas. Eles são uma elite especialmente vocacionadas para se infiltrar e atacar aeródromos, unidades militares, portos fluviais e marítimos  e outras posições fortificadas de alto valor.

Haviam cerca de 50.000 homens servido no Exército Norte-Vietnamita como sapadores durante a guerra do Vietnã (Đặc công bộ – operações terrestres), voltados para operações terrestres e organizados em companhias de 100-150 homens, divididos em pelotões de cerca de 30-36 homens e com sub divisões em grupos , esquadrões e células. tropas especializadas como rádio operadores, médicos e especialistas em explosivos também foram incluídas.

Todos eles são voluntários. Os sapadores eram frequentemente designados para unidades maiores (regimentos, divisões, etc) para a realização de ataques e reconhecimento, mas também poderiam ser organizados como formações independentes.

 

Os sapadores eram treinados e preparados com cuidado em todos os aspectos de seu ofício, e fizeram uso de uma variedade de equipamentos e dispositivos explosivos, incluindo material capturado ou abandonado americano. Os sapadores também realizaram missões de inteligência e poderiam trabalhar disfarçados. Um dos sapadores que participaram da ofensiva do Tet em 1968 contra a embaixada dos EUA era o motorista de um embaixador americano.

2.  Técnicas de assalto dos sapadores

Planejamento do assalto: Um ataque típico começaria com a reconstrução detalhada da posição inimiga (bunkers, aeroportos, depósitos de munição, centros de comando e comunicações, quartéis, instalações de geração de energia e outros pontos vitais). Os dados de várias fontes de inteligência (agricultores, espiões, informantes, etc) eram coletados e adicionados ao planejamento. O alcance da artilharia para cada área-alvo era detalhado. Um mock-up do alvo era criado e ensaios detalhados ocorriam. Os assaltos eram geralmente planejados após o anoitecer.  Os sistemas de sinalização eram por vezes através de sinais luminosos coloridos. Uma sequência típica de sinais obedecida pelas equipes de assalto poderia ser a seguinte: chama vermelha: área difícil de entrar; chama branca: retirada; chama verde: vitória; chama branca seguida de verde: reforços solicitados.

3. Organização e formações durante o assalto.

Dependendo do tamanho do ataque, os sapadores eram geralmente divididos em grupos de 10-20 homens na vanguarda da força principal, que eram ainda subdivididos em equipes assalto de 3-5 homens. Cada equipe foi encarregada de destruir ou neutralizar uma área específica de defesa do inimigo. Quatro escalões sucessivos poderiam ser empregados em uma operação típica de sapadores.

Um grupo de assalto tomava a responsabilidade principal pela penetração inicial através do arame farpado e outras defesas. Um grupo de apoio de fogo podia ser usado para realizar apoio de fogo á este grupo, através de lança-foguetes B-40 (RPG-2), morteiros ou metralhadoras, assim que os elementos de penetração atravessassem as defesas, em um horário definido ou através de um sinal pré-programado. Um pequeno grupo de segurança podia ser implantado para posicionar-se visando emboscar os reforços que tentassem reforçar as defesas da área ameaçada. Um grupo de reserva podia ser utilizado para aproveitamento do êxito ou resgatar seus companheiros se a situação começar a deteriorar-se.

4. Movimento do ataque inicial.

O movimento da tropa para a área-alvo era tipicamente através de longas caminhadas, para dissimular sua posição. Uma vez que tinham alcançado a zona de reunião, elementos infiltrados anteriormente nas proximidades do alvo conduziam as frações até seus respectivos setores. Reconhecimento prévio detalhado era de suma importância.

Os destacamentos de infiltração prendiam armas e explosivos em seus corpos para minimizar o ruído, e muitas vezes cobriam seus corpos com carvão e lama para camuflarem-se no terreno, dificultando sua identificação. O arame farpado era cortado apenas parcialmente, com os fios restantes partidos com a mão para não fazerem barulho. Sinais luminosos da posição defensiva eram neutralizados envolvendo seus acionadores com uma tira de pano ou bambu, pelo destacamento de infiltração. As minas direcionais Claymore M18 americanas eram desativadas pelos soldados do referido destacamento.

