Defesa & Geopolítica

Thomas Shannon fala sobre diversos assuntos, incluindo caças e urânio

Posted by

http://www.defesanet.com.br/imagens/1101/20110107_36_thomas_shannon.jpg

Nota do Editor:

O título da matéria foi alterado pelo editor do Plano Brasil.

Uma excelente entrevista feita pela Revista Época que compensa ser conferida na íntegra.

Lucasu.


ÉPOCA – Como o senhor compararia o ex-presidente do Brasil (Lula) à atual? O senhor está feliz com Dilma Rousseff? Quais as diferenças e semelhanças entre os dois no que diz respeito à relação Brasil-EUA?
Thomas Shannon –
A relação Brasil-EUA está numa trajetória positiva, e ela foi muito positiva no governo do ex-presidente Lula. Nos últimos anos, Brasil e EUA avançaram muito ao construir um diálogo estruturado e de qualidade, algo essencial para a relação. Mas o desafio não está necessariamente apenas na relação entre Brasil e EUA. Está no resto mundo. O mundo é muito dinâmico e fluido e, por causa da emergência do Brasil como um importante ator global, nossas relações vêm sendo definidas em termos globais. E é onde está o potencial positivo. Isso significa a oportunidade de firmar parcerias em áreas como segurança alimentar, segurança energética, combate ao crime organizado internacional, e também a possibilidade de trabalhar com o Brasil e influenciar aspectos de como o Brasil entende o mundo, seja no Oriente Médio, na África ou Ásia. E também aprender com as próprias experiências do Brasil sobre como nos envolver com novos atores do mundo, como China, Indonésia, Nigéria, África do Sul, México. O que irá definir nossa relação agora com a presidenta Rousseff não é tanto uma questão de boas intenções, porque elas existem e sempre existiram, mas sim os desafios que ambos enfrentaremos no mundo. Porque está havendo mudanças. Estamos vendo isso agora no Egito e no Oriente Médio. O tipo de parceria que nós começamos a construir de uma forma significativa com o presidente Lula tem que ser acelerada.

ÉPOCA – O Brasil tem tomado uma posição em relação ao Irã muito diferente dos Estados Unidos. O senhor vê uma mudança de rumo agora com a presidenta Dilma?
Shannon –
Há aspectos de continuidade e outros de mudança. Houve mudanças significativas na forma como o Brasil lida com os direitos humanos, principalmente quanto ao Irã, seja em relação ao apedrejamento de Sakineh (Ashtiani) ou, de uma forma mais ampla, à repressão de atividades políticas. A posição da presidente Rousseff tem sido marcante em vários eventos públicos, seja na entrevista que ela deu ao Washington Post ou em seu discurso de posse, em todas as suas declarações, há um claro reconhecimento de que o Brasil é um país democrático com um profundo respeito aos direitos humanos, e que expressará esses valores.

ÉPOCA – E em relação à China? Qual a prioridade da China na agenda Brasil-EUA?
Shannon –
A China é um ator muito importante no mundo e na América do Sul, além de um importante parceiro dos EUA e do Brasil. Ambos Brasil e EUA têm o interesse comum de construir relações positivas com a China, que a permitam inserir-se na economia mundial e no ambiente político de uma forma positiva. Esse é um desafio significativo, dado o tamanho da economia chinesa e sua quantidade das reservas cambiais.

ÉPOCA – E, claro, a taxa de câmbio que mantém essas reservas altas…
Shannon –
A visita do secretário (do Tesouro, Timothy) Geithner foi importante. Ele teve boas conversas com o ministro (Guido) Mantega, (da Fazenda), com o presidente (Alexandre) Tombini, do Banco Central, e, claro, com a presidenta Rousseff. Há uma ampla congruência na forma de pensar (entre Brasil e EUA). Concordamos que a manipulação da moeda para fins comerciais é errada e distorce mercados. E aqueles que arcam com o ônus disso são economias emergentes como a brasileira. Por causa da sua boa gestão econômica, das fortes políticas anti-inflação dos Bancos Centrais e do controle de capital que existe em outros lugares do mundo, elas se tornam um imã para dólares. Isso tem um impacto econômico, como o visto na apreciação do real. O impacto que isso tem na competitividade de bens manufaturados do Brasil é sentido dentro e fora do país.

