Defesa & Geopolítica

Nicolas Sarkozy : Eles precisam de ajuda

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O presidente francês diz que a transição para a democracia entre os árabes vai exigir esforços do Ocidente e que ainda tem esperança de o Brasil comprar os caças Rafale

O presidente francês Nicolas Sarkozy, de 56 anos, demorou para se posicionar em relação aos protestos que acabaram por derrubar os ditadores da Tunísia e do Egito, nas últimas semanas. A Líbia o obrigou a reagir mais rapidamente. Ele pediu a renúncia de Muamar Kadafi e defendeu a ideia de levá-lo a julgamento pela repressão à população Civil. Também propôs sanções ao governo líbio, o congelamento de bens da família do ditador e a suspensão da importação de petróleo daquele país. A França, contudo, tem se mostrado o mais comedido dos principais aliados dos Estados Unidos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no que se refere a uma intervenção militar na Líbia. Na entrevista a seguir, Sarkozy discorreu sobre a situação no mundo árabe, sua campanha contra a volatilidade nos preços de produtos agrícolas e a decisão do governo brasileiro de desfazer a promessa de comprar aviões de combate franceses.

O que pode ser feito para evitar que as revoluções árabes resultem em governos opressores de seu povo e hostis ao Ocidente?
O que está ocorrendo no mundo árabe é histórico. Sem a ajuda de ninguém, com uma coragem incrível, esses povos derrubaram regimes em nome de valores caros para nós, como liberdade, democracia, justiça e direitos humanos. Pela primeira vez na história, esses princípios podem triunfar em ambos os lados do Mediterrâneo. Não acho que essas revoluções devam ser temidas. Na Tunísia e no Egito, nenhum manifestante gritou “abaixo o Ocidente” e não se ouviram palavras de ordem extremistas ou fundamentalistas. O que se pediu nas ruas foi respeito aos direitos básicos dos cidadãos. Obviamente, ninguém pode descartar cenários indesejáveis no futuro, mas para isso não ocorrer precisamos ajudar esses povos na transição para a democracia. A melhor forma de fazer isso é com apoio financeiro, técnico e humano.

Por que a França se recusou a receber tunisianos que tentaram emigrar para a Europa?
Dissemos que aplicaríamos à Tunísia as regras de visto vigentes, nada mais, nada menos. A Europa tem um papel importante a desempenhar no processo de democratização no norte da África. Refiro-me às questões de ensino e formação de jovens africanos. Dessa forma, poderemos apoiar a Tunísia, ajudando-a a proporcionar um futuro à sua juventude e impedindo a perda dos talemos de que tanto necessita. Além disso, não haveria pior cenário do que aceitarmos a chegada maciça de pessoas, as quais não teríamos condições de receber com dignidade.

A França sabe como evitar uma guerra civil na Líbia?
Pedimos a criação de um Conselho Europeu Extraordinário para tratar do fim da violência e do resgate de estrangeiros no país. Estamos estudando a melhor forma de impedir Kadafi de continuar usando sua força aérea contra a população civil e o melhor modo de aliviar o sofrimento do povo libio. Já começamos a enviar comboios humanitários para a região. O mundo precisa estar do lado do povo líbio nesta hora histórica, tão trágica e, ao mesmo tempo, cheia de esperança.

Um dos fatores econômicos das revoltas no mundo árabe foi a alta no preço dos alimentos. Como atacar esse problema?
O mundo tem, hoje, 1 bilhão de desnutridos, os preços dos produtos agrícolas dispararam e nada nos garante que não veremos novas revoltas causadas pela fome ainda neste ano. A França é o país que mais esforços faz para reverter esse cenário. Em 2008, propus a criação de uma parceria global para a alimentação e a agricultura. Depois, destaquei a questão como prioritária para a presidência francesa no G20 (grupo que reúne as principais economias desenvolvidas e emergentes).