Um homem de ponta geralmente precedia cada equipe, rastejando silenciosamente através das defesas, explorando com os dedos para detectar e neutralizar as armadilhas e minas, enquanto os outros seguiram atrás. Às vezes, fios-guia eram lançados para indicar um corredor de assalto. Tapetes de fibra vegetal podiam ser jogados por cima do arame farpado para facilitar a passagem por cima do mesmo.

Os sapadores frequentemente utilizavam torpedos “Bangalore” improvisados, feitos com TNT inserido dentro de uma vara de bambu, a qual era utilizada para explodir os obstáculos de arame farpado e abrir rotas de assalto para a força principal. Muitas vezes, utilizavam caminhos inesperados para a abordagem, como através do depósito de lixo, como durante o ataque á base militar americana de Cu Chi, em 1969.

5. O ataque principal e a retirada:

Baseado no tipo de alvo e da situação político/militar em causa, alguns ataques prosseguiam cautelosamente, com pouco apoio de fogo desde o começo até o último momento. Outros ataques, especialmente contra alvos americanos bem defendidos, os comunistas utilizavam artilharia de barragem para manter os defensores americanos alojados em suas posições defensivas e de cabeça baixa após a quebra do sigilo, enquanto os grupos de assalto moviam-se furtivamente até esta mesma posição.

Os alvos eram geralmente atingidos em ordem de prioridade, de acordo com o nível de perigo que o mesmo apresenta para as unidades de sapadores, ou com base em objetivos políticos/militares. Era enfatizada a agressividade extrema durante o ataque, sob a doutrina das “três forças” (surpresa, concentração da força e aproveitamento do êxito), o que geralmente conseguia grande sucesso.

Se os sapadores eram descobertos, atacavam imediatamente. Uma vez que o objetivo do ataque era alcançado, ou o combate começava a causar desgaste, a retirada era exigida. Forças de cobertura garantiam a retirada da força principal, fornecendo tempo para esta evadir-se do local. Armamento e munição e outros equipamentos do inimigo eram recolhidos e os corpos dos mortos e feridos eram resgatados. Relatórios e críticas de avaliação do assalto eram feitas pelas forças do Exército Norte Vietnamita e do Vietcong, absorvendo assim as lições aprendidas e melhorando suas habilidades para o próximo assalto.

6. Exemplos de alguns ataques dos sapadores Dac Cong

Ataque dos sapadores ao aeródromo do 242º Esquadrão – Cu Chi, 1969

O ataque à base da 25ª Divisão de Infantaria dos EUA em Cu Chi, no ano de 1969, onde havia um campo de aviação (242º esquadrão), ilustra o tipo de ataque de sapadores vietnamitas que causaram relativamente pouca destruição, mas estes ataques foram realizados em uma das mais importantes e bem defendidas bases dos EUA no Vietnã. Esta ação envolveu, uma combinação de soldados do Vietcong e do Exército Norte-Vietnamita, que destruíram nove helicópteros CH-47 “Chinook”, danificaram mais três helicópteros do mesmo modelo e explodiram um depósito de munição.

Os sapadores Vietcongues lideraram o ataque, com apoio de fogo de tropas do Exército Norte-Vietnamita. Interrogatórios de prisioneiros de guerra revelaram uma estreita coordenação com os elementos da guerrilha local e informantes, inclusive o fornecimento de desenhos detalhados e croquis da área-alvo. A penetração das equipes alcançaram quase surpresa completa, com cerca de dez sapadores alcançando as cercas de arame farpado e avançando sem serem detectados pelos soldados americanos, sem acionar as armadilhas ou serem detectados pelas patrulhas. Um ataque com foguetes foi o sinal para os sapadores entrarem em ação contra os helicópteros e soldados.

Além das aeronaves, as perdas das tropas dos EUA foram relativamente leves (um morto, três feridos versus cerca de 30 VC ou ENVA mortos). No entanto, o incidente revela a capacidade do VC / ENV de recuperação, mesmo após as perdas da ofensiva do Tet, em 1968.

Ataque dos sapadores á base do exército Mary-Ann, 1971

O ataque contra a base militar Mary-Ann do Exército dos EUA em 1971 pela Força principal do 409º Batalhão de Sapadores do Vietcong é outro exemplo dessas técnicas. A surpresa foi alcançada e muitos não acreditavam que o ENV / VC atacaria um pequeno posto avançado. A base militar vira pouca ação durante a guerra e era composta de 250 soldados norte-americanos e alguns sul-vietnamitas.

