Defesa & Geopolítica

Análise: Vazamento de segredos no WikiLeaks obriga países a repensar a diplomacia

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http://mediamemo.allthingsd.com/files/2010/03/wish-you-were-here.jpgSugestões: Gérsio Mutti

Autor(es): Andrei Netto O Estado de S. Paulo – 05/12/2010

EUA e França reorganizarão a transmissão de documentos diplomáticos, tornando seus sistemas de comunicação de embaixadas e consulados mais seguros; veteranos da carreira diplomática, porém, garantem que não há como mudar o tom dos despachos secretos

O soldado americano Bradley Manning, de 22 anos, vive hoje em uma “solitária”, à espera do julgamento em corte marcial em 2011. Antes de ser isolado do mundo, porém, o jovem teve acesso, durante 14 horas por dia, sete dias por semana, ao longo de oito meses, a uma rede gigantesca de informações secretas do Departamento de Estado americano a partir de seu posto de trabalho, em Bagdá.

Ao decidir apagar os arquivos MP3 de Lady Gaga e copiar em seu lugar 1,6 gigabytes de dados em um CD regravável, Manning protagonizou o maior vazamento de informações da história.

Nas mãos do australiano Julian Assange e do site WikiLeaks, esses 250 mil relatórios escritos por diplomatas de embaixadas dos Estados Unidos vieram à tona no último domingo e, desde então, já começam a mudar o modo de se fazer diplomacia.

Por ordem de Washington, computadores cedidos pelo Departamento de Estado a diplomatas que redigem relatórios confidenciais não mais contarão com tecnologias banais, como os drives USB para pen drives. A decisão é adotar “uma solução temporária para mitigar os riscos futuros de que dados confidenciais sejam movidos por funcionários para sistemas não seguros”, segundo nota distribuída pelo Departamento de Estado americano.

Além disso, o número de computadores que terão acesso aos sistemas que armazenam informações “sensíveis” será brutalmente reduzido no Pentágono, por decisão do secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates. As medidas são as primeiras adotadas pelo governo americano e formam parte de uma série de soluções de curto, médio e longo prazos que vêm sendo adotadas ou estudadas em todo o mundo nos últimos meses para aprimorar a segurança de dados sigilosos.

Novas normas. Esses procedimentos já estão em curso na França, por exemplo. De acordo com o porta-voz do governo do presidente Nicolas Sarkozy, François Baroin, desde a revelação dos dados pelo WikiLeaks, o Palácio do Eliseu vem colocando em prática medidas para evitar a perda de informações.

“O vazamento terá por consequência redefinir as modalidades de transmissão de documentos de natureza diplomática no interior do dispositivo da chancelaria francesa”, revelou.

Entre diplomatas ouvidos pelo Estado, a preocupação com o sigilo é tangível – até mesmo entre brasileiros. Bruno Carrilho, ex-conselheiro Político da Embaixada do Brasil em Paris, citado em um dos telegramas divulgados pelo site WikiLeaks, admitiu na noite de quarta-feira que a fuga de dados pelo Departamento de Estado americano levou todos na profissão a questionarem eventuais procedimentos que possam resultar em novos e constrangedores vazamentos. “Neste momento, nós, diplomatas, estamos no olho do furacão. É um momento de reflexão para todos nós”, disse Carrilho.

No meio diplomático europeu, imagina-se que os vazamentos farão crescer a prudência nas relações entre colegas de países diferentes. Uma das preocupações é a de assegurar aos interlocutores a credibilidade dos sistemas de comunicações.

Para François Nicoullaud, ex-embaixador da França em países sensíveis como o Irã, os vazamentos do WikiLeaks põem em perigo um dos princípios mais importantes da diplomacia: o sigilo. “Se quisermos ser transparentes e objetivos nos nossos relatos, precisamos ter a garantia do segredo”, argumentou. “A liberdade de análise e de discrição do diplomata é muito importante para que os líderes políticos tomem decisões acertadas.”

Já Antoine Blanca, ex-embaixador francês em alguns países da América Latina, vê as relações internacionais expostas neste momento, circunstância que pode ter implicações práticas.

