Defesa & Geopolítica

Belicistas do mundo, uni-vos

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Sugestão: Roberto Correia Matos

Por John Pilger

Há alguma diferença entre os líderes da Austrália e os três principais candidatos nas eleições britânicas quanto a atitudes para com a guerra?

Ao examinar a vasta secção de história militar da loja do aeroporto, tenho uma opção: a ousadia de psicopatas ou volumes académicos com a sua ilícita devoção ao culto da matança organizada. Não havia nada que eu reconhecesse como reportagem de guerra. Nada sobre o espectáculo de pernas de crianças penduras em árvores e nada sobre a carga de merda nas suas calças. A guerra é uma boa leitura. A guerra é divertida. Mais guerra, por favor.


Em 25 de Abril, na véspera de sair da Austrália, sentei num bar por baixo das grandes velas do Sydney Opera House. Era o Anzac Day, o 95º aniversário da invasão da Turquia Otomana por tropas australianas e neozelandesas às ordens do imperialismo britânico. O resultado foi uma proeza incompetente de sacrifício sangrento conjurado por Winston Churchill, mas é celebrado na Austrália como um feriado não oficial. O noticiário da noite da ABC volta sempre às praias sagradas da Gallipoli, onde, este ano, até 8000 nativos dos antípodas envoltos em bandeiras ouviram, com os olhos húmidos, a governadora geral da Austrália, Quentin Bryce, que é um vice-rei da Rainha, descreve o inútil assassínio em massa. Foi, disse ela, sobretudo um “acto de amor à nação, ao serviço, à família, o amor que nos permitimos receber. É um amor que rejubila na verdade. Suporta tudo, acredita em tudo, espera tudo, aguenta tudo. E nunca falha”.


Você será um homem, meu filho.


De todas as tentativas de justificar o assassínio pelo estado de que me posso recordar, esta idiotice de terapia “faça você mesmo”, destinada claramente ao jovens, ganha o primeiro prémio. Nem uma única vez Bryce honrou os caídos com as duas palavras que os sobreviventes de 1915 trouxeram consigo para casa: “Nunca outra vez”. Nem uma única vez ela se referiu à verdadeiramente heróica campanha anti-conscrição, conduzida pelas mulheres, que obstruiu o fluxo de sangue australiano na Primeira Guerra Mundial, o produto não de uma estupidez que “acredita em tudo”, mas da ira em defesa da vida.


O tópico seguinte no noticiário da TV foi um ministro da Defesa australiano, John Faulkner, com as tropas no Afeganistão. Banhado sob a luz de por do sol perfeito, ele fez a ligação do Anzac à invasão ilegal do Afeganistão na qual, em 12 de Fevereiro do ano passado, soldados australianos mataram cinco crianças. Não foi feita qualquer menção a eles. No momento correcto, isto foi seguido por uma notícia de que um memorial de guerra em Sydney fora “destruído por homens com aparência do Médio Oriente”. Mais guerra, por favor.


No bar do Opera House, um jovem usava medalhas de campanha que não eram suas. Essa é a moda agora. Esmagando seu copo de cerveja no chão, ele pisoteou sobre os restos, os quais foram limpos por um outro jovem que os locutores da TV diriam ter aparência do Médio Oriente. Mais uma vez, a guerra é um extremismo elegante para aqueles enganados pela noção eduardiana de que um homem precisa provar-se “sob fogo” num país cujo povo ele despreza como “gooks” ou “cabeças com trapos” (“ragheads”) ou simplesmente “escória” (“scum”). (No presente inquérito publico em Londres sobre a tortura e o assassínio de um recepcionista iraquiano de hotel, Baha Mousa, por tropas britânicas foi dito que “a atitude mantida” era de que “todos os iraquianos eram escória”.)


Há uma dificuldade. Desta vez, no nono ano da invasão tipicamente eduardiana do Afeganistão, mais de dois terços das populações dos invasores querem que as suas tropas saiam do lugar onde não têm o direito de estar. Isto é verdadeiro para a Austrália, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, o Canadá e a Alemanha. O que isto significa é que, por trás da fachada dos media de ritual politizado – tais como o cortejo de caixões através de Wootton Bassett – milhões de pessoas estão a confiar na sua própria inteligência crítica e moral e a ignorar a propaganda que tem militarizado a história contemporânea, o jornalismo e a política parlamentar — o primeiro-ministro da Austrália, por exemplo, Kevin Rudd, descreve a condição militar como sendo a “mais elevada profissão” do país.


Aqui na Grã-Bretanha, Polly Toynbee bajula o criminoso de guerra Tony Blair como “o emblema perfeito para os impulsos contraditórios do seu próprio povo”. Não, ele era o emblema perfeito de uma intelligentsia liberal preparada cinicamente para desculpar o seu crime. Isto não é dito na campanha eleitoral britânica, nem tão pouco o facto de que 77 por cento do povo britânico quer as tropas de volta à casa. No Iraque, devidamente esquecido, o que foi cometido é um holocausto. Mais de um milhão de pessoas estão mortas e quatro milhões foram expulsas dos seus lares. Nem uma única menção disto foi feita em toda a campanha. Ao invés disso, o noticiário diz que Blair é a “arma secreta” dos trabalhistas.


Todos os três líderes partidários são belicistas. Nick Clegg, o querido dos antigos amantes de Blair, afirma que, como primeiro-ministro, “participará” em outra invasão de um “estado fracassado” desde que haja “o equipamento certo, os recursos certos”. A sua única reserva é a genuflexão padrão perante militares agora escandalizado por uma crueldade colonial em que o caso Baha Mousa é apenas um entre muitos.


Para Clegg, assim como para Brown e Cameron, as armas horríficas utilizadas pelas forças britânicas, tais como bombas de estilhaçamento (cluster), urânio empobrecido (depleted uranium) e o míssil Hellfire, o qual suga o ar para fora dos pulmões das suas vítimas, não existem. As pernas de crianças penduradas em árvores não existem. Só este ano, a Grã-Bretanha gastará £4 mil milhões [€4,54 mil milhões] na guerra do Afeganistão. Que é o que Brown e Cameron quase certamente pretendem cortar do serviço de saúde.


Edward S Herman explicou este refinado extremismo no seu ensaio “A banalidade do mal”. Há uma estrita divisão de trabalho, que vai desde os cientistas a trabalharem nos laboratórios da indústria de armas até o pessoal da inteligência e da “segurança nacional” que fornece a paranóia e as “estratégias”, aos políticos que as aprovam. Quanto aos jornalistas, a nossa tarefa é censurar por omissão e fazer os crimes parecerem normais para você, o público. Pois, acima de tudo, é o seu entendimento e o seu despertar que eles temem.

05/Maio/2010

O original encontra-se no Newstatesman e em http://www.countercurrents.org/pilger050510.htm

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