Defesa & Geopolítica

Mitos e verdades sobre a atividade de inteligência no Brasil

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Por André Soares

Muitas pessoas têm interesse pela denominada atividade de inteligência, influenciadas principalmente pelas histórias e filmes de espionagem. Particularmente no Brasil, há dificuldades intransponíveis em se obter informações fidedignas sobre esse ofício, em razão da desinformação produzida pelos órgãos oficiais. Significa não haver credibilidade nessas versões, razão pela qual a sociedade brasileira precisa conhecer a verdade sobre essa realidade, para o pleno exercício da cidadania e para que os brasileiros não comprometam suas vidas   investindo nessa obscuridade, inadvertidamente.

Sobre a história da Inteligência de Estado no Brasil, o Serviço Nacional de Informações (SNI), criado em 1967, foi o único e breve suspiro auspicioso. Até degenerar-se e sucumbir. Sua sucedânea, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), foi criada pela Lei 9.883, de 7 de dezembro de 1999, predestinada aos mesmos desígnios do SNI. Assim, seu inevitável destino conduziu o Brasil à maior e pior crise institucional de inteligência que vivenciamos na atualidade, desvelada em 2008, no festival de clandestinidades protagonizadas pela Abin, na Operação Satiagraha, recentemente condenadas em decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

O ingresso em serviços de inteligência no Brasil pode ser realizado na Abin, por concurso público; ou nas instituições públicas mais tradicionais, por indicação política. No segundo caso, é importante ressaltar que há raras estruturas de inteligência eficientes no país, e as melhores estão nas Forças Armadas.  Contudo, se a principal motivação por essa atividade é o desejo de ser agente secreto, a verdade é que o Brasil não os possui em seus serviços de inteligência. Essa é perfídia a enganar muitos brasileiros, incitados ao concurso público da Abin, esperançosos de viver uma carreira de agentes secretos, que constitui a única razão de ser e existir dos serviços de inteligência, em todo o mundo. Porém, a melhor garantia que há em integrar os serviços de inteligência no Brasil é a de se tornar um excelente servidor público burocrata. Infelizmente, há no país uma legião de arapongas e agentes clandestinos, muitas vezes forjados nessas organizações.

Enfatiza-se que a atividade de inteligência não é profissão reconhecida oficialmente no país, estando muito aquém de alcançar o mérito dessa condição. Não por acaso, os conhecimentos da inteligência nacional são majoritariamente de baixa credibilidade, de mesma natureza e em duplicidade com as instituições competentes, em sobreposição e interferência indevidas.

A atual conjuntura é alarmante porque, como a Abin é o órgão central do Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin), sua ascendência e influência nacionais generalizam a ineficiência institucional dessa atividade. Ressalta-se o descontrole do Estado brasileiro sobre esses órgãos, que constituem uma “caixa-preta” dominada pela autofágica “comunidade de inteligência”, cuja fúria nossos governantes temem desafiar. O cenário prospectivo é pessimista porque o Brasil não possui há décadas uma política nacional de inteligência, e as autoridades nacionais demonstram sobejamente a incapacidade de salvar o país desse lamentável estado de coisas a que chegou a inteligência de Estado nacional.

Fonte: Jornal do Brasil

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