Limites. De acordo com ele, sistemas de informação mais complexos – já existentes – serão adotados para garantir a segurança da comunicação diplomática. Já a linguagem empregada nos relatos, acredita Blanca, não mudará – porque não pode. “Há relatos, muitos dos quais sensíveis, que precisam ser feitos entre um embaixador e seus superiores. Não é possível codificar todas as informações.”


PARA LEMBRAR

No dia 22, o WikiLeaks avisou, por meio de sua conta no site de microblogs Twitter, que publicaria na internet “uma quantidade de documentos sete vezes maior do que o conteúdo revelado sobre a guerra no Iraque”, quando 400 mil documentos sigilosos foram parar na rede. Quatro dias depois, o dono do WikiLeaks, Julian Assange, enviou uma carta ao Departamento de Estado americano pedindo informações sobre funcionários do governo que pudessem estar em locais nos quais suas vidas fossem colocadas em risco no momento da publicação. No dia 28, alguns jornais europeus e americanos começaram a ter acesso privilegiado ao conteúdo, antes que os mais de 250 mil documentos fossem colocados no site do WikiLeaks.

Fonte Estadão via Ministério do Planejamento

EUA expandiram espionagem direta, revelam telegramas vazados pelo WikiLeaks

ANDREA MURTA
DE WASHINGTON

A avalanche incessante de informações vinda à tona com o vazamento de documentos dos EUA no site WikiLeaks expôs ao menos uma evolução importante das práticas da diplomacia americana: a expansão das tarefas de espionagem direta.

Diplomatas foram orientados a coletar dados biométricos, números de cartões de crédito e até DNA de autoridades estrangeiras.

Os pedidos foram requisitados a diplomatas alocados em diversos países, e chegaram até à ONU (Organização das Nações Unidas), onde a prática é expressamente proibida por convenções.

As ordens foram feitas em nome da secretária de Estado, Hillary Clinton, e da embaixadora do país na ONU, Susan Rice.

As revelações estão no seio dos cerca de 250 mil despachos diplomáticos sigilosos dos EUA que estão sendo publicados gradualmente no WikiLeaks há uma semana.

Não surpreende que diplomatas façam coleta de dados –é parte intrínseca do trabalho–, mas ficou claro que os limites entre diplomacia e espionagem estão em uma zona cada vez mais cinzenta.

“Posso dizer que nunca recebi nem ouvi falar de um pedido desse tipo em meus 36 anos no Departamento de Estado”, disse à Folha o diplomata americano aposentado Howard Schaffer, 81, atual conselheiro do Instituto para Estudo da Diplomacia da Universidade Georgetown.

“Claro que pediam informações, mas não esses dados. Me parece algo novo”, afirmou.

Para alguns analistas, o esforço dos EUA em grampear amigos e inimigos é uma resposta à perda gradual de poder e influência.

Seumas Milne, colunista e editor do jornal britânico “The Guardian”, afirma que as ações “mostram como o império americano começou a perder o rumo quando o momento do mundo unipolar pós-Guerra Fria passou, Estados antigamente dependentes como a Turquia resolveram andar sozinhos e poderes regionais como a China começaram a fazer sua presença global mais sentida”.

Fred Burton, ex-membro dos serviços de segurança diplomáticos e atual analista da empresa de inteligência Stratfor, diz que a avaliação tem limites. “Varia de acordo com as relações diplomáticas com cada país.”

O Departamento de Estado dos EUA tentou minimizar o impacto das revelações. “Nossos diplomatas não são ativos de inteligência”, disse o porta-voz P.J. Crowley. “Eles coletam algumas informações, como fazem diplomatas de todos os países.”

Há quem argumente que o caso apenas escancarou uma prática antiga. “As linhas entre a diplomacia e a espionagem sempre foram tênues”, disse James Lindsay, vice-presidente sênior do Council on Foreign Relations (CFR). “Alguns tipos de dados não eram possíveis de ser coletados no passado, a diferença está aí”, complementa.

Roberto Abdenur, ex-embaixador do Brasil nos EUA, diz que sempre falou ao telefone e fez comunicações em Washington “partindo do princípio de que estava tudo grampeado”.

Segundo ele, é “notório que os EUA são particularmente ativos em espionagem internacional”.
O fato de que espionam aliados também seria normal. Para Burton, “não existe processo de inteligência amigável”. “Nessas horas, não existem aliados.”

Fonte: Folha de São Paulo

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