Defesa & Geopolítica

Opinião: A América Latina na Idade da Lata

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Mais uma cúpula, a Cúpula da Unidade da América Latina e do Caribe, que se realiza em Cancún, no México, o que me leva a refletir sobre o continente. A América Latina nunca sequer viveu uma Idade de Bronze da democracia. Nunca fez uma Revolução Americana (1776), que tornou os Estados Unidos independentes e os colocou, naquela época, na vanguarda dos direitos, com a adoção de uma República Federal, com bastante autonomia para os Estados e poder relativo para a União. A primeira revolta colonial contra a metrópole, Inglaterra, que projetou o país no mundo e reinventou o capitalismo.

Os latino-americanos sequer fizeram uma revolução do porte da haitiana, em 1804, que fundou primeira a República negra do mundo. A América Latina não implantou plenamente, até hoje, os princípios e desenho de poder criado pela Revolução Francesa de 1789. No continente, o poder executivo controla o legislativo e o judiciário. O absolutismo dos governantes e a cobrança opressiva de impostos dos assalariados não provocam revoluções, mas, resignação.

A América Latina sobrevive da exportação de commodities, produtos de base em estado bruto (matérias-primas) ou com pequeno grau de industrialização. Hoje, por exemplo, o Brasil está nas mãos da China, que lhe compra hard commodities, como o minério de ferro. O Brasil exporta igualmente soft commodities como soja e outros. Talvez a pobreza tenha – num beco sem saída – criado ditadores, caudilhos, golpes de Estado, corrupção, presidentes “fortes” etc. O Brasil não consegue liderar o continente, exercendo – pejo crescimento econômico recente e tamanho – papel no máximo estabilizador.

Na reunião em Cancún, um dos temas é a exclusão dos Estados Unidos da Organização dos Estados Americanos – a OEA, ou a criação de uma OEA do B, sem aquele país. É o ressentimento histórico – pertinente mas não produtivo. A América Latina deveria agir e não reagir. Até hoje, reage, com exceção recente de países como o Brasil e Chile – este com uma economia com tamanho equivalente à da cidade de Ribeirão Preto, em São Paulo. Por isso, o subcontinente experimenta crônica Idade de Lata econômica.

Não existe unidade política nas Américas. Qualquer tentativa é artificial. O Mercosul é um fracasso. Uma centena de intelectuais escolheu os dez mais importantes nomes do continente, ano passado, numa enquete promovida pelo “El País”. Não há um brasileiro. Os hispano-americanos não entendem português. E tampouco se entendem entre si – por exemplo, chilenos, bolivianos e peruanos têm contensioso insuperável. Cito alguns dos nomeados pelo júri do jornal espanhol: Simón Bolívar, Che Guevara, José Martí, Jorge Luis Borges e Fidel Castro. Castro é o único que, nos anos 1960, tentou alguma coisa nova, com a Revolução Cubana, embora tutelada pela extinta União Soviética. Cuba  é – há muito tempo – uma ditadura vulgar.

Essa nova Cúpula de Cancún me traz à tona as palavras de Sergio Guerra Vilaboy: “É curioso, para dizer paradoxal, que essa área do planeta que reuniu mais condições históricas para sua integração, em virtude de idioma, religião, história e cultura mais ou menos semelhantes, seja a que menos de integrou”. A Cúpula de Cancún é mais um exemplo disso. Um desfile de líderes capengas.

Fonte:Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo

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