Defesa & Geopolítica

Venezuela: o porta-aviões do Kremlin

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Tanques de fabricação russa desfilam em Caracas, Venezuela, para mostrar sua força de repressão ao povo, em julho de 2018, dois meses depois da controversa reeleição de Nicolás Maduro (Foto: Federico Parra, AFP)

A Rússia incrementa a cooperação militar com o regime chavista para reivindicar seu papel de líder mundial.
Julieta Pelcastre/Diálogo

A Força Armada Nacional Bolivariana busca reforçar suas capacidades de defesa, enquanto a Venezuela passa por uma profunda crise econômica e institucional. A Rússia, sua aliada e sócia, está disposta a equipar o país com novos armamentos para ganhar espaço militar na região latino-americana.

“O objetivo é manter no poder o líder chavista Nicolás Maduro a qualquer custo, para aumentar a influência militar e econômica do novo ator no hemisfério”, disse à Diálogo Jorge Serrano Torres, analista de inteligência estratégica e acadêmico do Centro de Altos Estudos Nacionais do Peru. “A agenda social, democrática e de direitos humanos não interessa a esses dois países.”

A Marinha Bolivariana informou à imprensa que “o reequipamento representa um incremento substancial das capacidades de defesa das unidades do Corpo de Fuzileiros Navais destinadas às operações fluviais, especialmente nas regiões de fronteiras.” Serrano acrescentou que a Rússia também está interessada na cooperação técnico-militar a nível operacional.

Mensagens ao hemisfério

A partir de 2000, o componente naval venezuelano passou a receber altos investimentos para incorporar embarcações, helicópteros, veículos blindados, sistemas de comunicações, material de artilharia, bem como efetuar a modernização de seus dois submarinos e a expansão da sua indústria naval. O fato de armar a Venezuela transmite claras mensagens aos países do hemisfério.

“A mensagem russa é reivindicar o papel de líder global. A mensagem venezuelana tem dois sentidos: mostrar a sua capacidade de se defender no caso de uma intervenção externa – embora saibamos que essa situação é difícil de acontecer – e presentear a Rússia como sua grande parceira; ou seja, a Venezuela se tornou a porta de entrada para que o país eslavo mantenha um pé no hemisfério”, disse à Diálogo Yadira Gálvez Salvador, especialista em defesa e segurança e acadêmica da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).

A Rússia é o principal país fornecedor de armamento militar para a Venezuela. “Apesar do embargo de armas por parte da comunidade internacional, a Venezuela ainda é o principal importador latino-americano de armamentos”, garantiu Serrano.

A Rússia forneceu às forças militares venezuelanas fuzis, helicópteros de transporte, sistemas de mísseis antiaéreos, tanques, veículos, aeronaves de combate de última geração e navios de guerra. O país ainda financiou a construção do centro de manutenção de helicópteros russos, que começou a funcionar na Venezuela em 2013, e a fábrica de fuzis Kalashnikov, que deve entrar em operação no final de 2019. Em sua visita a Moscou em dezembro de 2018, Maduro assinou diversos contratos, entre eles a compra de um sistema global de navegação por satélite e o atendimento, a assistência e os reparos de equipamentos militares venezuelanos por especialistas russos.

No dia 10 de janeiro de 2019 Maduro disse, durante a cerimônia de posse do seu segundo mandato (2019-2025), que nos próximos seis anos ele reforçará o poder militar e a capacidade da sua força armada. “Um dirigente que arma suas forças militares em meio à profunda crise por que passa seu país, uma crise humanitária que não permite acesso aos itens básicos de alimentação, só protege a segurança do regime [chavista] e não a das pessoas”, destacou Gálvez.

Para reafirmar seu poderio militar na região latino-americana, em dezembro de 2018 a Rússia enviou à Venezuela dois bombardeiros da Força Aérea. Além disso, planeja utilizar os portos marítimos e os aeródromos venezuelanos para fortalecer as capacidades operacionais de seus soldados”, disse à DiálogoLuis Gómez, sociólogo e acadêmico da Faculdade de Ciências Políticas da UNAM.

