Defesa & Geopolítica

Por que os EUA têm medo de mim?

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Tradução de Clara Allain

Na quarta-feira, 20 de julho de 2011, às 10h35, embarquei no vôo 033 da Aeroméxico, na Cidade do México, para ir a Barcelona. Ali eu faria uma conexão com um vôo da Alitalia com destino à Itália, onde me reuniria com amigos para compartilhar experiências sobre lutas latino-americanas. O vôo estava prosseguindo normalmente até pouco após a meia-noite, quando o comandante disse que íamos retornar a Monterrey, no México, porque o espaço aéreo dos Estados Unidos tinha sido fechado.Artigo Original: Why is the US so afraid of me?

Para minha surpresa extrema, quando desembarcamos em Monterrey, um pouco depois da 1h, uma comissária de bordo solicitou minha identificação e então pediu que eu recolhesse minhas coisas e a acompanhasse para fora do avião. Quando cheguei à porta, alguns policiais federais mexicanos e dois ou três funcionários da Aeroméxico pediram que eu me identificasse novamente e que deixasse o avião. Eu disse a eles que não sairia do avião enquanto eles não me explicassem o que estava acontecendo. Eles falaram: “O governo dos Estados Unidos recusou o avião porque você está nele”.

Fiquei espantada. Uma pessoa simpática da Aeroméxico em Monterrey me disse que a empresa também ficara espantada e que veria o que era possível fazer. Não tive outra escolha senão descer do avião. Os policiais federais me pediram para entregar uma cópia do meu passaporte. Acho que as jovens funcionárias da Aeroméxico ficaram tão estarrecidas quanto eu.

Aguardamos no aeroporto por uma hora e meia até que eles finalmente puderam deixar o avião repartir. Depois disso, me levaram para um hotel. Eu estava assustada e enfurecida. Pedi que me conseguissem um lugar no primeiro vôo de volta à Cidade do México, coisa que concordaram em fazer. Tive um sentimento de choque e vulnerabilidade profunda e queria
desesperadamente voltar para a segurança de minha casa.

Eu estava furiosa. Como podem essas “autoridades dos Estados Unidos” agir com tamanho despotismo? Como é que elas têm o poder de obrigar uma passageira a descer de um avião pertencente a uma companhia aérea de outro país, que está a caminho de um país que não é os EUA, deixando a passageira no meio do norte do México, de madrugada?

As autoridades americanas deveriam explicar o perigo que teria sido causado se eu tivesse voado 30 mil pés acima da América. Já sobrevoei os EUA diversas vezes nos últimos anos sem qualquer problema; logo, trata-se de uma mudança na política dos EUA? Quero que essas autoridades expliquem como ou por que decidiram o que decidiram, porque suas decisões são não apenas tolas, mas também arbitrárias. E quero saber se empresas aéreas estrangeiras sempre mostram suas listas de passageiros aos territórios que sobrevoam, ou se apenas o fazem aos EUA, e desde quando? E este tipo de coisa é uma ocorrência frequente? Quantos outros passageiros foram obrigados a retornar desta maneira?

Acho que devo constar de uma lista negra dos EUA, embora nunca tenha sido informada do fato. Suponho que eu esteja em uma lista negra porque fui presa na Bolívia em 1992 em função de meu ativismo político. Fui torturada, encarcerada e acusada –juntamente com o atual vice-presidente eleito da Bolívia, Álvaro Garcia– de integrar uma organização guerrilheira. A acusação foi arquivada por falta de provas, e todas as acusações contra mim foram oficialmente arquivadas em 2007.

Aqueles entre nós que constamos de uma “lista negra” do governo dos EUA –por uma grande gama de razões em muitos casos absurdas– não estamos pedindo que nos deixem entrar nesse país. É uma aberração não permitir que um avião viaje pelo ar quando nós estamos a bordo dele.

Muitos vôos comerciais que partem do México com destino à Europa passam pelo espaço aéreo dos Estados Unidos; será que qualquer mexicano que os EUA decidam incluir em uma lista negra terá que encontrar rotas alternativas? Minha preocupação não é apenas comigo mesma. Qualquer pessoa –homem, mulher ou criança– que viaja deve poder fazê-lo ciente de que não será arbitrariamente impedida de chegar a seu destino.

Raquel Gutierrez Aguilar é professora de sociologia na Universidade Autônoma de Puebla. Ela participou das guerras da água de Cochabamba, na Bolívia, em 2000.

Fonte: Folha de S. Paulo

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