ÉPOCA – Há um desafio no Brasil: evoluir de uma economia industrial para uma economia baseada no conhecimento e na inovação. Os EUA poderiam ser nossos parceiros nesse desenvolvimento? Como o senhor vê essa questão?
Shannon –
O Brasil tem uma economia muito parecida com a dos EUA. Sempre haverá uma forte base de commodities, como agricultura ou mineração ou petróleo. Sempre haverá um forte setor manufatureiro. Mas também há a capacidade e o potencial para ter um forte setor científico/tecnológico. Podemos formar parcerias muito interessantes. Isso já está se manifestando no comprometimento com a inovação. Temos uma parceria inovadora com apoio do nosso governo, que passa por instituições irmãs no Brasil e nos EUA, como o Conselho de Competitividade dos EUA. Temos reunido alguns de nossos melhores inovadores, que procuram maneiras de transpor os avanços na área de pesquisa científica para o mercado, de uma forma que traga benefícios imediatos para os consumidores, mas também para os produtores. Um dos intercâmbios cientifíco-tecnológicos mais interessantes está na área de biocombustíveis. Estamos compartilhando nosso conhecimento e esforço para produzir a próxima geração de biocombustíveis, feita a partir de alimentos que vão além do milho ou da cana-de-açúcar. Mas também sabemos que precisamos expandir nosso intercâmbio científico-tecnológico para além dos biocombustíveis. Parte disso está acontecendo naturalmente no setor privado. Empresas brasileiras e americanas estão trabalhando juntas, existe um interesse em comum, mas muito mais pode ser feito no plano dos governos para promover melhor cooperação em áreas como saúde pública ou segurança energética, onde possamos trazer experiências e competências brasileiras singulares e de sucesso e reuni-las às especialidades dos EUA, de modo útil para os dois países. Uma das coisas que você verá na visita do presidente Barack Obama será o foco no intercâmbio científico-tecnológico.

ÉPOCA – Quais os principais objetivos dessa visita? Por que Obama vem ao Brasil?
Shannon –
Há várias razões. Primeiro, será sua primeira viagem à América do Sul. Sua primeira parada será o Brasil. Isso é um claro sinal do interesse e respeito americano pelo Brasil, pela presidenta Rousseff e o desejo de reforçar essa emergente parceria global, que será cada vez mais importante à medida que o Brasil consolide sua posição de líder mundial. É um claro reconhecimento de que o Brasil não é só um ator regional, mas sim mundial. Segundo, o desejo de aprofundar e expandir a parceria que os dois países já têm, com um olho no futuro. O terceiro motivo seria o desejo de melhorar nossas relações comerciais e de investimento. Embora os países estejam negociando mais do que nunca em números absolutos, em números relativos tem havido uma queda.

ÉPOCA – A China ultrapassou o EUA como principal parceiro econômico do Brasil.
Shannon –
Nós temos de abordar isso. Nós acreditamos que nossas relações comerciais com o Brasil são importantes e investir nessas relações é também importante. À medida que vemos cada vez mais brasileiros investindo nos EUA, queremos achar formas de encorajar isso. E reforçar que nossa economia e nossas empresas estão se tornando cada vez mais interdependentes, devido à natureza de nosso comércio e de nossos investimentos. Então procuraremos formas de aperfeiçoar essa relação comercial e financeira. Há outro fenômeno interessante: o crescimento conjunto das nossas sociedades e a forma como elas estão conectadas, em novas e diferentes formas. Podemos vê-las por meio do comércio e dos investimentos, pelo nível das universidades, ou pesquisa científica. Algumas você vê acontecendo entre as igrejas, em especial igrejas evangélicas, um movimento social e religioso muito forte aqui no Brasil e nos Estados Unidos. Mas também vemos isso no turismo. O Brasil é o país que mais manda turistas para a Flórida. Era historicamente o Canadá, mas o Brasil tomou o lugar do Canadá. E o impacto que isso traz para a base da economia da Flórida é enorme, não apenas em termos de dinheiro, mas em termos de empregos. E isso vai crescer, especialmente porque classe média brasileira cresce. E não será apenas na Flórida. Os brasileiros vão a Nova York, Las Vegas, Los Angeles, mas, à medida que os brasileiros conhecerem mais os Estados Unidos, irão a mais lugares. E, por causa da Copa do Mundo e das Olimpíadas, mais americanos virão para o Brasil. Isso permite realçar quão importantes são nossas sociedades e quão semelhantes elas são em termos de sua composição, história, compromisso com a democracia e a sociedade aberta.