Ao contrário das relações entre a Rússia e a Venezuela, os Estados Unidos, junto com as forças armadas das nações parceiras, realizam exercícios multinacionais com foco na assistência humanitária, interoperabilidade e segurança da região, como o Ángel de los Andes e o AMAZONLOG17. Graças a esses treinamentos, o Sistema de Cooperação das Forças Aéreas Americanas respondeu com rapidez e eficiência quando o Equador solicitou ajuda, depois do terremoto de magnitude 7,8 que abalou o país no dia 16 de abril de 2016.

A polícia de combate aos tumultos da Venezuela enfrentou manifestantes antigovernistas no dia 21 de janeiro de 2019, depois que um grupo de soldados se insurgiu contra Nicolás Maduro. (Foto: Federico Parra, AFP)

Corrupção e autoritarismo

A partir das sanções econômicas que os Estados Unidos e a União Europeia impuseram à Rússia, a Venezuela se tornou uma ficha importante para os russos, não apenas no âmbito militar, mas também no econômico. “Os vizinhos latino-americanos acreditam que o fato de uma potência apoiar o regime venezuelano prolonga o regime ditatorial que mantém o país submerso na miséria, desnutrição, violência e insegurança, e permite que o crime organizado e suas atividades conexas se enraízem no país”, garantiu Gálvez.

A Rússia prestou favores milionários à Venezuela que, em troca, entregou os recursos do país. A economia venezuelana, baseada no petróleo, enfrenta uma grave crise desde 2010, então sob a presidência de Hugo Chávez. No entanto, Maduro atribui a crise do país às sanções aplicadas. “A situação econômica na qual a Venezuela caiu é produto da corrupção, da má gestão e das políticas antidemocráticas do regime de Nicolás Maduro. A ajuda russa é apenas um alívio para a ditadura venezuelana”, declarou Serrano.

Tragédia humanitária

Os países e as organizações internacionais exortam o regime chavista a pôr um fim às violações aos direitos humanos, a respeitar a autonomia dos poderes do Estado e a assumir sua responsabilidade pela grave crise conjuntural e setorial que o país vive para restabelecer a ordem. Argentina, Brasil, Canadá, Colômbia, Peru, Paraguai e Estados Unidos foram os primeiros países a não reconhecer o novo mandato de Maduro e a ameaçar romper suas relações diplomáticas junto à Organização dos Estados Americanos, em função da eleição do dia 20 de maio de 2018, imposta através de um processo eleitoral sem legitimidade. Apenas quatro países latino-americanos compareceram à cerimônia de posse de Maduro: Bolívia, Cuba, El Salvador e Nicarágua.

A atitude desafiadora sem respeito ao ordenamento político e democrático dos governos russo e venezuelano já gerou a tragédia humanitária do exílio de milhares de venezuelanos. “Agora a Venezuela é o principal foco da desestabilização política e da segurança humana na América Latina”, disse Serrano. “É o ‘porta-aviões’ russo que facilita as operações ilegais dos grupos subversivos e terroristas que poderão afetar a estabilidade social, política e econômica dos demais países, e até mesmo a paz e a segurança internacionais.”

Fonte: Diálogo Américas*

 

*Diálogo Américas é uma publicação do Comando Sul dos Estados Unidos sobre os esforços de cooperação e colaboração militar dos EUA na América Latina.

 

10 Comments

  1. Ferreira Junior says:

    Sempre é bom conhecer os pensamentos, sejam de amigos ou não!

  2. ESTOU PAGANDO PARA VER… a mamãe gostosona não tem cacife econômico pra bancar uma guerra fria ou quente do outro lado do planeta, bem na bunda dos yankes… 🙂

  3. Texto ridículo” “…Ao contrário das relações entre a Rússia e a Venezuela, os Estados Unidos, junto com as forças armadas das nações parceiras, realizam exercícios multinacionais com foco na assistência humanitária”, HUMANITÁRIA??

  4. Pelo andar da coisa Maduro só cai com intervenção externa. E para Nós é melhor que a coisa fique como esta, porque uma intervenção externa significa massas de refugiados e presença certa de tropas dos EUA e OTAN na Venezuela, e ai todo mundo sabe como começa mas ninguém sabe como termina, Síria e Líbia que o digam. Quem acredita que a preocupação dos EUA é relacionada a democracia que cobrem deles uma outras postura para com a Arabia Saudita, as reservas de petróleo da Venezuela são gigantescas .
    Acredito que a maior contribuição Russa seja na área de inteligencia, o que evitaria a entrada de armas em território Venezuelano.