A barragem de morteiros foi estabelecida em um horário definido para o começo da batalha. Esta cobertura era prevista pelos sapadores, que já estavam pré-posicionados na linha de frente. Moveram-se rapidamente para os seus objetivos. Eles destruíram o Batalhão de Operações e um grande número de postos de comando, criando assim o caos generalizado antes de se retirar quando helicópteros chegaram.

As perdas dos EUA foram de quase 30 mortos e 82 feridos. Suspeitas ainda permanecem sobre este ataque, inclusive a suspeita de que militares sul-vietnamitas facilitaram a penetração dos elementos sapadores no interior da base americana. Se isso for verdade, o incidente demonstra o longo alcance dos serviços de inteligência do ENV / VC, e seu planejamento sofisticado e a execução do assalto. Vários altos comandantes americanos foram dispensados ​​de suas funções ou foram repreendidos após o evento. Audaciosamente, o Vietcong atacou as ruínas da base militar no dia seguinte com tiros de metralhadora.

Os Dac Cong foram pontas de lança em muitas vitórias obtidas pelo ENV/VC, quando considerados a estratégia de vitória a longo prazo dos vietnamitas, como o aeroporto de Cat Bi, Bien Hoa e Tan Son Nhut, Gia Lam, Bach Mai, Phu Tho Hoa, Tua Hai, Nui Thanh, Hoai Duc, Campo Norte, Long Binh, Dong Du, Tuy Thanh Ha, Nha Be, e a embaixada dos EUA.

7. Atualidade

Outras forças Dac Cong existentes:

Dac Cong Biet Dong – Combate Urbano

Unidade do Exército Vietnamita especialmente treinada para operações urbanas, onde são unidades que lideram o ataque em áreas urbanas, seguidas pelas forças regulares.

Dac Cong Nuoc (M26) – Operações anfíbias

Unidade da marinha do Exército Vietnamita especialmente treinada para operações anfíbias em meio fluvial ou marítimo, onde destroem a infraestrutura de portos, navios ancorados e podem realizar assaltos e golpes de mão em instalações próximas á rios ou ao mar.

Doan Dac Cong (M1)‏ – Operações antiterroristas.

Durante a guerra do Vietnam, a unidade chamada de Força-Tarefa do Exército Popular do Vietnam (Lực lượng đặc nhiệm của Quân đội Nhân dân Việt Nam) foi uma unidade de elite do exército com a função de “busca e destruição” de unidades das forças especiais dos EUA (MACV-SOG).

Com o fim da guerra, evoluiu e transformou-se atualmente em uma unidade antiterrorista (Doan Dac Cong). Não é formalmente uma unidade de “sapadores”, pois sua função original é muito diversa desta.

8.Conclusão:

O Vietnam do norte, durante a guerra, desenvolveu estas unidades especializadas com base nas características mais evidentes de suas forças armadas. Tais características eram a quase total falta de meios modernos a disposição da infantaria, além da mesma ser utilizada tanto em grandes formações durante um ataque á um objetivo fixo, visando compensar sua falta de meios tecnológicos modernos e de apoio ao combate (daí a grande diferença de baixas entre os EUA e o Exército Norte-Vietnamita), quanto emboscadas realizadas por pequenos efetivos contra forças superiores.

Isto leva a formação de efetivos militares que possam ser rapidamente substituídos por reservas. Daí a relativa pouca preocupação em dotar o militar de equipamentos modernos e ao mesmo tempo, dispendiosos.

Os vietnamitas foram excepcionais em tirar máximo proveito dos “meios de fortuna” encontrados no terreno, utilizando-os para fazer frente á superioridade tecnológica americana, tais como armadilhas e túneis, aliados á uma  disciplina militar rígida, a qual combatia uma “guerra de desgaste”, onde não procuravam uma batalha decisiva, e sim o colapso da “vontade de lutar” do Exercito dos Estados Unidos e de seu povo. Estas características, quando não conhecidas pelo público em geral, forçam a comparações com outras unidades de elite de outros países, o que é totalmente errado, pois a maneira de “enxergar o combate” dos orientais é diametralmente diferente do ocidente.

Com combatentes decididos, disciplinados e altamente motivados (apesar dos mesmos combaterem nas mais precárias condições, até mesmo descalços), este pequeno país venceu o maior poder militar do ocidente e maior economia do mundo, sem falar nos japoneses, franceses e chineses.

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