ÉPOCA – Obama enfrentou grandes desafios internos. Ele obteve sucesso em coisas das quais as pessoas têm muitas dúvidas, como a saúde pública. Mas há coisas em que ele não tocou e que são importantes para o Brasil: aquecimento global e tecnologias verdes. O que o senhor acha que o Brasil representa para essa área? O senhor acha que há alguma chance de, por acaso, os EUA derrubarem as barreiras ao nosso etanol?
Shannon –
O Brasil traz muito para as discussões sobre o meio ambiente quando o chamamos para as negociações internacionais das mudanças do clima. O papel que o Brasil desempenhou nas conferências do clima de Copenhague (em dezembro de 2009) e Cancún (dezembro de 2010) foi positivo. Isso mostra que tipo de ator o Brasil é. É notável a transformação havida aqui em relação às questões ambientais. Quando eu estive no Brasil há 20 anos, muitos brasileiros viam as preocupações ambientais internacionais como uma tentativa de limitar o desenvolvimento do país. De 20 anos para cá, o Brasil percebeu que pode crescer com a economia verde, o que é uma mudança de padrão. E não estou certo se há alguma outra economia do tamanho da brasileira, especialmente entre as economias emergentes, que tenha feito esse tipo de compromisso. É muito animador. O Brasil é um exemplo de que dá para crescer com uma economia verde. E que a economia verde pode ser um ponto de partida para a inovação tecnológica, de que estávamos falando. Podemos fazer muita coisa juntos nisso. Os desafios que o presidente [Obama] tem vivenciado sobre as mudanças climáticas realmente não estão nas nossas negociações externas. Não há consenso suficiente no nosso Congresso para aprovar uma lei de compromissos sobre mudanças climáticas. Mas eu acho que haverá um dia, e o presidente terá sucesso, como teve em outras leis difíceis. É um processo complicado nos Estados Unidos, porque há muitos interesses envolvidos. Há uma oportunidade real para nós, Brasil e Estados Unidos, de trabalharmos juntos nas mudanças climáticas dentro de organizações internacionais. Também há uma oportunidade interessante para as empresas americanas e brasileiras para começar a trabalhar juntas em tecnologias verdes. E, de forma mais ampla, em cidades verdes, jogos verdes, como as Olimpíadas, e caminhos que mostrarão claramente que há uma nova fronteira ambiental da qual todos podem se beneficiar.

ÉPOCA – E esse avanço poderia incluir o fim das barreiras comerciais para alguns de nossos produtos?
Shannon –
Espera-se que sim. Novamente, essa é uma questão complicada no nosso próprio comércio. Uma das áreas de interesse de cooperação e inovação é a busca de meios para ir além das tradicionais matérias-primas para fabricar biocombustíveis, além do milho e da cana. Em alguns aspectos, essa é uma solução para a questão das tarifas. Porque, em última instância, se os biocombustíveis se tornarem uma commodity e vierem a ser a grande parte da matriz energética, eles precisam ser produzidos a partir de outras matérias-primas. Assim, uma crise na cultura do milho ou da cana não provocaria uma crise de energia. Se você for capaz de produzir combustíveis a partir de qualquer outro tipo de vegetal, não ficará sujeito a isso.

ÉPOCA – O governo do Brasil ainda não decidiu de quem vai comprar os caças para renovar sua frota. Há alguns meses, o governo Lula parecia convencido a comprar os caças da França. O senhor ainda tem esperança de que o Brasil compre os caças americanos?
Shannon –
Para mim, a competição ainda está em andamento. Portanto, a Boeing ainda está nela e tem chance como qualquer outro concorrente. Obviamente, sabemos que essa será uma decisão do governo brasileiro e vamos respeitá-la seja ela qual for. A coisa boa é que todos os concorrentes, os franceses, os suecos e nós, somos todos aliados, somos amigos. No final das contas, todos vencemos. Mas, em relação ao que a Boeing está oferecendo, claro que acreditamos que é a melhor oferta. Primeiro, porque é o melhor avião. Segundo, a transferência de tecnologia oferecida é melhor que a das outras empresas. Por causa da natureza extensiva da nossa oferta, e das garantias políticas por parte do nosso Poder Executivo. Isso depende do que o Brasil quer. Obviamente, a compra do F-18 seria uma grande oportunidade para que pudéssemos cooperar em treinamento, tática aérea e tudo o que fazem os pilotos, pois estaremos voando com o mesmo avião. Seria uma grande oportunidade para as Marinhas e Aeronáuticas brasileira e americana cooperarem de diferentes maneiras. Mas é algo que viria depois. Dependeria do que o Brasil quer fazer.