Alguns economistas dizem que a medida mais eficaz para acabar com a fome global é derrubar o protecionismo agrícola dos países ricos. O que a França pretende fazer a respeito na presidência rotativa do G20?
Para reduzir a fome no mundo temos, sim, de abrir nossos mercados aos países mais pobres. Foi o que nós, europeus, fizemos ao aprovar, em 2001, o programa Tudo Menos Armas, que liberou o acesso ao nosso mercado para produtos de países menos desenvolvidos, com exceção de armas e munições. Para estar à altura do desafio gigantesco que temos diante de nós, contudo, é preciso aumentar em 70% a produção agrícola mundial, se quisermos alimentar os 9 bilhões de pessoas que habitarão o planeta em 2050. Isso significa que há lugar para agriculturas fones, como a brasileira. Precisamos de vocês para alimentar o planeta, mas é preciso também lutar contra a excessiva volatilidade nos preços das commodities. Da mesma forma que regulamos os mercados financeiros, temos de regular os mercados agrícolas.

Como é possível regulá-los?
Primeiro, temos de aumentar a transparência nos mercados, principalmente em relação aos estoques. Segundo, precisamos regular melhor os mercados financeiros de commodities, definindo, por exemplo, regras básicas para conter abusos. Terceiro, temos de criar instrumentos sólidos, como estoques de emergência, para enfrentar as crises alimentares. Também é necessário abrir aos países mais pobres o acesso aos seguros, de modo que eles possam se proteger contra a alta de preços ou de eventos que atinjam tragicamente as safras.

A regulação não pode ser um empecilho a mais ao desenvolvimento dos países de economia agrária?
De forma alguma. Não se trata de limitar o desenvolvimento da agricultura, nem de impedir que países como o Brasil vendam seus produtos a preços interessantes. A prioridade é desenvolver a produção. Precisamos de agriculturas fortes, e o faro de o Brasil ser um dos celeiros do mundo é positivo. Mas quem pode garantir que a atual alta das cotações dos alimentos não é uma ameaça à retomada econômica e à estabilidade global, se o preço da tonelada de trigo passou de 120 euros para 300 euros em seis semanas? Quem pode afirmar que a especulação não vem cumprindo um papel nesse cenário quando, em um único dia, um operador pode comprar 15% da produção mundial de cacau e revendê-la, embolsando a diferença na alta de preços que ele mesmo provocou – sem precisar tirar 1 centavo do bolso? Não estou dizendo que se devam tabelar os preços. Quem define os valores são os mercados, mas eles têm de ser regulados porque, no fim das contas, quem paga por isso é a população. Isso interessa inclusive às grandes agriculturas emergentes como o Brasil, porque uma alta de preços brutal e desgovernada sempre é seguida de uma baixa brutal e desgovernada.

A França é o país que mais se opõe a um acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia. Por quê?
Há mais de dez anos trabalhamos nesse acordo. Fomos até o limite do que poderíamos aceirar, principalmente no que diz respeito às questões agrícolas. Ir além significaria pôr em risco muitos produtores e agropecuaristas, não só da França, mas também de outros países europeus. A União Europeia já vem dando ampla abertura às importações agrícolas do Mercosul. Somos, de longe, o maior comprador do bloco. Sou a favor de um acordo, desde que ele seja equilibrado e o Mercosul esteja disposto a mostrar abertura às solicitações europeias sobre serviços e indústrias. Eu respeito a determinação do governo brasileiro na defesa de seus agricultores, mas peço que tentem entender a minha determinação. Não serei o presidente que deixou a agricultura francesa morrer.

