Defesa & Geopolítica

O que restou da “guerra ao terrorismo”

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Por: Rogério Simões

O mundo mudou tanto nos últimos dois anos que é fácil se esquecer dos tempos da chamada “guerra ao terrorismo”, quando o então governo de George W. Bush dividiu o globo entre os que estavam do lado dos Estados Unidos e os que estavam contra. A rede Al-Qaeda havia destruído o World Trade Center, em Nova York, e continuava inspirando outros grupos de radicais que promoviam atentados em Madri, Londres, Bali, Casablanca etc.

Oito anos depois do 11 de Setembro, bombas continuam explodindo em alguns países e matando civis em grande número. Mas elas estão cada vez mais ligadas a disputas internas, com grupos armados (classificados normalmente de rebeldes ou insurgentes) questionando a autoridade local ou nacional de um país, seja ele o Afeganistão ou o Iraque, ambos ainda ocupados por forças estrangeiras, ou o Paquistão. A palavra “terrorismo” está cada vez menos presente no noticiário internacional, e os Estados Unidos já não usam mais o termo “guerra ao terror”. O mês de setembro é agora mais associado ao colapso financeiro de 2008, e não mais ao desabamento das torres gêmeas.


Diante desse novo quadro, em que crise econômica e aquecimento global tomam as manchetes dos jornais, muitos, especialmente aqui na Grã-Bretanha, se perguntam por que a aliança militar ocidental Otan continua lutando uma guerra interminável no Afeganistão. Na visão de analistas, o governo britânico enfrenta dois grandes problemas no conflito: a aparente impossibilidade de derrotar militarmente o Talebã e a dificuldade em justificar a guerra à opinião pública. Por isso, o premiê Gordon Brown viu-se obrigado a vir a público, nesta sexta-feira, para dizer que “um Afeganistão seguro significa uma Grã-Bretanha segura”. Os “terroristas” da Al-Qaeda estão há anos no vizinho Paquistão, por isso muitos questionam o que afinal a Otan continua fazendo do outro lado da fronteira. Mas Brown não entrou nessa discussão. Seu discurso, como escreveu o analista da BBC Paul Reynolds, repete a tradição de que um chefe de governo discursa sobre uma guerra apenas quando seu país está em apuros.


Desde 2001, 212 soldados britânicos morreram no Afeganistão, em comparação com 179 vítimas fatais na guerra no Iraque. Metade das mortes enfrentando os insurgentes afegãos ocorreu nos últimos 12 meses, com praticamente um britânico morto por dia atualmente. É um peixe difícil de vender para um país mergulhado na pior crise econômica do Pós-Guerra. Ainda mais perigoso para uma nação que, daqui a menos de um ano, terá a chance de, se quiser, trocar de governo.

Gordon Brown disse que a missão no Afeganistão, cujas recentes eleições presidenciais continuam sem resultado e sob acusação de fraude, “faz parte de uma estratégia internacional”. É verdade que os Estados Unidos estão também, e ainda mais, atolados nesse lamaçal. Por isso Barack Obama sente pressão da opinião pública americana, mas nada perto do que foi a guerra no Iraque para Bush. E Obama não terá eleição no ano que vem, o que deve desperar uma certa inveja em Brown. Ambos os líderes têm muitos outros abacaxis para descascar, como o desemprego ainda crescente em seus países e o aquecimento global. Uma guerra disputada há oito anos em um país que nem mesmo Alexandre, o Grande conseguiu dominar, baseada no antigo mote da “guerra ao terrorismo”, torna o trabalho dos dois ainda mais difícil.


Fonte: BCC Brasil

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