Defesa & Geopolítica

Ajuda humanitária do Pentágono reconstrói as relações entre Japão e EUA

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Porta-aviões USS Ronald Reagan

Martin Fackler
A bordo do USS Ronald Reagan
The New York Times

Quando os helicópteros da Marinha dos EUA desceram na escola de um vilarejo japonês em ruínas, os sobreviventes primeiro olharam desconfiados de suas janelas. Depois correram para ajudar a descarregar comida, água e roupas. Eles apertaram as mãos dos norte-americanos. Alguns os abraçaram.

“Eles são como deuses descendo do céu”, disse em prantos Junko Fujiwara, 37, secretária da escola elementar que se transformou em abrigo na cidade de Kesennuma, na costa norte do país. “Está frio e escuro aqui, então precisamos de tudo: comida, água, eletricidade, gasolina, velas.”

Logo depois do terremoto e do tsunami devastadores que atingiram o Japão, os militares norte-americanos deram início à chamada Operação Tomodachi (Amigo), um dos maiores esforços de ajuda humanitária dos últimos anos. Atualmente, cerca de 20 navios norte-americanos se reuniram na costa nordeste do Japão, incluindo o USS Ronald Reagan, um porta-aviões movido a energia nuclear cujos helicópteros estão ocupados enviando suprimentos para os sobreviventes.

A ajuda está chegando a áreas costeiras de difícil acesso, devastadas pelo duplo desastre de 11 de março. Eles também são o exemplo mais recente dos esforços do Pentágono de usar suas forças para que os EUA sejam vistos com simpatia no exterior, uma estratégia que o país usou com sucesso na Indonésia depois do tsunami de 2004.

Em particular, os EUA agarraram a chance de reconstruir os laços com um aliado crucial na Ásia, que há apenas um ano estava flertando com a ideia de se retirar a órbita de Washington. O fato de os navios norte-americanos terem chegado tão rápido ao cenário tem sido uma chance de demonstrar o valor das dezenas de bases norte-americanas no Japão, que abrigam cerca de 50 mil militares.

“O que estamos fazendo aqui é diplomacia”, disse George Aguilar, comandante do HS-4 Black Knights, um esquadrão de helicópteros do Ronald Reagan. “O país é o nosso melhor amigo na região.”

Até agora parece uma iniciativa de grande sucesso, pelo menos nas regiões que os helicópteros visitaram. No domingo, enquanto o esquadrão levava suprimentos para cidades devastadas pelo tsunami, normalmente para pátios ou campos esportivos transformados em áreas de pouso, os moradores japoneses os recebiam com uma profunda gratidão. Muitos ficaram isolados depois que as estradas foram destruídas pelas águas.

“Sempre nos lembraremos dos norte-americanos chegando no momento em que precisamos de ajuda”, disse Osamu Abe, 43, funcionário da prefeitura de Minamisanriku, onde o esquadrão de Aguilar deixou água engarrafada, rações militares e roupas infantis no domingo.

Ao mesmo tempo, os militares dos EUA tentam atingir um equilíbrio delicado. Os Estados Unidos desempenham um papel importante em muitos aspectos da resposta à recente crise no Japão, inclusive enviando caminhões de bombeiro para a usina nuclear afetada de Fukushima Daiichi. Mas os norte-americanos estão tentando evitar constranger os japoneses, ou sugerir que os EUA estão no comando.

De fato, o Japão às vezes parece abatido pelos múltiplos desastres –o terremoto e o tsunami deixaram mais de 22 mil pessoas mortas e desaparecidas, e centenas de milhares desabrigadas, e a usina ainda enfrenta o risco de derretimento.

Os EUA reuniram rapidamente uma grande presença nas áreas atingidas pelo tsunami, enquanto o Japão tem demorado para alcançar algumas das áreas mais prejudicadas, especialmente em torno da usina nuclear. A Marinha disse na segunda-feira que havia entregue 88 toneladas de suprimentos em áreas devastadas, na maior parte itens essenciais como alimentos, água e roupas.

Marinheiros a bordo do USS Blue Ridge (LCC 19) auxiliam no envio de mantimentos para o Japão.

“Nós apreciamos muito esta rapidez e imensa capacidade”, disse o capitão Hidetoshi Iwasaki das Forças de Auto-Defesa Marítimas, a Marinha do Japão. “As FADM não são capazes de conduzir os esforços de ajuda tão sistematicamente sem a Marinha dos EUA nos ajudando um pouco. Eles são como um irmão mais velho.”

Em parte, a resposta rápida foi resultado da sorte: o navio Ronald Reagan e seu grupo de batalha estavam passando pelo local a caminho de jogos de guerra na Coreia do Sul. O porta-aviões, com uma tripulação de 4.500 pessoas, pode lançar aviões e também gerar água doce, algo necessário nas zonas de desastre.