ÉPOCA – O que o senhor quer dizer especificamente com “natureza extensiva”?
Shannon –
Parte disso é a própria transferência de tecnologia e parte é o que chamamos de “offsets”, ou aquilo que a Boeing fará no Brasil e com o Brasil para tornar (sua oferta) mais atraente para o Brasil. Há um ponto interessante que permite que alguns componentes críticos da aeronave sejam produzidos aqui. Isso faz definitivamente do Brasil uma peça-chave da cadeia de suprimentos do F-18. Isso cria uma parceria para a produção do F-18 tal que a Boeing vai precisar do Brasil tanto quanto o Brasil precisará da Boeing. Ao olhar para fora, o pacote oferecido pela Boeing é tão bom quanto o que estamos oferecendo para qualquer outro dos nossos parceiros da área de segurança ao redor do mundo. É algo inédito (neste momento, Shannon usa a palavra em português) em termos de relações de segurança aérea com o Brasil. E é um novo marco em nossas relações. Mas também a outra coisa interessante da Boeing é o perfil da empresa. É a única que é civil e militar, uma companhia de um tamanho enorme. Se a Boeing entrar nesse mercado, vai construir uma parceria duradoura com o Brasil. Um exemplo: a Marinha americana e a Força Aérea americanas fizeram recentemente novos pedidos de F-18. Isso fará do F-18 nossa opção de caça pelas próximas décadas, pelo menos, talvez por mais tempo. Então, o Brasil estaria ligado à produção em larga escala e processo de transferência de tecnologia que não acontecerá de uma vez só. Nós não estamos dizendo: aqui está o avião, aqui está a tecnologia. Nós estaremos voando neste avião por pelo menos duas décadas. E é o melhor avião do mundo. Às vezes, no debate sobre os caças, há algumas questões falsas. Dizem que o Brasil tem de escolher um avião inferior para obter o melhor acordo de transferência de tecnologia. Em outras palavras, vocês estão usando uma decisão de política de defesa para uma questão industrial. Mas vocês podem escolher o melhor avião e trazer um pacote de transferência de tecnologia muito interessante. É isso que a Boeing oferece. Um país grande como é o Brasil, que tem o tipo de espaço aéreo que o Brasil tem de controlar, tanto na terra quanto no mar, precisa de uma aeronave capaz de sobrevoar todo o país, que possa ser lançada de porta-aviões, usada em múltiplas missões e tenha a capacidade de lutar contra qualquer outra aeronave. É obviamente o que o F-18 oferece. Um país como o Brasil não pode se contentar com o segundo melhor. A Boeing ainda é líder em biocombustíveis e o F-18 pode voar com etanol.

ÉPOCA – Os EUA melhoraram as condições de transferência de tecnologia?
Shannon –
O pacote de transferência de tecnologia ficou melhor. Mais recentemente, foi inserida a oferta da Boeing de produzir partes do avião aqui e a transferência de tecnologia.

ÉPOCA – Os EUA estão enfrentando problemas com a imigração, há muitos brasileiros vivendo lá, alguns ilegalmente. Fala-se muito sobre mudança na política em relação ao tema, mas a legislação sobre isso está parada no Congresso. Como o senhor vê essa questão?
Shannon –
O presidente Obama assumiu o compromisso de fazer a reforma da imigração. Há o reconhecimento de que a lei e a estrutura atuais não funcionam e precisa ser modernizada. Isso é parte de um grande debate nos EUA. O debate tende a se mover entre duas correntes. Uma deriva de nossa própria história de imigração, que reconhece nas pessoas que chegaram aos EUA qualidades, talentos e valores importantes para o nosso desenvolvimento – e, portanto, defende que não deveríamos fechar as portas aos imigrantes. A outra corrente vem de nosso compromisso com o cumprimento da lei. Ela traduz uma inquietação profunda de muitos americanos com um sistema de imigração que não consegue administrar a imigração ilegal e com o uso desses imigrantes na economia americana, pois eles desempenham um papel valioso na nossa economia. O que o presidente tentará fazer é engajar o Congresso para superar essa distância. Como manter o compromisso coma lei e o reconhecimento de que, quando alguém para os Estados Unidos deve vir legalmente, deve ser empregado legalmente. E como você conecta isso ao respeito histórico que temos pelos migrantes e o reconhecimento da importância da imigração para nossa economia. Então, nós temos muito trabalho político para fazer. Mas, em relação ao Brasil, agora nós temos um índice de aceitação de emissão de vistos para os EUA de 95%, que é notável..