    * não duvido que a China entre nessa parada, tem muito petróleo ali.
    ** imagine uns 30 mil soldados dos EUA estacionados na Venezuela e já com um olho em alguma aldeia Yanomami ao Sul, tipo vamos juntar os de lá com os de cá e formar uma nação ecologicamente correta para agradar o mundo.
    *** O Brasil foi o primeiro Pais a reconhecer a independência de Angola em 1975, então um Pais socialista. Hoje estamos atirando no próprio pé sem pensar em nossos interesses, com direto ao vice presidente estar tentando enquadrar o ministério das relações exteriores pra ver se alivia estragos. Atear mais fogo na já complicada Venezuela só vai piorar a situação e possibilitar a abertura de uma porta para interferência externa na Amazônia (será que não é isso que o Olavo quer?).
    **** não morro de amores pelo Maduro, mas prefiro ouvir que a Venezuela esta sofrendo com a falta de papel higiênico do que correr o risco de ouvir que vão criar uma nação Yanomami na Amazônia. Basta trazer esse pessoal “amigo” para as vizinhanças para ver onde vamos parar.

    Sds

    • “PARA NÓS” quem, cara pálida ???… pra essa seita satânica, filha da perdição, neta da desordem, pária do capital transnacional, que nos afundou por 14 anos na incompetência e no engano dos mágicos rentistas ???… só se for… a fruta madura está prestes a se esborrachar no chão, feito jaca madura, como foi com Kadaffi… eu nunca erro em meus prognósticos… e para o seu conhecimento: O OLAVO SEMPRE TEM RAZÃO !!!… 🙂

    • De novo meu caro Muttley? Torcida é uma coisa mas negação da realidade é complicado…..

      O fato é que Maduro vai cair sem que se faça necessário disparar um único tiro! A cada dia que passa ele perde legitimidade pois mais países reconhecem Guaidó como presidente interino tendo em vista o caos econômico e social provocado pelo “socialismo do século XXI” (que tem os mesmos defeitos do socialismo do século XIX ou seja, distribui igualitariamente a miséria) e a fraude escancarada que operou nas eleições.

      Maduro consegue ser mais burro do que se imagina! Não apenas queima suas parcas reservas movimentando soldados e equipamentos como ainda cai que nem um patinho na estratégia da oposição. Diante da movimentação maciça de ajuda humanitária em diversos pontos da fronteira e o estado de penúria do povo o risco de unidades do exército mudarem de lado ante à multidão de voluntários que se ofereceu para buscá-la é enorme assim como também é grande a possibilidade de haverem tumultos e mortes caso as unidades sigam à risca as instruções do narcoditador. E ambos os cenários sào péssimos para a ditadura bolivariana. Enquanto isso a propalada ajuda humanitária russa está na mesma categoria de cabeça de bacalhau e orelha de freira.

  5. jose luiz esposito says:

    Gente sem condições alguma de conhecimento , comenta sem fundamento algum , colocando em Perigo os nosso interesses , apenas por achismo , etc . Atacam Gaddafi , o nosso reconhecimento de Angola uma país irmão , com a mesma formação nossa , , apontam a Rússia e a China como Comunistas , ACHAM que os EUA é o nosso MUI AMIGO etc, etc , em uma prova de falta de conhecimento total , claramente tirariam um 10 ( DEZ ) com Louvor , Direito a Medalha e escolher a Música no Fantástico. Não entendo porque pessoas sem conhecimento básico algum , querem comentar, sem conhecimento e por estarem apenas por estarem enFEZADOS !!

  6. jose luiz esposito says:

    Somente mais uma coisinha , a Europa decadente o que é para os EUA ? Fazem dela , um Território americano de Ultramar , para fazerem ameaças a Rússia que sabidamente nunca se interessou e muito menos agora em atacar ou expandir-se para Oeste , pois é sabido que ela avançaria para Europa rapidamente , quando assim quisesse , e hoje mais facilidade , os EUA não teriam como impedi-la a não ser usando Armas Nucleares , porém desta forma seria Destruído . A Rússia principalmente após 1992 , quer uma integração econômica com a Europa de Oeste , mas isto seria uma Desgraça para os EUA !

  7. A Máquina Troll says:

    muttley eu quero dar os meus parabéns a vc…seus comentários estão sendo os melhores entre os feitos por este blogs de defesa sobre o assunto…

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