Os norte-americanos disseram que querem ficar até que os japoneses sejam capazes de entregar suprimentos com regularidade nas cidades costeiras remotas que foram afetadas pelas ondas. O Japão parece estar fazendo um progresso contínuo na construção de ligações terrestres, diz ele.

A resposta dos EUA à crise nuclear inclui não apenas caminhões de bombeiro, que contribuem com os esforços de resfriamento dos bastões de combustível superaquecidos, mas também aeronaves de reconhecimento, que têm ajudado os japoneses a monitorar os níveis de radiação.

No Ronald Reagan, as emissões da usina danificada têm sido uma preocupação séria. Os pilotos da Marinha dizem que estão tentando ficar a pelo menos 80 quilômetros de distância. Quando os helicópteros voltam das missões, eles e suas tripulações são cuidadosamente testados com contadores Geiger.

Um helicóptero HH-60H Sea Hawk do esquadrão anti-submarino Black Knights parte do convés de voo do porta-aviões USS Ronald Reagan (CVN 76) para apoiar as vítimas do Japão.

O próprio porta-aviões também se afastou pelo menos 160 quilômetros dos reatores. Quando o vento próximo à usina mudou de direção, o Ronald Reagan passou para o modo que os marinheiros chamam de “Círculo William” –fechando todas as escotilhas e aberturas de ventilação para evitar que o ar de fora entre. Integrantes da tripulação disseram que a radiação é uma coisa com a qual o navio não teve que lidar durante anos.

“Estamos desenterrando os manuais antigos da Guerra Fria para saber como proteger o navio da radiação”, disse Aguilar, chefe do esquadrão.

Aguilar, 40, afirmou também que os danos e a quantidade de mortos no tsunami do Japão são muito maiores do que no outro desastre no qual ele esteve envolvido nos esforços de ajuda: o furacão Katrina. “Isso excede o Katrina”, disse ele. “Parece que o braço de Deus varreu tudo o que tinha na terra.”

Ele e outros membros da tripulação de helicópteros norte-americanos ficaram chocados com a força do tsunami, que fez com que uma grande balsa fosse parar em cima de um prédio de três andares, e deixou uma casa inteira flutuando intacta a quilômetros do mar, com as cortinas ainda nas janelas. Um mar de escombros de peças de madeira de casas japonesas e barcos naufragados de todos os tamanhos circundava o Ronald Reagan, a cerca de 24 quilômetros da costa.

Outra surpresa, dizem os militares, foi o baixo número de feridos. O Reagan havia considerado oferecer seus grandes hangares para funcionarem como hospital improvisado. Entretanto, poucos dos sobreviventes que se amontoam nas escolas e outros abrigos improvisados precisaram de cuidado médico emergencial. Os norte-americanos disseram que eles evacuaram apenas um número pequeno de feridos, incluindo um sueco com apendicite.

“Ou você estava no caminho do tsunami, ou não”, disse o tenente Chad Upright.

No centro de refugiados lotado de Minamisanriku, onde 250 sobreviventes dormiam no chão, Abe disse que a coisa mais urgente necessária era remédio para gripe, febre e alergias. Mas os militares norte-americanos disseram que não podiam dar remédios sem a permissão do governo japonês, da qual não dispõem.

Um helicóptero SH-70B da Força de Auto-Defesa Marítima do Japão pousa a bordo do porta-aviões USS Ronald Reagan.

Algo semelhante aconteceu depois do terremoto devastador de Kobe em 1995, quando suprimentos médicos estrangeiros e até médicos foram recusados na fronteira pelos burocratas japoneses.

Desta vez, os norte-americanos prometeram pedir logo a permissão dos japoneses para entregar remédios feitos nos EUA, e para ajudar a traduzir as bulas para o japonês.

A maior parte do que os norte-americanos entregaram é formada por itens retirados de seus próprios navios: comida extra e cobertores, e até as roupas dos próprios marinheiros.

Também havia bichos de pelúcia para as crianças.

Para aliviar a falta de alimentos nos abrigos, o Ronald Reagan enviou 77 mil cachorros-quentes congelados para um navio de guerra japonês, que os esquentou e entregou.

Os militares dos EUA também pareciam tocados pela recepção dos japoneses. Na sala de reuniões do esquadrão a bordo do Reagan, alguém pendurou um desenho de dois sapos sorridentes dizendo: “obrigado” e “de Saki Owada (5 anos)”.

Os militares de outros esquadrões também falaram longamente sobre o afeto dos japoneses. Michael Adomeit, 34, membro da tripulação de um helicóptero do destroyer USS McCampbell, lembrou-se de um episódio.

“Uma fila de avós veio até nós para nos abraçar e agradecer”, disse ele. “Isso faz você perceber o quão importante é essa missão.”

Fonte: UOL

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