Como a França viu, no ano passado, o apoio do Brasil ao direito do Irã de desenvolver um programa nuclear?
Nós apoiamos os esforços realizados pelo Brasil e pela Turquia na questão iraniana. A resposta do Irã à proposta brasileira e turca, no entanto, chegou tarde demais, quando já não fazia semido. Por isso, nós, do Conselho de Segurança da ONU, adotamos novas sanções ao Irã. Emendo que essa situação tenha criado certo ressentimento no governo brasileiro, mas nunca questionamos as intenções positivas do Brasil, e sim a protelação iraniana. A França jamais contestou o direito do Irã à energia nuclear civil. Mas os iranianos só multiplicaram os subterfúgios protelatórios e as provocações às propostas nesse semido feitas pela comunidade internacional. Prosseguiram na proliferação nuclear e balística, ignoraram seis resoluções do Conselho de Segurança e dez da Agência Internacional de Energia Atômica. Hoje, ninguém pode afirmar seriamente que o programa iraniano de enriquecimento de urânio tem fins pacíficos. Ele foi criado na clandestinidade e não encontra nenhuma justificativa civil ou industrial. Existe apenas um reator no Irã, e os russos fornecem todo o combustível necessário. Para mim, a perspectiva de o Irã ter a bomba nuclear é inaceitável, pois seria um risco muito alto para a segurança da região e do mundo.

A demora da União Europeia em aceitar a adesão da Turquia ao bloco não está empurrando-a para os braços do Irã?
A ideia de um grande país como a Turquia definir sua política externa exclusivamente em função da integração com a União Europeia me parece não apenas uma extravagância, mas um desrespeito com os turcos. A Turquia tem uma diplomacia muito ativa na região. Sempre defendi a ideia de que a Turquia e a União Europeia precisam desenvolver uma aproximação maior, mas sem chegarmos até a integração, que não traria benefícios a nenhuma das panes. A Turquia tem um papel único, que nunca foi tão relevante para o mundo quanto agora, que é ser uma ponte entre o Ocidente e o Oriente. Para comunicar desempenhando esse papel, deve manter essa posição única, de onde rira sua força.

A França apoia a candidatura brasileira a um assento permanente no Conselho de Segurança?
Sim. Primeiro, porque o Brasil já é um protagonista global e o será cada vez mais. Tem peso, capacidade e, principalmente, vontade de contribuir para a estabilidade mundial. Isso pode ser visto no Haiti, onde o Brasil é a espinha dorsal da missão de paz da ONU. Segundo, se quisermos que o conselho continue sendo a principal instância para a segurança e a paz internacionais, ele precisa ser mais representativo do equilíbrio mundial. Os países emergentes devem ser mais bem representados ali. A reforma do Conselho de Segurança não deve ser protelada. É uma questão de legitimidade e eficiência para a própria ONU. Por isso a França, junto com a Inglaterra, propôs uma reforma interina do conselho, possibilitando a ampliação agora, dando a alguns países um mandato mais longo como membros não permanentes. Seria uma etapa rumo à ampliação definitiva.

Qual justificativa do governo brasileiro o senhor recebeu por ele ter voltado atrás na compra dos caças franceses Rafale, dada como certa pela gestão anterior?
O governo brasileiro disse que precisa de mais tempo para tomar uma decisão tão relevante; e entendo perfeitamente essa necessidade. Trata-se de uma escolha estratégica, que significará um compromisso pelos próximos anos. Não vejo essa decisão como um retrocesso e não estou preocupado porque tenho certeza de que a oferta francesa é a mais adaptada às necessidades brasileiras. Primeiro, porque o Rafale é o avião de caça com o melhor desempenho e a maior versatilidade no mercado. Segundo, porque já mostrou seu valor em missões militares. Terceiro, porque a oferta que fizemos é acompanhada de transferência irrestrita de tecnologia, garantida pelo estado francês, o que nenhum dos outros dois concorrentes tem condições de fazer com credibilidade. Relações simples de fornecedor e cliente estão ultrapassadas. Essa cooperação com os caças deve também contribuir para o desenvolvimento da indústria de defesa do Brasil. O objetivo de independência e soberania é considerado legítimo pela França, pois foi o que norteou o desenvolvimento de nossa própria indústria de defesa.

Fonte: Veja via NOTIMP

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