Defesa & Geopolítica

O que enfraquece a China

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Para muitos, parece que chegou o século da China. O país se tornou o centro de uma rede mundialmente integrada de fornecimento de produtos manufaturados, o maior credor e exportador do mundo e a segunda maior potência econômica em termos de produto interno bruto. Na próxima década, seu crescimento pode gerar um PIB maior do que o dos EUA e aumentar a renda per capita de US$ 3.700 (R$ 6.323) para cerca de US$ 13 mil (R$ 22.217). Mas ainda é prematuro concluir que a China logo se transformará na maior superpotência global.

Primeiro, o desenvolvimento da China atingiu um ponto em que uma nova rodada de extensivas reformas econômicas, sociais e principalmente políticas são necessárias para impulsionar o país adiante. (O primeiro-ministro britânico David Cameron apontou timidamente para isso durante sua visita ao país em novembro.) Comparadas às reformas de mercado que começaram em 1978, depois da morte de Mao Tsé-Tung, estas reformas seriam mais drásticas, ameaçariam mais o domínio do Partido Comunista e seriam mais desafiadoras para as normalmente frágeis instituições chinesas.

Em segundo lugar, embora a ascensão da China seja amplamente admirada, também é vista com suspeita – não só no Ocidente, mas também na Índia e em outras nações da Ásia, que tentarão colocar obstáculos no caminho da China.

Um grande obstáculo é a crise financeira global. Os países ricos, que ainda respondem por cerca de três quintos da produção mundial, estão passando por um período de austeridade. O valor monetário de seu PIB poderá se expandir em cerca de 3% ao ano durante a próxima década, em comparação ao dobro dessa taxa durante o longo período de expansão antes da crise. Isso representará um grande choque econômico para a economia de exportação da China. Como uma corda de bungee jump, a produção voltou a subir depois de descer ao chão em 2009 – mas esta é apenas uma retomada antes de uma nova queda.

Além disso, se as nações devedoras do Ocidente, incluindo os EUA e a Inglaterra, forem obrigadas a reduzir a dívida privada e pública, o sistema global só funcionará bem se a China, o maior credor do mundo, economizar menos. Por enquanto, a poupança bruta de 53% do PIB da China impulsiona seu grande superávit comercial, que gera cada vez mais tensões globais por causa de sua taxa de câmbio e políticas econômicas.

Esses “desequilíbrios globais” não resolvidos não estão apenas no cerne da crise financeira, mas também por trás das recentes “guerras monetárias” e da incidência crescente do protecionismo sobre o comércio e as contas de capital. De acordo com o grupo independente de monitoramento Global Trade Alert, o Grupo dos 20 países que se encontraram em Seul em meados de novembro responde por mais de 400 medidas de restrição ao comércio implementadas nos últimos dois anos. China, Brasil e África do Sul, entre outros, estão segurando suas moedas e restringindo ou impondo controles sobre o influxo de capital estrangeiro.

Resumindo, portanto, o modelo de desenvolvimento da China precisa mudar se o país quiser continuar prosperando. Seus líderes precisam levar os avanços econômicos das cidades ricas para o interior negligenciado, das regiões costeiras avançadas para as cidades menos desenvolvidas, e dos investimentos na indústria e produtos manufaturados para a demanda dos consumidores e o setor de serviços.

A China também terá de transferir a renda e a formação de riquezas das companhias para os consumidores, adotando uma taxa de câmbio mais flexível e permitindo o desenvolvimento de taxas de juros determinadas pelo mercado. Ela terá que aumentar os salários e ampliar a seguridade social e o sistema de saúde. E terá que reformar as empresas estatais para permitir que elas transfiram os lucros de volta para os lares por meio do pagamento de dividendos.

No rascunho do “12º Plano de Cinco Anos”, que deve ser aprovado na primavera de 2011, a China começará a debater reformas nessas linhas, assim como propostas para o aumento dos preços da terra, energia e água para combater a degradação ambiental e a poluição. Mas parece pouco provável que aconteça uma reforma radical antes que a nova liderança se instale no poder em 2012. A forma como a China progredirá será responsabilidade do sucessor de Hu Jintao, Xi Jinping, um engenheiro hidráulico de formação e recentemente nomeado para a sucessão, que já governou duas províncias costeiras, Fujian e Zhejiang. Xi, relativamente desconhecido, não é tão respeitado ou experiente quanto a maioria de seus predecessores. Para muitos observadores da China, ele parece uma escolha segura – e não um reformista radical.

O tema principal, entretanto, não é a necessidade de mudança, mas sim se o Partido Comunista tem disposição para isso. Estima-se que até 100 mil incidentes de revoltas aconteçam a cada ano no país, o que o sociólogo Yu Jianrong chama de “incidentes de manifestação expontânea” contra salários, condições sociais, corrupção e injustiça. A mudança econômica e política será ainda mais perturbadora e potencialmente impopular.

Ao mesmo tempo, no mundo, a assertividade da China está começando a encontrar uma resistência maior. A China pediu veementemente uma reforma da governança financeira global, das políticas de instituições como o Fundo Monetário Internacional e do papel do dólar norte-americano. Ela está construindo uma nova Estrada da Seda, que se estende para o Oriente Médio e a África, onde ela troca o apoio político, produtos e conhecimento pelo acesso a recursos naturais essenciais. Enquanto maior emissor de dióxido de carbono do mundo, a China é essencial para as negociações da mudança climática, e também está desenvolvendo uma posição de liderança em tecnologias de baixo carbono.

Não são apenas os EUA que veem essa nova China com suspeita, mas também a Índia e o Japão, entre outros. A recente colisão de um barco de pesca chinês com duas embarcações da patrulha japonesa próximo às disputadas Ilhas Senkaku – um pequeno arquipélago na costa nordeste de Taiwan – fez com que o ministro de Exterior do Japão, Seiji Maehara, questionasse se agora os países estão vislumbrando “a essência da China”.

Suas preocupações não foram atenuadas pelo anúncio, em outubro, de um embargo chinês sobre a venda de metais raros, que são usados em tecnologias modernas, e sobre os quais a China praticamente tem o monopólio. Nem foram atenuadas pela expansão da capacidade naval da China, e de sua aquisição incansável de partes de companhias e de recursos naturais globais, incluindo as areias petrolíferas do Canadá, a maior companhia de gás metano da Austrália, no setor de óleo e gás do Brasil e nos setores náutico, de telecomunicações e de imóveis da Grécia.

Uma reforma interna bem sucedida transformará a China num ator menos irritadiço no cenário mundial. Mas esse sucesso não está de nenhuma forma garantido; ele exigirá mudanças substanciais nas leis, na política e nas instituições chinesas. Estas mudanças seriam apropriadas para uma economia moderna com uma classe média economicamente empoderada, mas podem ser uma ponte muito distante para o ainda confucionista, embora não mais marxista, Partido Comunista.

Se o partido – que é dividido entre a facção liberal e conservadora – mostrar-se disposto a ceder o controle, então ele próprio perde, mas todos os demais ganham. Se o partido não estiver disposto a mudar, uma China mais fraca e mais nacionalista irá comprometer seu futuro e trazer instabilidade ao mundo.

(George Magnus é autor de “Uprising: Will Emerging Markets Shape or Shake the World Economy?”)

Tradução: Eloise De Vylder

Fonte: UOL

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