ÉPOCA – Quanto representa isso em relação a outros países?
Shannon –
É muito, muito alto. E isso significa que a economia brasileira cresce e, com a expansão da classe média, muito poucos brasileiros têm visto motivação para entrar nos EUA de forma ilegal. Primeiro, porque muitos preferem ficar por aqui. O número de brasileiros vivendo nos EUA está crescendo e não é por imigração ilegal. Esse crescimento tem sido movido por brasileiros que vão estudar nas universidades americanas, que vão trabalhar em empresas nos Estados Unidos…

ÉPOCA – …brasileiros investindo nos EUA?
Shannon –
Sim, também. Estamos vendo uma mudança do padrão de imigração de Brasil e EUA para algo semelhante ao que ocorre entre a União Europeia e os EUA. O que eu acho muito positivo
.
ÉPOCA – E quantos americanos têm vindo para o Brasil?
Shannon –
Muitos americanos têm vindo para cá, assim como muitos brasileiros têm ido pra lá. Há muitos empresários americanos vindo pra cá à procura de negócios ou possibilidades de investimentos. Mas também isso mudará com o tempo. Especialmente se o Brasil se tornar um grande foco da sociedade americana e as sociedades se conectarem umas as outras. Aí, vamos ver mais americanos aqui.

ÉPOCA – O governo americano tem feito esforços para promover o Brasil nos EUA?
Shannon –
Não especificamente. O governo brasileiro e as embaixadas e consulados do Brasil nos EUA já fazem um bom trabalho nesse sentido. Mas, com a Copa do Mundo e as Olimpíadas, o Brasil aparecerá no radar de muita gente para quem não aparecia antes.

ÉPOCA – Como o senhor vê o envolvimento brasileiro no Oriente Médio?
Shannon –
Primeiro, o interesse é bem-vindo. Segundo, à medida que o Brasil se consolida como um importante ator internacionalmente, é natural expressar interesse e buscar desempenhar um papel maior no Oriente Médio. E a economia e a política são dirigidas pelo comércio. E há interesses econômicos que conectam o Brasil à região, além da população de descendentes de imigrnates da região que vivem no Brasil. Então, eu acho que todas as questões estão empurrando o Brasil na direção do Oriente Médio. E isso é bom. Mas isso é também a razão por que defendo uma melhoria nas estruturas de diálogo. Porque, à medida que o Brasil começa a procurar caminhos para desempenhar um papel, tem de haver um reconhecimento de que esse papel tem de ser desempenhado em coordenação com todas as diferentes partes e interesses. E não somos só nós. Há os árabes, os europeus, os russos. É uma variedade de atores que exige um tipo de diplomacia 24 horas, em você precisa estar conectado todo o tempo.

ÉPOCA – E naturalmente isso se aplicaria também ao caso do Irã, não?
Shannon –
Nós temos diferenças em relação ao Irã. O ponto positivo é que ambos temos uma melhor compreensão dessa questão agora. No caso do Egito, por exemplo, tenho achado a posição brasileira cautelosa, prudente.

ÉPOCA – O que acontecerá no Egito?
Shannon –
Estou esperançoso em alguns aspectos. O Egito tem apresentado uma lição muito importante para o mundo. O povo egípcio encontrou uma maneira de derrubar um líder de modo relativamente não-violento e criou um espaço democrático. Esse espaço, se protegido e usado corretamente, vai gerar um governo moderno.

ÉPOCA – Um modelo de democracia no Oriente Médio?
Shannon –
Não digo um modelo. Deixemos de lado o modelo. Mas certamente teremos um governo que poderá mostrar que é viável fazer uma transição de uma ditadura para uma democracia, sem um dramático colapso social ou violência popular. E, se o Egito puder fazer isso, será extraordinário.

ÉPOCA – O Brasil tem a oportunidade de se tornar um exportador de urânio. Temos o potencial, grandes reservas, estamos a ponto de dominar o ciclo de enriquecimento. Isso lhe parece um risco?
Shannon –
Vejo como um produto natural do sucesso do compromisso brasileiro em relação ao uso pacífico de energia nuclear civil. O Brasil é um parceiro muito confiável em termos nucleares. Assinou tratados como o de Tlateloco. O uso pacífico está na sua Constituição. Tudo isso tornou muito claro como o Brasil vê a energia nuclear. Há muito que podemos fazer juntos, em cooperação. Isso mostra que, à medida que o Brasil aprofunda e desenvolve sua indústria nuclear, ela se tornará atraente para outros países.

ÉPOCA – E sobre o programa do foguete brasileiro, de lançamento de satélites?
Shannon –
Para o país com a capacidade e o tamanho do Brasil, o desenvolvimento de uma tecnologia dessas é natural.


Fonte: Revista Época

24 Comments

shared on wplocker.com