Defesa & Geopolítica

A Europa não precisa ficar mais alemã

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http://www.travel-destination-pictures.com/data/media/29/brandenburger-tor-germany_345.jpgSugestão Gérsio Mutti
DER SPIEGEL
David Gordon Smith

A chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, apresentaram aos líderes da UE em uma reunião em Bruxelas sua visão para salvar a zona do euro. O plano corajoso prevê que os países adotem medidas radicais para resolver suas finanças e reduzir a dívida –em suma, se tornarem mais alemães. E aí está a dificuldade, argumentam os comentadores alemães.

Até agora, a abordagem da chanceler alemã, Angela Merkel, para lidar com a crise do euro poderia ser descrita como hesitante. Ela foi fortemente criticada por não agir mais rápido na crise da Grécia, o que, segundo os observadores, aumentou muito o custo do pacote final de resgate.

Agora, a hesitação parece ser uma coisa do passado. A partir de sexta-feira (04/2), Merkel oficialmente tomou a liderança na salvação do euro. Junto com o presidente da França, Nicolas Sarkozy, ela apresentou seu plano para salvar a moeda comum em uma reunião de líderes da União Europeia em Bruxelas.

Chamada de “pacto pela competitividade”, a estratégia prevê que os 17 membros da zona do euro tomem passos amplos para harmonizar suas políticas econômicas e sociais. Como primeiro passo, Merkel redigiu um “programa de seis pontos”, que inclui medidas como adaptar as idades de aposentadoria em relação à expectativa de vida média de cada país, abolindo aumentos salariais automáticos indexados à inflação e harmonizando impostos sobre empresas. Merkel também quer que os outros países sigam o exemplo da Alemanha, adotando os chamados “freios de dívida”. (O freio alemão é uma emenda constitucional que exige que o governo virtualmente elimine o déficit estrutural até 2016). Os outros membros da UE que não estão na zona do euro também seriam convidados a unirem-se à iniciativa.

Merkel, em uma conferência à imprensa com Sarkozy na sexta-feira, disse que os membros da zona do euro trabalhariam junto com o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, para decidir quais pontos incluir no pacto até o final de março. Eles também convocaram uma reunião com líderes da zona do euro em março para discutir o pacto, mas sem estabelecer uma data. O encontro presumivelmente ocorreria antes da reunião de cúpula da UE, marcada para dias os 24 e 25 de março, de forma que o pacto pudesse ser acordado na reunião.

“A Alemanha e França estão firmemente comprometidas que 2011 seja o ano de confiança renovada no euro”, disse Merkel. “Queremos assegurar a convergência de diferentes economias europeias e, nas últimas semanas, reforçamos nossas discussões a esse respeito”, comentou Sarkozy na conferência com a imprensa. “Portanto, concordamos com um plano estrutural para responder aos desafios que a Europa enfrenta.”

Apostando na Alemanha

Para aprovar seu plano, Merkel está em forte posição de barganha, porque os outros países da zona do euro dependem da Alemanha, a maior economia da Europa, para custear os pacotes de resgate. A chanceler parece estar determinada que sua proposta de harmonização das economias seja aprovada em troca da aceitação pela Alemanha das emendas propostas ao fundo de resgate do euro da UE.

A proposta de Merkel, que foi apresentada a outros líderes da UE em uma sessão durante um almoço a portas fechadas na sexta-feira, deve dividir o bloco, porém. Na quinta-feira, o primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, expressou seu apoio ao pacto após seu encontro com Merkel em Madrid. A Comissão Europeia, contudo, se opõe à medida, pois envolve apenas os membros da zona do euro, e não todos os 27 Estados membros da UE, de acordo com um artigo do “Frankfurter Allgemeine Zeitung” de sexta-feira. A Comissão também seria contra as medidas para maior cooperação que estão sendo tomadas fora da estrutura existente dos tratados da UE.

O plano de Merkel também foi criticado como pouco realista. Elevar a idade da aposentadoria, por exemplo, provou-se uma questão incendiária em vários países e é improvável que seja possível sem significativo conflito político –algo que pode deixar outros líderes da UE temerosos de adotar o pacto de Merkel.

Na sexta-feira, os comentadores de jornais na Alemanha estudaram a estratégia de Merkel e tiraram conclusões diferentes sobre seus méritos.

O “Berliner Zeitung”, de esquerda, escreve:

“A Europa, supostamente, precisa se tornar mais alemã. Até recentemente, a sugestão de Merkel teria causado uma tempestade de protestos em Madrid, Atenas e Paris. Mas após um ano de crise do euro, qualquer coisa parece possível… Merkel vê seu ‘pacto pela competitividade’ como parte de um enorme acordo europeu que trocaria solidariedade pela estabilidade e o dinheiro alemão por reformas ao estilo alemão”.

“A união monetária, contudo, não pode ser salva assim. O que a chanceler está propondo é um pacto de insanidade. A Europa não precisa ser mais alemã –e sim de mais cooperação e comunidade. Não importa quão orgulhoso esteja o governo alemão quanto à recuperação da economia doméstica, suas deficiências são evidentes. O modelo alemão, que depende de um superávit comercial permanente, não é nem sustentável, nem transferível. Funciona como modelo para uma nação egoísta, que enche a vizinhança com seus produtos e serviços e exporta o desemprego às custas dos outros. Mas uma abordagem que pode funcionar para um país específico levará ao desastre quando todos a copiarem”.

O “Frankfurter Allgemeine Zeitung”, de centro-direita, escreve:

“Já há discordância entre o presidente francês Nicolas Sarkozy e Merkel no primeiro ponto do programa de seis pontos de Merkel, que visa abolir os aumentos salariais indexados. Se essa é a situação no início, como será no final? Na proposta para reduzir as discrepâncias entre os países, a Alemanha deveria reintroduzir a semana de 35 horas, a França aumentar sua idade de aposentadoria para 67, os gregos introduzirem um freio de dívida e os irlandeses aumentarem seu imposto sobre empresas? Mas um governo centralizado e intervencionista não vai permitir que a Europa compita em um nível global. Somente a competição entre os países pode alcançar isso –inclusive a competição para ver quem tem as melhores políticas econômicas.”

O “Süddeutsche Zeitung”, de centro-esquerda, escreve:

“O plano de Merkel passa a impressão para muitos governos que os alemães estão querendo ditar (o que os outros países devem fazer). Mas por que os europeus devem seguir Berlim, entre todos os governos? A resposta é simples: Merkel quer explorar a atual situação. No momento, a Alemanha, como país próspero, tem uma chance de estabelecer as regras. Todos sabem que a união monetária estaria terminada sem a Alemanha. Sem ela, não haveria pacotes de resgate para países da zona do euro, e não haveria confiança nos mercados financeiros.”

“Ainda assim, a chanceler está fazendo um jogo perigoso. Ela quer tudo ou nada. Ela quer que o pacote seja aprovado por inteiro, ou nada. De acordo com seu projeto, outros países europeus precisam adotar a cultura alemã de estabilidade. Precisam reformar seus mercados de trabalho, sistemas de saúde, impostos e salários, assim como reduzir suas dívidas. Caso se recusem, Merkel não vai fornecer as garantias alemães para pacotes de resgate. Para alguns líderes, isso pode parecer uma demonstração de falta de solidariedade. Mas de fato, (a abordagem de Merkel) é muito inteligente. Berlim precisa explorar a pressão criada pela crise para promover as reformas necessárias que permitirão que a união monetária sobreviva.”

Tradução: Deborah Weinberg

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